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Breve tratado sobre desajustados

O escocês Irvine Welsh revisita tipos marginais em Se Você Gostou da Escola, Vai Adorar Trabalhar

06 de fevereiro de 2010 | 0h 00
Marcelo Rubens Paiva - O Estadao de S.Paulo

Se Você Gostou da Escola, Vai Adorar Trabalhar é o novo livro de Irvine Welsh, escocês mais conhecido pelo romance Trainspotting, adaptado para o cinema por Danny Boyle - e também por sua continuação, Pornô, que já ganhou até adaptação teatral em São Paulo -, do que pelas narrativas curtas, gênero com o qual começou e em que não se embrenhava desde 1990.

Foram os ingleses que melhor cunharam as distinções entre conto, novela e romance. Práticos, definiram "novella" como gênero intermediário. O parâmetro é o tamanho: maior que um conto ("short story"), menor que um romance ("novel"). Não é uma narrativa de um tiro, como um conto, nem um gênero que se aprofunda numa pequena tese, como um romance. Fica no meio-termo, mas não necessariamente deve ser inferiorizado.

O Alienista, de Machado, assim como Memórias do Subsolo, de Dostoievski, são exemplos de como, com poucas palavras, ou melhor, em menos páginas do que um romance, é possível descrever com grandeza os limites da loucura e do autocontrole que se exige do novo homem.

Welsh juntou cinco novelas distintas numa mesma publicação, com tipos semelhantes (beberrões, excêntricos, cínicos, engraçados e amadores no amor) que contêm uma recorrente incapacidade de adaptação a ambientes em que não estariam caso tivessem organizado suas vidas de outra maneira em vez de escorregarem pelos atalhos que se apresentaram.

O cinema fez bem a Welsh. Suas narrativas ganharam um clima digno de bom filme, com reviravoltas, surpresas e ação. Como na primeira história, Cascavéis, provavelmente escrita em homenagem ao precursor Hunter Thompson, que se matou em 2005.

Talvez inspirados em Medo e Delírio em Las Vegas, dois amigos e uma garota se drogam, viajam alucinados num Dodge Durango por tempestades de areia pelo deserto do Arizona e se estrepam feio. Na verdade, a droga, um elixir peruano, não batera em Eugene, que dirige o carro. Ele é um ex-atleta que perdeu o rumo da carreira e deseja a passageira ao seu lado, Madeline, uma garota que, por sua vez, deseja Scott, no banco de trás, o melhor amigo de Eugene.

Prestando mais atenção nas curvas da passageira do que na estrada, acaba capotando o carro. Os três, perdidos no meio do nada. "Estamos na América. Aqui você nunca está a mais de um quilômetro de alguém tentando vender alguma coisa", ironiza o escritor escocês.

E não estavam. Foram flagrados por bandidos chicanos religiosos numa cena difícil de explicar: Eugene fora picado por uma cascavel no pênis, e o amigo, obrigado a "sugar" o veneno. Algo que só para um amigo muito íntimo se pode pedir.

Miss Arizona se passa no mesmo deserto. Desta vez, é um cineasta frustrado que vive de publicidade e resolve ir atrás da viúva de seu grande ídolo, diretor que, por não ser comercial, optou pela indústria do filme pornô. E, evidente, o narrador se envolve com a enigmática e sedutora viúva, que tem melhores histórias para contar do que as do falecido.

Se Você Gostou da Escola, Vai Adorar Trabalhar... é talvez a melhor história das cinco, apesar de seus personagens declaradamente machistas. Não sei dizer por que é a melhor história. O editor também achou, pelo visto.

Os capítulos têm nomes de mulheres. E elas aparecem para ser amadas e odiadas.

Depois de discutir com a ex-mulher sobre a educação da filha adolescente, debate narrado como se fosse uma luta de boxe, Mickey, dono de um bar nas Canárias, explode: "Alguns de nós têm uma droga de vida para viver, muito obrigado! Como o velho Winston (Churchill, deve ser) disse uma vez: "Embora preparado, prefiro que meu martírio seja adiado"."

O papo de bar, ou melhor, de pub é a fonte inesgotável da narrativa: "Cynth é divertida, e essa é a qualidade que todo mundo aprecia numa mulher. É claro, algumas só agem assim até conseguirem o que chamam de compromisso, e então viram umas éguas escrotas."

Mickey descreve o tipo de mulher "boa de pegar": "Há algo nas magricelas chegando aos quarenta. Se elas não despencaram até então, devem ter algum vício grande. A experiência me ensinou que esse vício é, incrivelmente, trepar."

Calma. Não odeie Mickey. No fundo, é um apaixonado pelas mulheres. Nunca superou a separação. Tem carinho pelas conquistas. Dá conselhos, ajuda. E até leva a filha para morar com ele. A garota, Em, abaixa a guarda do pai e lhe arranca algumas convicções.

"Odeio a escola", ela diz. "Meu velho, seu avô, costumava dizer: "Se você gosta da escola, vai adorar trabalhar e depois viver feliz para sempre"", ele responde. Feliz? Sim, se estiver acompanhado pelo velho e eficiente Jack Daniel"s, afirma nas entrelinhas.

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