PAN 2007
tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online
Uto, a pequena grande guerreira
Primeira nissei nascida no Brasil, ela não fugia dos desafios da vida
Celso Kinjô, especial para O Estado

O irmão Paulo, passadas mais de sete décadas do episódio, ainda se impressiona com o milagre. “Era um saco de 60 quilos, difícil para um homem carregar, quanto mais uma mulher pequenina”, lembra, com uma ponta de nostalgia desses tempos em que a vida era um exercício diário e literal de sobrevivência.
No meio do mato, sem vizinhança próxima, cercada pela floresta fechada, a irmã de Paulo vivia com o marido, Kosei. Um córrego descia ao lado. O casal trabalhava dia após dia, cultivando arroz. A estrada de ferro que levava a Santos, ponto mais próximo da civilização, passava a 12 quilômetros. Enfiados no fundão do vale do Ribeira, Uto e Kosei iniciavam a jornada antes de amanhecer e só voltavam para casa à noite. A primogênita Luzia passava o dia nas costas da mãe, acomodada num acolchoado. Somente nas férias, os garotos Augusto e Paulo, seus irmãos, podiam ajudar a cuidar da criança.
Kosei, imigrante letrado para quem a floresta era uma escala para o futuro, buscava coragem e inspiração na quadra de Takamori Saigo, um dos poetas mais importantes do século 19. Os versos diziam:
“Todo homem que deixa sua terra natal/ Encontrará um bom lugar para morrer./ Não será preciso prender-se ao torrão natal,/Para alçar vôo no céu da vida.”
Em 1936, a oportunidade de sair do mato chegou. Os japoneses imigrantes tinham formado uma colônia numerosa em Cedro (município de Juquiá). Na grande maioria produtores de banana, decidiram instalar uma cooperativa de exportação em Santos. Kosei foi um dos encarregados de tocar o negócio e, a essa altura com três filhos, Luzia, Laura e Armando, mudou-se para a cidade praiana. Paulo, o irmão de Uto, foi junto.
Três anos depois, a família abriu um entreposto de banana, na região do Mercadão, em São Paulo. Alugou uma casa de três quartos ali perto, na vila Votorantim, 15. Teve início o novo desafio de Uto. Enquanto o marido cuidava do comércio, ela administrava a casa. Só que a tarefa não se limitava a educar os filhos (além de três nascidos no interior, vieram Araci, Humberto e Celso). Sendo o apoio comunitário uma marca no DNA okinawano, Uto recebia filhos de parentes e amigos, de todos os pontos do interior. Eram moças e rapazes que chegavam à cidade grande para estudar e trabalhar, buscando vencer as barreiras da lavoura.
Eles vinham do vale do Ribeira, principalmente, mas também da região de Presidente Venceslau, Campo Grande (MS), Ilha Grande (RJ). Não havia como recusar. Assim como os imigrantes deitaram raízes nas lavouras do interior, os pioneiros das cidades tinham obrigação de abrigar quem precisasse. Um gesto que deixa o outro cativo do favor prestado.
A responsabilidade pela gestão doméstica ficava inteiramente com Uto, agora com ajuda das filhas. O dinheiro tinha de se multiplicar, porque eram muitas bocas para alimentar. Uto teve a idéia, então, de criar galinhas na pequena garagem da casa. Fabricava sabão para economizar na lavagem de roupa, que exigia latões enormes. Costurava e remendava as roupas de filhos e sobrinhos.
Os jovens se acomodavam como podiam. Eram dezenas ocupando três quartos, um corredor e sala de jantar. Na hora das refeições, não havia como não improvisar: faltava lugar, prato, talheres.
A Votorantim, nos anos 50, era a síntese cultural do pós-guerra. Na pequena vila em forma de ferradura, com dois acessos para a rua Barão de Duprat, viviam armênios, sírios, italianos, letões, espanhóis, chineses, japoneses. Houvesse um modelo para resumir o encontro paulistano de raças e culturas, a Votorantim seria um protótipo perfeito. Cozinhas diversas e línguas exóticas, assim como visões diferenciadas do mundo podiam ser absorvidas num cotidiano sofrido mas às vezes divertido. Uto, nome de pronúncia fácil porém difícil de memorizar, passou a ser chamada de Bartira, que virou Martinha. Mão cheia na confecção de pratos japoneses, aprendeu na convivência da vila a cozinhar charutinho e esfiha, feijoada e paella, espaguete ou carne de panela. Trocava receitas e confidências com as vizinhas sem falar direito português, mas, que remédio?, naquela babel todas se entendiam por mímica.
Versões da mesma mulher que, em cada jornada de seus 98 anos de vida, conjugou o verbo batalhar. Por si e pelos outros - a começar pelos pais, Ushisuke e Kame, os irmãos José, Jorge, Augusto e Paulo, o marido Kosei, os seis filhos, os muitos sobrinhos e agregados cuja educação comandou com mão forte e paciente. Primeira nissei nascida em solo brasileiro, filha de um dos casais que atravessaram os mares a bordo do Kasato Maru, por muito pouco Uto Miadaira Kinjo não completou a marca centenária que será comemorada em 2008. Em 1988, recebeu a Ordem do Mérito do Trabalho do governo do Brasil. Morreu na véspera de carnaval, 16 de fevereiro de 2007, aos 98 anos.
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