Quinta-Feira, 08 de Janeiro de 2009 | Versão Impressa
O longo silêncio de J.D. Salinger
Autor do clássico Apanhador no Campo de Centeio completou 90 anos no dia 1.º e há 40 vive recluso
Charles McGrath, The New York Times
Na realidade, o desaparecimento de Salinger do cenário mundial foi tão perfeito que talvez seja difícil para os leitores que não são de meia-idade se darem conta da sensação que ele causou no seu tempo. Com a primeira sentença, o romance The Catcher in the Rye (Apanhador no Campo de Centeio) publicado em 1951, introduzia uma voz completamente nova na escritura americana, e rapidamente se tornou um livro cult, um ritual de passagem para os intelectuais e os desiludidos. Nine Stories, publicado dois anos mais tarde, fez de Salinger o escritor favorito da crítica, ao desmontar a tradicional arquitetura do conto, substituindo-a por outra na qual um conto podia acrescentar uma mínima mudança de humor ou de tom.
No entanto, na década de 60, no auge da fama, a voz de Salinger se calou. Franny and Zooey, uma coletânea de dois contos longos sobre a família Glass, de ficção, saiu em 1961; outros dois contos longos sobre os Glass, Raise High the Roof Beam, Carpenters (que no Brasil virou Pra Cima com a Viga, Moçada) e Seymour: An Introduction, saíram juntos em um livro em 1963. A última obra impressa de Salinger foi Hapworth 16, 1924, um conto que tomou quase toda a edição de 19 de junho de 1965, do The New Yorker. Na década de 70, ele parou de dar entrevistas, e no final da de 80 recorreu à Suprema Corte para impedir o crítico inglês, Ian Hamilton, de citar suas cartas em uma biografia.
Então, o que fez Salinger nos últimos 40 anos? A indagação tornou-se uma verdadeira obsessão para os especialistas neste autor, ainda bastante numerosos, e a seu respeito foram elaborados todos os tipos de teorias. Ele não escreveu mais nenhuma palavra. Ou escreveu o tempo todo e, como Gogol no fim da vida, queimou os manuscritos. Ou então guardou inúmeros volumes que aguardam a publicação póstuma.
Joyce Maynard, que viveu com Salinger no início da década de 70, escreveu em um livro de memórias de 1998 que viu prateleiras cheias de cadernos dedicados à família Glass e achava que havia pelo menos dois novos romances trancados em um cofre.
Hapworth, que nunca foi publicado na forma de livro, talvez seja a nossa única pista sobre o que Salinger pensa, e é diferente de todo o que ele escreveu. A história só estava disponível em cópias e mais cópias mimeografadas, passadas de mão em mão, e que iam se tornando cada vez mais apagadas a cada nova cópia tirada - embora agora seja um pouco mais acessível, depois da edição do DVD de The Complete New Yorker de 2005. Em 1997, Salinger permitiu que a Orchises Press, uma pequena editora de Alexandria, Virgínia, publicasse uma edição de capa dura, mas cinco anos mais tarde, anulou o acordo.
Desde então, os admiradores de Salinger se debruçaram sobre o texto, à procura de um significado oculto. Acaso a temporária disposição do autor de reeditar Hapworth indicaria uma retomada, o aquecimento da máquina que se tornara notoriamente silenciosa? Ou seria um gesto de fechamento definitivo, a conclusão da saga da família Glass - que, ocorrendo no final, mas também no início cronológico, encerra todo o círculo deste empreendimento? Resumindo o que é impossível de resumir, Hapworth é uma carta - ou a transcrição de uma carta - de 25 mil palavras, escritas apressadamente, por Seymour Glass aos 7 anos, em um acampamento de verão, aos pais, os dois sofridos ex-atores de variedades Les e Bessie, e a seus irmãos Walt, Waker e Boo Boo, em Nova York.
Ficamos sabendo assim que Seymour já está lendo em várias línguas e deseja ardentemente a sra. Happy, a jovem esposa do dono do acampamento. Ele é condescendente com os colegas do acampamento e dispensa conselhos aos vários membros da família: Les deveria tomar cuidado com o sotaque quando canta, Boo Boo precisa treinar a letra, Walt cuidar de suas maneiras, e assim por diante.
A carta se conclui com uma extraordinária lista de livros que Seymour gostaria que lhe enviassem - leituras para toda a vida, para a maioria das pessoas, mas no seu caso, apenas os livros de que ele precisa para passar as seis semanas seguintes: "Qualquer livro, com ou sem comentários, até mesmo sobre Deus ou sobre religião, escrito por pessoas cujo último nome comece por qualquer letra depois do H; para não errar, por favor, incluam também o H, embora ache que já a esgotei na maior parte... As obras completas do Conde Leon Tolstoi.... Charles Dickens, na sua abençoada edição integral ou em qualquer outra forma. Meu Deus, eu te saúdo, Charles Dickens!" E assim por diante, até Proust - em francês, evidentemente - Goethe, e de Porter Smith, Chinese Materia Medica.
Em suma, Hapworth deve ser a carta mais longa e a mais pretensiosa (e a menos plausível) que uma criança jamais escreveu em um acampamento. Mas, embora seu autor seja um prodígio, manifesta também, como todas as cartas escritas em um acampamento, o desejo de chamar a atenção de alguém que tem saudades de casa.
É o mesmo Seymour que, durante a lua-de-mel na Flórida, anos mais tarde (mas - e a coisa aqui fica um tanto confusa - 17 anos antes, em tempo real, no conto de 1948, A Perfect Day for Bananafish), pegará uma pistola automática do fundo da mala e se matará com um tiro na têmpora enquanto sua esposa dorme na cama ao lado. E o mesmo Seymour - o santo, o poeta, o místico da família - de quem ouvimos falar nos contos posteriores da família Glass.
Mas será de fato o mesmo? O Seymour de Bananafish, e Raise High the Roof Beam, é mais um sujeito neurótico, mas doce e encantador, do que a figura etérea, espiritual, descrita em Seymour: An Introduction, que por sua vez não parece absolutamente o pequeno gênio superior, orgulhoso de Hapworth. As discrepâncias entre as várias versões de Seymour são tais que alguns críticos questionaram os motivos e a confiabilidade de Buddy, o irmão mais novo de Seymour e o escriba da família, que é nossa fonte no que se refere à grande parte do que conhecemos (e também o autor da transcrição da carta de Hapworth).
Mas esse tipo de leitura complexa, à la Nabokov, é talvez forçada neste caso. Salinger parece menos interessado em manter detalhes precisos do que em corrigi-los e dar uma explicação, ou talvez uma justificativa, naquele momento impressionante, mesmo depois de muitas releituras, quando Seymour se mata. É como se Salinger se desse conta, tardiamente, de que matou seu melhor personagem antes do tempo e quisesse fazer as pazes com ele.
TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA