PAN 2007

tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online

Enfim, o sonho se realizou

Mas a história dos Miadaira continua com a filha Uto

Celso Kinjô, especial para O Estado

Em Cedro, distrito de Juquiá, Ushishuke e Kame (segunda à direita) recebem a visita da filha Uto (atrás da mãe), do genro Kosei (segundo, à esquerda) e de netos

Arquivo Celso Kinjo

Em Cedro, distrito de Juquiá, Ushishuke e Kame (segunda à direita) recebem a visita da filha Uto (atrás da mãe), do genro Kosei (segundo, à esquerda) e de netos

SÃO PAULO - O trabalho era pesado. Todos tinham que acordar às 4 da manhã e trabalhar até o sol se pôr. Para piorar, estavam subnutridos devido às diferenças na alimentação. Não conseguiam acostumar-se à carne seca e ao bacalhau salgado, duros e difíceis de engolir. Não sabiam, ainda, que as canes tinham de ficar imersas na água, para amolecer e perder o sal.

 

Os rendimentos eram minguados. Todo o dinheiro conseguido era tragado pelo armazém da fazenda, único lugar onde era possível comprar mantimentos. A dívida aumentava a cada dia: os artigos vendidos na fazenda custavam muito mais caro do que em outros locais.

 

Kame ajudava o marido no trabalho, mas descobriu que estava grávida de três meses - e era essa a razão dos fortes enjôos durante toda a viagem. Mesmo assim, não fraquejou. Todos os dias, com a barriga crescendo, acompanhava o marido na lavoura e se ocupava da lavagem das roupas e da alimentação do casal.

 

No dia 28 de novembro de 1908, Kame deu à luz a primeira nissei brasileira: Uto Miadaira. O primeiro parto em terras estranhas, só com a ajuda do marido, não a impediu de voltar ao trabalho em três dias. Precisavam juntar dinheiro para pagar as dívidas no armazém e sair daquela fazenda. Mas a conta só crescia e a situação só piorava. Em janeiro de 1909, restavam só 52 imigrantes na fazenda, que acabaram herdando a dívida dos 121 que haviam fugido.

 

A última esperança dos que ficaram era a colheita do feijão plantado no meio do cafezal. Mas os proprietários da fazenda confiscaram as 700 sacas que os imigrantes conseguiram colher. Exaltados e muito revoltados, foram tirar satisfações com os administradores da fazenda. E no dia 25 de janeiro de 1909, os trabalhadores japoneses da Fazenda Floresta receberam ordem de retirada por haverem causado “desagrado ao fazendeiro”.

 

Trabalho

 

Os dois únicos lugares que Kame e Ushisuke conheciam no país eram a Hospedaria do Imigrante, em São Paulo, e o porto de Santos. Foram para Santos. Tinham ouvido falar que lá era mais fácil conseguir emprego nas docas.

 

Instalaram-se na periferia da cidade, improvisando um barraco com telhado de zinco. Kame apressou-se em limpar o matagal do brejo nas imediações e iniciou o cultivo de uma pequena horta. Tempos depois, equilibrava na cabeça uma cesta com suas verduras e saía para vendê-las na cidade. Com isso, aumentou a renda da família.

 

Apesar de franzino - tinha menos de 1,60 m e pesava cerca de 50 quilos - Ushisuke conseguiu emprego como estivador. Seu trabalho consistia em carregar sacos com 60 quilos de café para os navios.

 

Sonhos realizados

 

A construção da linha ferroviária Juquiá começou em 1912. Ushisuke ficou muito feliz ao conseguir um emprego na The Southern São Paulo Railways, trabalho bem mais leve do que seu emprego nas docas.

 

A linha saía de Santos em direção ao Sudoeste do Estado, até a cidade de Juquiá, no vale do rio Ribeira, numa extensão total de 162 quilômetros. Quando as obras foram concluídas em 1914, Ushisuke decidiu tentar a vida como agricultor. Foi plantar arroz na região de Alecrim - atual Pedro Barros.

 

Ushisuke e Kame construíram um barraco com armação de palmito-juçara, aproveitando as folhas para cobri-lo. Dormiam em camas feitas de coqueiros partidos, ajeitados sobre o chão batido. Cadeiras e mesas eram de fabricação caseira. Percorriam os morros, ainda esfumaçantes após a queimada, catando galhos e troncos chamuscados para montar chiqueiros e criar porcos. No quintal, mantinham galinhas caipiras para consumo próprio. Os banhos eram tomados no rio - não havia dinheiro para confortos.

 

Foram tempos difíceis. A região inundava mesmo sem chuva, já que as nascentes dos rios localizavam-se na serra. E as enchentes cobriam as cabanas. O que era bom para o cultivo do arroz, mostrou-se péssimo para os agricultores: as águas traziam mosquitos transmissores da malária.

 

Ushisuke contraiu a doença e sofreu com febres de mais de 40 graus, alternadas com calafrios. Mas manteve o sonho de ter o próprio quinhão de terra. Já não pensava mais em voltar para o Japão. Queria terras brasileiras, com uma extensão a perder de vista. Para Kame, isso era delírio provocado pela febre. E não ligava a mínima.

 

Ushisuke realizou seus sonhos a partir de 1924. Uma alta no preço do arroz levantou os ânimos dos rizicultores e sinalizou altas aparentemente sem limites. Com isso, Ushisuke conseguiu saldar as dívidas e ainda comprou terras na região de Juquiá.

 

A partir de 1924, os Miadaira se estabeleceram em Cedro - subdistrito de Juquiá, onde já estavam outros japoneses imigrantes de Okinawa. Em 1925, Ryukichi Yamashiro, um de seus conterrâneos, trouxe cinco mil mudas de banana de Santos para plantar. Ushisuke interessou-se pelo cultivo da fruta e começou sua plantação com a ajuda de Yamashiro.

 

E o sonho tornou-se realidade. As extensas terras dos Miadaira mostravam um futuro melhor do que sonhavam quando ainda estavam no Japão.

 

Em 1926, casaram a filha Uto com Kosei Kinjo, jovem recém-chegado do Japão. O casal resolveu plantar bananas em Alecrim, em terras arrendadas, e vencer na vida. Sabiam que não ia ser fácil, como realmente não foi. Mas isso já é uma outra história...