PAN 2007

tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online

52 dias de viagem. E a chegada

Trechos do capítulo inicial de livro sobre a história do casal Miadaira

Leda Márcia Arashiro, especial para O Estado

Festa da formatura de Laura (de pé, no centro), em 1951: Kame, Ushisuke e Uto estão à direita; Kosei é o segundo sentado, à esquerda

Arquivo Celso Kinjo

Festa da formatura de Laura (de pé, no centro), em 1951: Kame, Ushisuke e Uto estão à direita; Kosei é o segundo sentado, à esquerda

SÃO PAULO - Era noite de 17 de junho de 1908. Uma quinta-feira gelada, com céu estrelado. Depois de 52 dias a bordo do navio Kasato-Maru, cerca de 800 japoneses estavam prestes a desembarcar no porto de Santos. Eram os primeiros imigrantes a chegar no Brasil. Olharam para terra firme e contemplaram um espetáculo inesperado: rojões subindo e explodindo nos céus, acompanhando dezenas de balões que voavam sem rumo, como sempre acontecia nas festas de São João. Comovidos, os imigrantes tiveram a ilusão de que o povo brasileiro promovia aquela festa como sinal de boas vindas.

 

Kame e Ushisuke Miadaira estavam ansiosos. Ouviram o aviso dado pelos tripulantes: “Ao raiar o dia, os senhores avistarão as montanhas do continente sul-americano.” Tinham de esperar o dia seguinte para o navio atracar no porto. Kame resolveu passar a noite preparando-se para o desembarque, a despeito dos fortes enjôos que a acompanharam por toda a viagem. Pediu para Ushisuke trazer a mala - na verdade, uma caixa de vime com algumas roupas, pó para escovar os dentes, um frasco de conservas, travesseirinhos feitos de bambu forrado, acolchoados, casacos contra o frio, pauzinhos para comer arroz.

 

Kame separou cuidadosamente os trajes ocidentais que costurara antes de partir: uma saia e blusa para si, calça e camisa para o marido. Chapéus para ambos. E um par de bandeiras para cada um, uma do Japão e outra do Brasil. Ela teve um pouco de dificuldade em confeccionar a bandeira brasileira. Eram muitas cores, estampas diferentes. Não bordou todas aquelas estrelinhas - muito difícil. Mas ficou feliz com o resultado, mesmo sem as estrelinhas e sem aquelas letrinhas estranhas que iam na faixa branca.

 

O navio atracou no cais de número 14 às 17 horas do dia 18 de junho. Era lua nova. Kame ficou feliz: “Um bom presságio. Lua nova, em terra nova...” Mais algumas horas e eles poderiam desembarcar. Voltou a pensar nas coisas que aconteceram desde que o casal decidiu depositar todas as suas esperanças nessa viagem. A vida na ilha de Okinawa ficava cada vez mais difícil. Não havia terra para plantar, nem espaço para criar galinhas ou porcos. Quando o marido chegou com aquele papel do governo, que falava sobre um país com fazendas enormes e milhares de pés de café, não pensou duas vezes. Haveria de ganhar muito dinheiro para voltar, comprar um pedaço de terra e cultivar suas próprias verduras.

 

O desembarque ocorreu somente na manhã seguinte. Kame e Ushisuke desceram do navio empunhando as bandeirinhas japonesas e brasileiras. O trem já aguardava para levá-los à Hospedaria do Imigrante, na cidade de São Paulo. A viagem durou mais de 3 horas. Chegaram no início da tarde. O jantar foi memorável: pão, sopa de bacalhau e batatinhas. Depois de quase dois meses em alto mar, foi ótimo comer alguma coisa em terra firme.

 

Distribuição

 

Durante uma semana, todos permaneceram na Hospedaria do Imigrante, sem ter muito o que fazer. Kame quis conhecer a cidade e, junto com outras mulheres, saiu para dar uma volta pelos arredores. Caía uma chuva fininha. Assim que saíram da hospedaria, chamaram a atenção das pessoas que passavam pela rua. Desacostumados com orientais, os passantes paravam e encaravam as mulheres japonesas com ar de espanto. Alguns chegavam mais perto e apertavam seus narizes largos e chatos. Como não sabiam falar o idioma, as mulheres limitavam-se a sorrir, mesmo contrariadas. Kame decidiu que não sairia mais a passear pela cidade.

 

No dia 27 de junho, às 4 horas da manhã, começou a distribuição dos imigrantes para as respectivas fazendas. Kame e Ushisuke foram destinados à Fazenda Floresta, junto com outras 171 pessoas, agrupadas em 23 famílias. Partiram às 5 da manhã no trem especialmente fretado, em direção à cidade de Itu, no interior de São Paulo.

 

A viagem transcorreu sem maiores problemas. As portas dos vagões foram trancadas, para evitar que os imigrantes descessem nas estações e se perdessem. Mas isso não importava para os Miadaira, mais interessados em conversar com os companheiros de viagem, especulando como seria a tal Fazenda Floresta.

 

Ao chegar, foram recepcionados pelo proprietário e pelo administrador, que lhes ofereceram um jantar. Ao observarem o cardápio, ficaram extasiados: arroz e feijão, que maravilha! Mas foi um choque perceber que o feijão era salgado e aquele arroz tinha sido cozido com gordura e sal. Um horror para o paladar japonês, habituado ao feijão doce e ao arroz cozido somente na água, sem qualquer tipo de tempero...

 

Mas, como estavam com muita fome, comeram toda aquela comida estranha que, ainda por cima, tinha uns pedaços peludos de batata boiando no feijão. Passou-se muito tempo até descobrirem que o “inhame peludo” eram pedaços de toicinho com couro.

 

Vida na fazenda

 

Depois do jantar, as 23 famílias foram levadas às “casas dos colonos”, cortiços construídos em duas fileiras, com uma passagem ao meio. O chão era de terra batida. Não havia privada, pia, camas, ou qualquer outro tipo de móvel. Como o grupo chegou à noite, só restava a cada um estender o acolchoado que trouxera em sua mala, e adormecer no chão.

 

No dia seguinte, veriam o que fazer.