PAN 2007

terça-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online

Camisa 10, bom de bola. É o samurai santista

Rodrigo Tabata mostra que dá para ter japonês num time de futebol

Valéria Zukeran, do Estado

O pai de Rodrigo queria ser jogador, mas o avô não deixou. Agora, vai ao campo torcer pelo neto

Sebastião Moreira/AE

O pai de Rodrigo queria ser jogador, mas o avô não deixou. Agora, vai ao campo torcer pelo neto

SO PAULO - Já foi o tempo que japonês era sinônimo de falta de habilidade para jogar futebol. O meia Rodrigo Tabata não só quebrou essa barreira como conseguiu um privilégio reservado a poucos atletas no Brasil: vestir a mítica camisa 10 do Santos, imortalizada por Pelé.

 

Nascido em Araçatuba, cidade do interior de São Paulo, Tabata se mudou na infância para Jundiaí. Diz nunca ter tido dificuldade em lidar com o tabu de que todo descendente de japonês é ruim de bola. “No começo, quando chegava para jogar as pessoas diziam: ‘Japonês no time? Ah, vai plantar tomate, vender pastel...”, conta o meia santista em tom de diversão, ressaltando que o comentário tinha mais brincadeira do que maldade. “Mas logo eu começava a mostrar o que sabia e no fim eles comentavam: ‘esse japonês é bom de bola mesmo! ’”

 

Tabata diz que a paixão pelo futebol vem de família. “Meu pai, Yoshio, já gostava muito, mas meu avô Nobor, não deixou que ele seguisse carreira na época. Queria que ele trabalhasse com a família.” O meia acredita que este sonho não realizado provavelmente influenciou Yoshio a incentivá-lo, quando decidiu iniciar carreira no futebol. “Meus pais sempre me deram força e, no fim, meu avô acabou gostando também. Todo mundo ia ao campo para me ver jogar.”

 

Tabata garante que apesar de jogar no meio-de-campo, posição que exige habilidade não muito típica dos japoneses, há algo de nipônico no seu futebol. “Sempre ouvia meu avô dizer que para vencer na vida era preciso determinação e trabalho, essas coisas típicas do povo oriental.” Com este exemplo, conta, procurou desenvolver as habilidades por conta própria, para se tornar um atleta mais completo quando chegasse ao time profissional. “Por exemplo, quando estava nas categorias de base, só chutava com a direita. Resolvi que também teria de saber dominar a bola com a perna esquerda. Então, ficava treinando com uma bolinha de borracha.”

 

Tabata só contraria o estereotipo do japonês comedido quando protesta contra uma coisa que não concorda. O jogador afirma ter se prejudicado em algumas das muitas passagens por clubes - Paulista, São Bento, Santo André, Ferroviária e Internacional de Limeira, Treze-PB, Grêmio- PB e Ceará- PB, XV de Piracicaba, SP, Campinense- PB e América-RN - por não concordar com situações que considerava injustas, como falta de condição de trabalho ou atraso nos salários.

 

Em 2005, Tabata teve uma ótima passagem pelo Goiás no Campeonato Brasileiro, que lhe rendeu uma transferência para o Santos para a difícil missão de substituir Ricardinho e vestir a camisa 10 que já foi de Pelé. “Acho que esta camisa deveria ser imortalizada. Para mim foi muito prazeroso. Na primeira vez que usei, marquei um gol.” O santos venceu o Marília por 3 a 0 e Yoshio guarda a camisa do filho com carinho. “Vai ser uma coisa que poderei contar aos meus filhos”, conta Tabata.

 

O time santista foi bicampeão paulista e chegou às semifinais da Taça Libertadores da América no primeiro semestre. Atualmente, o meia, apelidado de samurai santista, luta com os companheiros para tirar o Santos da incômoda situação no Campeonato Brasileiro: próximo da zona de rebaixamento. Mas Tabata confia que tudo será resolvido se todos mostrarem uma atitude tipicamente japonesa: a determinação.