Sábado, 18 de Outubro de 2008 | Versão Impressa
Abaixo-assinado de moradores pede shopping na Bela Vista
Quase 5 mil já deram apoio ao projeto do Grupo Silvio Santos, combatido pelo Teatro Oficina
Bruno Paes Manso
Desde o mês passado, lideranças e moradores da Bela Vista passam um abaixo-assinado em apoio ao projeto de construção do Shopping Bela Vista Festival Center, a ser construído pela Sisan Empreendimentos, braço imobiliário do Grupo Silvio Santos, no quarteirão do Teatro Oficina, na Rua Jaceguai. A obra é combatida pelo diretor do Oficina, José Celso Martinez Corrêa.
"O Zé Celso ganhou a campanha de marketing, e os paulistanos ficam sem saber o que pensam os moradores do bairro. Nós queremos o shopping para reverter o processo de degradação enfrentado pela Bela Vista e pelo Bexiga. O Oficina é um patrimônio do bairro e deve continuar onde está. Mas não pode impedir o progresso", afirma o publicitário Flávio Guarniero, do Conselho de Segurança da Bela Vista e um dos organizadores do abaixo-assinado.
Junto com o síndico do Condomínio Viadutos, João Silva Bonfim, da Ação Local da Rua Maria Paula, e o empresário Rui de Souza Mello, do Conseg do bairro, conseguiram quase cinco mil assinaturas. "O que move o mundo é o dinheiro. Com a vinda do shopping, vai aumentar a segurança, além de despertar a lombriga de quem tem mais dinheiro para investir no bairro", avalia Mello.
Tombado em 1983, a Bela Vista, que engloba o Bexiga, mostra hoje evidentes sinais de decadência e desordem. A Rua Conde de São Joaquim, onde fica a empresa de Mello, hoje tem pelo menos 15 pensões e cortiços. Há lixo e esgoto pela rua.
Apesar de os índices de criminalidade na região terem diminuído neste ano, o número de roubos e furtos é elevado: cerca de 20 por dia, principalmente de celulares. "São crimes oportunistas, que ocorrem principalmente na hora do rush. Mas assustam a população", diz o capitão Genivaldo Antônio, da 1ª Companhia da PM. "Como policial, não tenho posição sobre a polêmica. Como cidadão, acho que o shopping pode estimular os empreendimentos no bairro e ajudar a diminuir a sensação de desordem", afirma.
Moradores do bairro afirmam que os problemas começaram com a série de invasões ocorridas em dois edifícios e um galpão da região em dezembro de 1999. Com o passar dos anos, os imóveis vizinhos foram sendo invadidos e os moradores da rua deixaram suas casas.
"Morava na rua e tive que me mudar. Hoje só mantenho a empresa no mesmo local. De noite, a barra fica muito pesada, e não demora muito para a rua tornar-se uma cracolândia", diz Mello.
Os alunos do Centro Universitário Ibero-Americano (Unibero), na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, são também vítimas preferenciais. O diretor da entidade, Elwyn Correia, calcula que dois alunos são assaltados por dia. Os alvos prediletos são celulares. Para enfrentar o problema, ele teve de disponibilizar ônibus para levar e trazer estudantes do metrô e contratar três seguranças privados. "As coisas pioraram nos últimos cinco anos. Das seis unidades que temos na Grande São Paulo, incluindo bairros em lugares mais pobres e afastados, como Campo Limpo e Pirituba, esse câmpus é o que mais dá problemas", diz.
Na visão dos moradores e comerciantes que assinam o abaixo-assinado, a construção do shopping aparece como o alavancador de novos investimentos e da volta da ordem na Bela Vista. Proprietária do Teatro Brigadeiro, Maria Inês Burini Chaccurt viu o Teatro Bandeirantes transformar-se em uma igreja evangélica e a decadência do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). "O shopping vai ajudar a trazer de volta o dinamismo da região. Por isso estamos pedindo para freqüentadores e artistas assinarem o abaixo-assinado", diz ela.
Apesar do movimento dos moradores, a Sisan Empreendimentos realiza consultas no Conpresp e no Condephaat para construir duas torres de apartamentos no lugar do shopping. Os conselhos municipal e estadual de patrimônio histórico ainda não definiram se autorizam ou não o empreendimento. O Estado procurou o diretor da Sisan, Eduardo Velucci, mas não obteve retorno.
CONTRA-ATAQUE
Para responder ao manifesto dos moradores da Bela Vista, o diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, diz que pretende usar armas parecidas. Pretende passar, ainda em outubro, um abaixo-assinado em defesa dos projetos que defende para o bairro, como a Universidade Antropofágica e o Anhangabaú da Felicidade, teatro com 5 mil lugares no fundo do Oficina. "Queremos misturar as diferentes classes sociais no bairro, não expulsar os mais pobres", diz. "É isso que vai ocorrer se o shopping for construído."