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Cuide da sua vida, Holden Caulfield
Professores americanos dizem que estudantes dos EUA já não têm paciência com o personagem e preferem Harry Potter
Até a Justiça americana dar a palavra final sobre a proibição da edição de 60 Years Later: Coming Through the Rye nos Estados Unidos, os fãs de Salinger serão poupados da perspectiva de ver o adolescente alienado Holden Caulfield como um velho esquisito e solitário que foge de um asilo e sua amada irmã, Phoebe, uma viciada em drogas à beira da demência. Mas Holden pode ter problemas maiores do que os insultos de parodistas irreverentes e outros "charlatães", como diria o personagem. Mesmo que Salinger procure manter o controle de suas mais famosas criações, há sinais de que Holden possa estar perdendo o seu domínio sobre a garotada.
O Apanhador no Campo de Centeio ainda é leitura básica nos currículos da escola secundária americana, amado por professores que o leram e releram na juventude. O problema são os jovens de hoje. Os professores dizem que os adolescentes já não gostam de Holden Caulfield como eles próprios gostavam. Se antes, falar a verdade era um ato corajoso, atualmente, para muitos, é uma coisa "bizarra", "imatura".
"O adolescente alienado perdeu muito da sua novidade", diz Ariel Levenson, professora de Inglês na Dalton School, que fica na região abastada de Manhattan, território de Holden. E ela acrescenta que mesmo os estudantes que gostam do livro tendem a achar a sua linguagem - como o uso de "phony" (charlatão), ou "her hands were lousy with rocks" (suas mãos estavam cheias de pedras preciosas) e os implacáveis "Goddams" (malditos) - dissonante e antiquada.
"Holden Caulfield deveria ser o adolescente que poderia servir de paradigma para tudo, mas na verdade nós nem falamos dessa maneira nem sobre essas coisas", diz Levenson, resumindo a resposta típica dos atuais adolescentes. Ela diz que na escola pública onde leciona "muitos estudantes comentam que não se entristessem com aquele menino rico que tem um fim de semana livre em Nova York". Julie Johnson, que durante três décadas deu aulas sobre Salinger na New Trier High School, em Winnetka, Illinois, cita reações similares. "A passividade de Holden é exasperante e desconcertante para muitos estudantes da atualidade. Em geral, eles não têm muita simpatia por anti-heróis alienados; eles estão mais preocupados em se distinguir na sociedade como ela é, em vez de tentar mudá-la."
Naturalmente, Holden sempre teve os seus detratores. Harcourt Brace, editora que recebeu em primeira mão os originais de O Apanhador no Campo de Centeio, rejeitou-os dizendo que não estava muito claro se Holden era um louco. Mais tarde, críticos como Joan Didion e George Steiner ridicularizaram a sua superficialidade moral e a "capacidade de se relacionar".
Holden, porém, conquistou os jovens, especialmente os da década de 60, que se consideravam "filhinhos de papai" rebeldes, segundo o crítico de cultura Morris Dickstein. "O ceticismo, a crença da pureza da alma frente a uma cultura brega e vulgar teve sucesso na geração da contracultura e pós-contracultura", diz Dickstein, que leciona no Graduate Center da Universidade da Cidade de Nova York. Hoje, "não diria que temos uma cultura juvenil mais crédula; seria mais uma cultura de associação, de unidade".
A cultura hoje também é mais competitiva. Os adolescentes parecem mais interessados em entrar em Harvard do que em ser expulsos de Pencey Prep. Os jovens, com sua compulsão pelas mensagens de texto e o metabolismo cultural popular hiperativo, ficam mais entusiasmados com Harry Potter do que com a equipe de esgrima de Pencey. Parece que os heróis da cultura popular hoje são os "nerds" que conquistam o mundo - como Harry Potter - e não os fracassados que o rejeitam.
Talvez Holden não se sentisse tão solitário se tivesse crescido no mundo atual. Afinal, Salinger escreveu sua história bem antes de surgirem esses enormes complexos de entretenimento cultural multibilionários, projetados para atender ao gosto dos adolescentes modernos. Hoje, os adultos podem lamentar o fato de que filmes violentos e comédias idiotas de sexo tomaram conta dos cinemas, contudo, os adolescentes no passado viam-se isolados entre coisas adultas e divertimentos infantis.
Para alguns críticos, Holden é atualmente menos popular e a culpa é da nossa própria impaciência com a ideia de uma busca eterna por uma identidade e o sentido das coisas que o personagem representa. Barbara Feinberg, especialista em literatura infantil que acompanhou inúmeras discussões em classe sobre o romance de Salinger, refere-se a um artigo sobre um fracassado que adorava Holden, publicado no jornal Onion e intitulado Busca pelo Eu Termina Depois de 38 Anos. Diz ela: "Holden é uma espécie de vítima da tendência que existe, hoje, de se usar abordagens cada vez mais mecanicistas para compreender o comportamento humano." E prossegue: "Comparado com os anos 50, não existe muito espaço para o adolescente ir em busca da intuição, da empatia, dos mistérios do inconsciente e da libertação possível que pode nascer do diálogo com outra pessoa." Barbara lembrou-se de um garoto de 15 anos, de Long Island, que lhe disse: "Todos da minha classe odeiam Holden. Eu só queria dizer a ele: ?Cale a boca e tome o seu Prozac.?"
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