Quinta-Feira, 01 de Janeiro de 2009 | Versão Impressa
Cantoras, bossa nova e mistureba de gêneros
Sem tendência predominante na música brasileira, destaque é dos independentes
Lauro Lisboa Garcia
O certo é que a produção independente continua a ser o nicho de maior interesse, quando se considera que música popular ainda pode ser arte, apesar do que a televisão vende como detergente. E nisso reverberam lições da revolucionária bossa nova, o espírito libertário do tropicalismo e a busca por fontes de água menos contaminada - o moderno em provável harmonia com o antigo, o tradicional. Curumin, DJ Dolores, Silvia Machete, Zé Renato e Ná Ozzetti são alguns dos que mostraram bons resultados nessa confluência.
O delicioso show de Ná em homenagem a Carmen Miranda foi sucesso de público atendendo aos gostos exigentes, trazendo o espírito de Carmen para o século 21, com personalidade própria e respeito ao original. Zé Renato, ao mesmo tempo que se aproximou de uma vertente mais pop, sofisticou o lado B da jovem guarda com belas harmonias no CD É Tempo de Amar. Curumin misturou samba com soul, dub, rock e hip-hop no ótimo CD Japan Pop Show, que ganhou forma mais encorpada no show do palco indie do festival Planeta Terra.
Em contrapartida, houve o fenômeno teen de internet Mallu Magalhães, que ao vivo, no mesmo festival, não fez jus à fama repentina, com seu folk retrô derivativo e voz sem nuance. O que não falta neste País, como se sabe, são vozes femininas brotando do nada o tempo todo. Mas muito raramente surge alguma cantora que se impõe pela personalidade. Nesse quesito, 2008 tem saldo positivo com a afirmação da baiana Márcia Castro, que engrenou em São Paulo com o ótimo material do CD Pecadinho, lançado em 2007. Com a mesma verve irreverente, também começa a brilhar com mais intensidade ao vivo a carioca Silvia Machete, que acaba de lançar o CD/DVD Eu Não Sou Nenhuma Santa. Dois sopapos na caretice da MPB atual.
Colegas na banda Dona Zica, Iara Rennó e Andréia Dias também tiveram sua boa cota de ousadia ao lançar os respectivos álbuns-solo de estreia - Macunaíma Ópera Tupi e Vol. 1. Iara venceu o festival dentro da Semana da Canção Brasileira em São Luiz do Paraitinga no ano passado. Aberta a todas as tendências, a Semana, com curadoria da cantora Suzana Salles, confirmou sua importância na segunda edição este ano e colocou em evidência o talentoso compositor Fabio Barros no festival. Além de Ná cantando Carmen, o show resultante de outro dos melhores CDs do ano - Padê, de Juçara Marçal e Kiko Dinucci - figurou na extensa programação. Outro Kiko, o Klaus, pernambucano, também merece entrar na lista dos discos mais bacanas, com O Vivido e o Inventado.
Os 50 anos de bossa nova foram comemorados com duas exposições no Parque do Ibirapuera; memoráveis shows do pai da matéria, João Gilberto; um concorrido encontro de Caetano Veloso e Roberto Carlos em homenagem a Tom Jobim, que dividiu opiniões; e um equivocado tributo a João Donato, com Marcelo Camelo, Bebel Gilberto, Adriana Calcanhotto e outros que se saíram melhor do que eles. Milton Nascimento uniu-se ao Jobim Trio e fez muito bem sua parte no sofisticado CD Novas Bossas.
Outra efeméride que rendeu notícia foi o centenário de nascimento do sambista carioca Cartola, morto em 1980. Curiosamente, quem prestou o melhor tributo a ele foi a cantora paulista Cida Moreira, com o belo CD Angenor. A escola de samba Mangueira, da qual Cartola foi um dos fundadores em 1928, preferiu investir no centenário do frevo (com um ano de atraso), atendendo a encomenda da Prefeitura do Recife.
A capital pernambucana, por outro lado, realizou o Carnaval Multicultural, com extensa e encorpada programação de shows por toda a cidade, como nos últimos anos. Virou um grande festival da melhor música brasileira. O DJ Dolores - que lançou o ótimo terceiro CD, 1 Real, fundindo ritmos regionais com reggae, rock e outros gêneros - foi uma das atrações. Teve também encontros de Nação Zumbi e Paralamas, Siba, Zeca Baleiro e a Fuloresta, Silvério Pessoa com Manu Chao, o Rec Beat e muito mais.
O dueto da incansável Maria Bethânia com a majestade cubana Omara Portuondo foi parar até na lista da revista Time. Mais emocionante, porém, foi o encontro de Almir Sater, Ivan Vilela, Adelmo Arcoverde, Paulo Freire, Pereira da Viola e Passoca no Auditório Ibirapuera para lançar o fabuloso projeto de DVD e livro Violeiros do Brasil, produzido por Myriam Taubkin.
Da série "a gente podia ter passado sem essas coisinhas ridículas": Mart?nália cantando Don?t Worry, Be Happy, de Bobby McFerrin (a pior gravação do ano, para dizer o mínimo); Caetano Veloso chamando a crítica musical de "lixão da imprensa"; Ivete Sangalo investindo no filão infantil; a "ressurreição" de Gonzaguinha nas trilhas de novela. No mais, foi aprovada a lei que obriga o ensino de música nas escolas e Gilberto Gil deixou o cargo de ministro da Cultura e voltou a se dedicar a compor e cantar, lançando o bom CD Banda Larga Cordel.
15 Bons Brasileiros do Ano
DJ DOLORES - 1 Real
CURUMIN - Japan Pop Show
IARA RENNÓ - Macunaíma Ópera Tupi
ANDRÉIA DIAS - Vol. 1
ZÉ RENATO - É Tempo de Amar
ARI BORGER - AB4
CIDA MOREIRA - Angenor
KIKO KLAUS - O Vivido e o Inventado
UAKTI - Blindness
JUÇARA MARÇAL E KIKO DINUCCI - Padê
TONINHO HORTA E ARISMAR DO ESPÍRITO SANTO - Cape Horn
ROSA PASSOS - Romance
MILTON NASCIMENTO E JOBIM TRIO - Novas Bossas
GILBERTO GIL - Banda Larga Cordel
ADRIANA MACIEL - 10 Canções