PAN 2007
tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online
Oportunidade real. Ou só aparente?
Potencial do mercado japonês para o etanol tem números embriagadores. Mas há quem recomende cautela
Jorge J. Okubaro, especial para O Estado

São números embriagadores. Diz-se que são eles os grandes impulsionadores dos pesados investimentos japoneses na área do etanol no Brasil. Seriam eles, também, que estariam atraindo para o País megainvestidores como George Soros e até Bill Gates.
Quem conhece bem as negociações realizadas até agora recomenda cautela. A alternativa ao combustível derivado de petróleo ao qual os japoneses mais dedicam sua atenção não é o álcool, é a eletricidade, adverte o economista Paulo Yokota. O mercado parece dar-lhe razão. O modelo de carro híbrido que mais sucesso faz no mercado americano, o maior do mundo, é o Toyota Prius, que funciona com eletricidade e gasolina.
Mesmo que, por razões ambientais, o Japão opte por adicionar algum produto à gasolina, não é certo que este será exclusivamente o etanol. O que o país vem utilizando no momento, diz o especialista em questões energéticas e ambientais Alfred Szwarc, que presta consultoria à União da Indústria de Cana-deAçúcar (Unica), é um composto que utiliza etanol e um derivado de petróleo. Trata-se do ETBE (etil terc-butill éter), que leva aproximadamente 40% de etanol e 60% de isobutileno. Mesmo esse aditivo entra com apenas 0,3% na composição do combustível, o que torna insignificante o consumo de etanol pelo mercado japonês.
Não foi por falta de esforço da parte brasileira que o Japão ainda não escolheu o etanol. Há pelo menos sete anos missões técnicas brasileiras têm ido ao Japão para falar desse combustível e, inversamente, missões japonesas, formadas por membros do governo, dirigentes e técnicos das empresas e pesquisadores, têm vindo ao Brasil.
“Até agora, só ganharam as companhias aéreas e a indústria hoteleira”, diz ironicamente Szwarc. Ele tem razão. Em 2005, o Japão importou 509 milhões de litros de etanol, dos quais 359 milhões do Brasil, segundo dados do governo japonês. Em 2006, importou ainda menos, 502 milhões de litros, dos quais 277 milhões de litros do Brasil, 17% de 1,6 bilhão de litros ou apenas 4,6% do potencial de 6 bilhões de litros.
“Houve um desencontro de expectativas”, avalia Szwarc. O Brasil achava que exportaria muito, mas as autoridades japonesas nunca admitiram isso de maneira explícita, embora sempre tenham exigido garantia de preço, prazo, qualidade e quantidade da parte brasileira. Pode ser o jeito japonês de negociar, sempre cauteloso e, para os brasileiros, exasperantemente lento. Mas é assim que os japoneses agem.
Não há, então, caminho para o etanol? Há, sim. Paulo Yokota vê, no futuro, grande possibilidade para o etanol brasileiro na indústria alcoolquímica. Também aí o álcool poderá ser um substituto parcial do petróleo.
Roberto Rodrigues, que depois de deixar o Ministério da Agricultura se tornou um grande incentivador da produção e do uso do etanol, vê perspectivas em outros campos. O Brasil pode ser, e deve se esforçar para ser, um grande produtor e fornecedor mundial desse combustível Deve tentar conquistar o mercado japonês. Mas não pode deixar de explorar formas concretas de parceria com o Japão na área de tecnologia, que domina bem, para disseminá-la e estimular a expansão da cultura da cana-de-açúcar pelo Sudeste da Ásia e pela África subsaariana.
São muitos os obstáculos, mas Yuji Watanabe, da Jetro, perde as esperanças. Está organizando, para o mês que vem, a vinda de uma missão japonesa, mais uma, formada por políticos, executivos de empresas, pesquisadores e jornalistas, para mostrar como se produz o etanol e instilar nos visitantes confiança suficiente para fazê-los comprar grandes volumes do produto brasileiro. Conseguirá desta vez?
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