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Aluno recebeu a 'missão' de comprar maconha

04 de novembro de 2009 | 0h 00
Marcelo Godoy - O Estadao de S.Paulo

Os alunos do curso do falso tenente Rafael Fernandes dos Santos tinham de cumprir missões. Silva (nome fictício) teve de comprar maconha. "Saí da sua residência às 18h25 e comprei a maconha na biqueira e cheguei às 20h30. Missão dada, missão cumprida", escreveu o aluno no relatório que fez para o chefe. Outro aluno recebeu a incumbência de cuidar do carro do tenente, um Escort.

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"Deverá juntamente com seus irmãos de farda cuidar da reforma da viatura Escort, sem ponderações. Isso é uma ordem. Acostume-se", dizia o ofício do tenente ao aluno J.W.P., de 22 anos, recém-nomeado 2º sargento. Fernandes distribuía patentes e graduações aleatoriamente aos alunos. Um virava cabo; outro, sargento. A única mulher da turma, S.N.O., de 22, virou segundo-tenente assim que chegou, pois, como mulher, precisaria da patente para se impor. Quem se saía bem, era promovido, como J.W.P., que virou aspirante-a-oficial.

Ao ingressar no curso, o aluno recebia uma carta de boas-vindas. "A Polícia do Exército lhe dá boas-vindas e com prazer o inclui em nossa família." O papel com timbre do Exército e brasão da República citava passagem do livro Guerra de Guerrilhas, de Ernesto Che Guevara, sobre a disciplina guerrilheira. Ao recém-incorporado sargento J.W.P., ele prometia soldo de R$ 4 mil após seis meses de treinamento. "O Brasil conta com você", dizia o ofício.

O tenente, segundo os alunos, oferecia maconha aos alunos. Ele levava uma bandeira do Brasil para os acampamentos e dizia conseguir as fardas no quartel do Curso Preparatório de Oficiais da Reserva (CPOR), em Santana, na zona norte de São Paulo. "Para as vítimas, ele desempenhava bem o papel", disse o delegado Arly Antonio Reginaldo, do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic).

Houve um aluno que tatuou no braço a frase "Deus cria a PE mata", referindo-se à Polícia do Exército. Um outro foi convencido a entregar um Peugeot 206 para pagar pelas aulas. Além de Paranapiacaba, o falso tenente usava o sítio de um aluno no interior do Estado. Ali foram dadas aulas de tiro e marcha. "A gente rastejava e ficava horas na água. Um dia, era mais de oito da noite, e a gente ainda estava ralando", afirmou G.C.S..

Jovens de 18 a 25 anos, da periferia da zona norte, eram as vítimas. Houve quem gastasse o que não tinha para fazer o curso. É o caso de J.W.P., que pegou com a mãe o dinheiro que ela ia usar na reforma da casa para pagar "o tenente Fernandes". A polícia deve apurar agora os crimes de estelionato e falsificação de documento, mas descarta que Fernandes quisesse montar uma milícia.

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