Sexta-Feira, 18 de Setembro de 2009 | Versão Impressa

Soderbergh refaz Che de Fleischer, de 1969

Ele é a mesma figura humana, denunciada aos militares por um pastor de ovelhas

Crítica Luiz Carlos Merten

E se o sonho secreto de Steven Soderbergh fosse ser o Richard Fleischer de sua geração? Nos anos 50 e 60, o filho do lendário criador de Betty Boop, Max Fleischer, revelou-se um cineasta eclético. Para muitos críticos, era apenas um artesão habilidoso, mas sempre houve uma constante temática em seu cinema e os pontos altos de sua carreira são clássicos de Hollywood. 20 Mil Léguas Submarinas, Vikings os Conquistadores, O Homem Que Odiava as Mulheres, etc. Fleischer adorava os policiais, mas não resistia a um épico, e tentou até o musical (Doutor Doolittle). Soderbegh começou autoral - Wim Wenders viu o futuro do cinema em sexo, mentiras e videotape, com o qual ele ganhou a Palma de Ouro em 1989 -, mas hoje em dia faz tudo. O próximo vai ser um musical - Cléo, com Catherine Zeta-Jones cantando na pele da rainha do Nilo.


Veja o trailer de Che 2

Soderbergh agora refaz o Che de Fleischer. Em 1969, quando o diretor fez sua versão da saga do Che na Bolívia, os acontecimentos não apenas ainda eram muito recentes, como o mundo vivia um turbilhão revolucionário na trilha do célebre Maio de 68. Naquele contexto, o Che de Fleischer - lançado no Brasil como Causa Perdida - foi crucificado pela esquerda. De nada adiantou Fleischer e seu roteirista, Michael Wilson, bradarem que haviam escrito e desenvolvido outro projeto. Foi o estúdio, a Fox, assustado com as repercussões na América Latina, onde se sucediam os golpes militares, que recuou, forçando-os ao que parecia uma palhaçada.

O roteirista, tão de esquerda que entrara para a lista negra do macarthismo, morreu em seguida do coração (e há uma versão de que foi por desgosto). Fleischer admitiu, numa entrevista, que brigara com o produtor no set e só não abandonou a filmagem porque nunca havia feito isso. A crítica engajada caiu matando especialmente no personagem de José Martinez de Hoyos, o camponês que entrega o Che aos militares porque a movimentação dos guerrilheiros perturba suas cabras e elas deixaram de produzir leite.

O mundo mudou, realmente, nos 41 anos decorridos da morte de Ernest Che Guevara. Nos últimos anos, o próprio mito, o ícone revolucionário cuja imagem era obrigatória em dormitórios de jovens de esquerda, tem sido submetido a contínuas reavaliações. Walter Salles mostrou os anos de formação do jovem Ernesto, antes de virar Che, em Diários de Motocicleta, e muita gente reclamou do que viu como "idealização do personagem". O documentário Personal Che, de Douglas Duarte e Adriana Martiño, propôs um Che capaz de ser idolatrado tanto por camponeses bolivianos que lhe acendem velas como por neonazistas alemães. Como pode a mesma figura estimular cultos tão antagônicos? O filme de Soderbergh quer mostrar um Che humano, mas adota o ponto de vista da versão que Fleischer repudiava. As cabras continuam não dando leite. Mais de 40 anos depois, o cinema dá marcha à ré no caso Che, exceto pelos diálogos em espanhol. Benício Del Toro é bom, o filme tem problemas de ritmo. O desafio - como terminar um filme desses? Veja a solução de Soderbergh para manter a revolução andando.


Serviço
Che 2 - A Guerrilha (EUA-França-Espanha/ 2008, 133 min.) - Dir. Steven Soderbergh. 14 anos. Cotação: Regular