Sábado, 27 de Setembro de 2008 | Versão Impressa

Revitalização da Roosevelt depende de novo dos teatros

Enquanto projeto da Prefeitura não sai do papel, grupos poderão montar palco ao ar livre e ocupar o espaço

Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli

As toneladas de entulho que transformam a Praça Roosevelt no maior contraste de uma região onde se multiplicam teatros, bares e livrarias começaram a ser removidas na quarta-feira pela Prefeitura, dois anos após a demolição de um supermercado que funcionava no local. Agora, mesmo sem verba pública nem projeto da Prefeitura, os artistas que ajudaram a levar de volta intelectuais e boêmios a uma das áreas mais degradadas do centro paulistano também vão ocupar a parte da praça ainda habitada por usuários de drogas e travestis.

O projeto de R$ 13 milhões para a revitalização da praça nem sequer saiu do papel, três anos e meio depois de ser alardeado pela gestão José Serra/Gilberto Kassab. Com a retirada dos entulhos, a revitalização ficará a cargo da própria sociedade - um palco a céu aberto poderá ser montado na praça pelos administradores dos teatros da região. "É uma forma de compensar os grupos teatrais e os moradores pelo atraso no projeto (de revitalização)", diz o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo. "Realmente atrasou muito. Agora, sem os entulhos, os artistas podem ocupar a praça com atividades dos grupos que já ajudaram a melhorar muito a região."

Os grupos teatrais foram informados pelo governo sobre a possibilidade de estenderem suas atividades para a praça há duas semanas. "O ideal seria a reforma da praça, até porque ela não é só dos teatros. Mas ocupar o espaço com um palco à noite é uma boa idéia e pode ajudar na revitalização humana da região. Podemos ter mais oportunidades para artistas de rua também", afirma Hugo Possolo, do Parlapatões, Patifes & Paspalhões , grupo que chegou à praça em 2006. Outros cinco teatros funcionam na região: Os Satyros Um e Dois, Studio 184 e Teatro do Ator, além do Ópera Bufa, em reforma.

O Satyrianas, uma Saudação à Primavera, projeto com 78 horas de atividades ininterruptas, desde leitura de poesia até encenações ao ar livre, poderá ser realizado no final de outubro na praça, caso o entulho tenha sido removido.

Os comerciantes mais antigos da região, como o barbeiro Renato Orbetelli, de 61 anos, há quatro décadas na praça, aprovam a ocupação pelos teatros. "Eles ajudaram muito. Eu passei a funcionar até umas 21 horas, para pegar um pouco do movimento da praça à noite, nos bares. Quanto mais o espaço público for ocupado, melhor", comenta Orbetelli, o mais antigo da Rua João Guimarães Rosa. A opinião é endossada pelo cartunista Gualberto Costa, de 53 anos, dono da livraria HQ MIX, especializada em quadrinhos. "Vou completar um ano aqui funcionando das 15 às 3 da manhã. Com a lei seca, muita gente vem aos bares comer e depois passa aqui na livraria e fica mais tempo."

DESCONTRAÇÃO

A HQ MIX, nome em referência à principal premiação da categoria, se tornou a meca de ilustradores e aficionados por quadrinhos. "Faço seis lançamentos de livros por semana aqui. E olha que quase desistimos de fazer a loja neste lugar. Quando fomos fechar o contrato de aluguel, no ano passado, minha mulher viu dois homens brigando com facas na praça. Ela ficou assustada, mas resolvemos apostar na revitalização. Está dando tudo certo", diz Costa.

Mesas espalhadas pelas calçadas e espetáculos que começam à meia-noite são alguns dos atrativos que surgiram nos últimos três anos e ajudaram a descontrair a região. Aos sábados, uma animada feijoada com roda de samba, no Bar da Dona Rafaela, batizada de "Você Vai Se Quiser", também passou a ser disputada.

"Não tem nem como reclamar dos teatros, eles que deram vida nova para esse quarteirão. Ocupar a praça com um palco é interessante. Só que a Prefeitura não pode usar isso como desculpa para não fazer o projeto de revitalização", disse Sebastião Moreno, de 69 anos, síndico de um dos edifícios que ficam de frente para a Roosevelt. "Até 2005 ninguém pagava mais de R$ 70 mil por um apartamento aqui. Agora tem gente que não vende nem por R$ 150 mil. Entre os artistas, morar aqui se tornou meta de vida."

A licitação para o início das obras de revitalização, antes prevista para o final de agosto, não tem mais data. O projeto executivo só deverá ficar pronto no final de outubro e deve prever a demolição das três lajes que abrigam um batalhão da Polícia Militar e da Guarda Municipal. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) vai financiar 85% dos R$ 13 milhões.

Uma escadaria e uma rampa devem ser construídas depois da demolição das lajes, para interligar a praça ao espaço urbano das Ruas Augusta e da Consolação. Quiosques de floristas devem ser construídos e uma alameda interna, levantada para ampliar a vegetação. Inaugurada em 1970, a praça tem poucas árvores e muito concreto na área de 30 mil m2, com a imponente Igreja Nossa Senhora da Consolação ao fundo.