Domingo, 05 de Outubro de 2008 | Versão Impressa
Esboço da alma humana
Assinada por Paulo Bezerra, chega em novembro tradução direta do russo do romance Os Irmãos Karamázov, último livro de Fiódor Dostoiévski, que aborda os grandes temas da sociedade russa, da essência do homem e de sua literatura
Francisco Quinteiro Pires
Até hoje depreciado como um autor de formas literárias rudes, Dostoiévski padeceu com as traduções indiretas feitas do inglês e do francês para o português. A história começou a mudar em 2000, com Memórias do Subsolo, traduzido diretamente do russo por Boris Schnaiderman. O ápice desse processo é a tradução de Os Irmãos Karamázov por Paulo Bezerra. Sob a chancela da Editora 34 e considerado a síntese das criações de Dostoiésvki, esse romance chega às livrarias em 5 de novembro, dentro de uma caixa com dois volumes, com 1.040 páginas e a R$ 98. Esta é a primeira edição efetivamente integral em língua portuguesa.
Última obra de Dostoévski, escrita um ano antes de sua morte, em 1881, o romance é um esboço profético do século 20 e do começo do 21, quando o capitalismo mostrou suas faces mais selvagens. As certezas e as utopias caíram por terra. "No lugar, aparece o novo deus - o mercado", diz Bezerra. Segundo o tradutor, o autor russo manifestou em toda a sua obra, em especial no Os Irmãos Karamázov, "o poder devastador do dinheiro sobre o psiquismo das pessoas". Atualmente soa ridículo ter como perspectiva a irmandade universal, no que Dostoiévski apostava. O negócio é guiar-se racionalmente pelo egoísmo, risco que o autor de Crime e Castigo mais temia.
O centro do romance é o questionamento sobre a possibilidade da coexistência da moralidade com a renúncia a um poder sobrenatural. "A grande dúvida está em saber se uma consciência sem Deus leva ao desastre e legitima a tudo", diz Aurora Bernardini, tradutora e professora da USP. "Parece que o homem não sabe lidar com a liberdade, ele quer a autoridade e o mistério", arremata. Com o homem do século 21 não é diferente. A consciência humana não se tranqüiliza sem a crença em algo transcendente. A multiplicação de superstições e a força do esoterismo, segundo Bezerra, são um sintoma. O pânico causado pela crise financeira atual é outro.
Paulo Bezerra afirma que Os Irmãos Karamázov não pode ser reduzido à esfera religiosa. Não se pode restringir o enredo à dúvida sobre a imortalidade da alma como garantia da virtude dos indivíduos. "Dostoiévski tinha profundo sentido histórico, via o homem como um sujeito da história, que devia ter preocupação com a imagem deixada à posteridade", diz Bezerra. Para o tradutor, a preocupação com as coisas deste mundo resulta no comprometimento ético com o semelhante, apesar de os fatos atuais indicarem o contrário: o enfraquecimento dos laços solidários.
Enquanto isso, como Dostoiévski mostrou por intermédio de seus personagens, a consciência não deixava de torturar os indivíduos com os seus gritos. Sua literatura apóia a ação nos momentos de crise e de catástrofe. Seus personagens são conscientes da condição de humilhados e têm voz própria. "Mikhail Bakhtin dizia que Dostoiévski não inventava os personagens, ele os pré-encontrava na realidade", afirma Bezerra. E, cedo ou tarde, os escrúpulos - etimologicamente as pedrinhas da alma - desses indivíduos começavam a incomodar. O alerta é dado, mas o que fazer depois dele?
A famosa máxima "Se Deus não existe, tudo é permitido" é atribuída a Ivan Fiódorovitch, um dos três irmãos Karamázov (com o primogênito Dmitri e o caçula Alieksiêi, filhos de Fiódor Pávlovitch). Segundo Paulo Bezerra, Ivan é o personagem que mais se aproxima do alter ego de Dostoiévski, de fala erudita, com a qual questiona a existência divina e rejeita este mundo.
Revolta é o capítulo principal de Os Irmãos Karamázov, de acordo com Bezerra. Nele, Ivan rebela-se ao narrar a história de um criança violentada por um general. Não era possível aceitar uma sociedade em que a inocência infantil, manifestação da presença divina, era manchada. Não era mais possível a anulação do homem como agente da própria vontade diante desse crime. Restava ultrapassar o limite, depois do qual o sujeito não é mais um na manada. Mas como é doloroso ser dono de si mesmo!
Dmitri Fiódorovitch Karamázov, segundo Bezerra, é o representante da decadência da nobreza russa. Sua linguagem vulgar e seu desvario psicológico representam a consolidação dos hábitos burgueses. Para Dostoiévski, o egoísmo desses hábitos ameaçava inviabilizar o destino dos homens na Terra.
Quem promove a mediação entre os personagens é Alieksiêi (Aliócha) Karamázov, o homem de Deus. Eleito como herói pelo narrador de Os Irmãos Karamázov, Aliócha é "a medula do todo". É o procurado pelas criaturas atrás de "algum sentido comum na balbúrdia geral". Embora acreditasse nos homens, aos quais dedicou amor incondicional, ele não era considerado simplório ou idiota. Aliócha não condenava ninguém, era respeitado por carregar o conhecimento dos recantos da alma humana. Não só compreendia, mas vivia os problemas dos outros.
Aliócha era monge, mas essa escolha não o livrou das contradições do espírito humano nem da sensualidade dos Karamázov. (No russo, Karamázov pode significar negro, castigo ou borrão.) Sua condição o martirizou. Até o fim ele defendeu verdadeiros valores humanos, como a amizade, capazes de justificar a vida neste mundo.
Enquanto suportava suas tormentas existenciais, Fiódor Dostoiévski acreditou que o mundo podia ser mais bonito - havia a possibilidade de redenção. Esta vida bem podia ser o resultado da prática do amor universal: a entrega a todos e a cada um, sem reservas e com abnegação.