PAN 2007
tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online
Investimentos, a terceira onda de cooperação
Japoneses se interessam pelo Brasil porque precisam competir em escala global com os concorrentes
Jorge J. Okubaro*

Watanabe tem o aval do embaixador japonês no Brasil, Ken Shimanouchi, que, como ele, vê um amplo horizonte para o estreitamento das relações econômicas, especialmente nas áreas de tecnologia e etanol. Também o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que recentemente esteve em Tóquio, identifica oportunidades para a cooperação entre os dois países.
O governo brasileiro aposta muitas fichas nas exportações de etanol para o Japão, mas os que conhecem a forma de agir e de decidir das grandes empresas japonesas fazem restrições ao otimismo oficial. O Japão ainda importa muito pouco etanol do Brasil e não há nenhuma indicação firme de que passará a importar grandes volumes, ressalva o engenheiro especialista em energia e meio ambiente, Alfred Szwarc, consultor de empresas privadas. O economista Paulo Yokota, ex-diretor do Banco Central, ex-presidente do Incra e conhecedor das economias dos dois países, é cético quanto ao uso em larga escala do etanol brasileiro no Japão como combustível, mas vislumbra a possibilidade de, no futuro, se desenvolver uma grande indústria alcoolquímica que utilizaria o produto nacional.
Muito dinheiro
Talvez se devesse dar um desconto no entusiasmo de Watanabe, em razão do cargo que ocupa. Otimismo costuma ser um dos traços essenciais de profissionais como Watanabe, cuja missão é estimular investimentos e negócios. No entanto, os argumentos que ele expõe e, sobretudo, os números que apresenta, todos extraídos de programas em andamento ou já oficialmente anunciados, dão base para sua avaliação.
O mundo de hoje, lembra Watanabe, é muito diferente daquele em que ocorreram as outras ondas de investimentos japoneses no Brasil. Na primeira, predominava o interesse pelo mercado interno; na segunda, o interesse pela exportação para o próprio mercado japonês, especialmente de matérias-primas e alimentos. Hoje, diz ele, o Brasil interessa aos japoneses porque as grandes empresas precisam competir em escala global, para não serem engolidas pelos concorrentes. “É a era da megacompetição”, diz. Nesse cenário, o etanol é um elemento importante, mas não o único.
Watanabe cita o presidente mundial da Nippon Steel (a segunda maior siderúrgica do mundo), Akio Mimura, para mostrar que o Brasil voltou a interessar às grandes corporações japonesas. Mimura sabe que, se a Nippon Steel não conseguir aumentar rapidamente a capacidade de produção e não assegurar para si fatias importantes do mercado mundial, pode ser engolida pela supergigante do setor, a Arcelor-Mittal, cujo apetite é imenso. Para se valorizar com rapidez e sobreviver, a Nippon Steel decidiu investir pesadamente no Brasil, onde já tem parte das ações da Usiminas, empresa de cuja criação participou no fim da década de1950. Investimentos em expansão, com a construção de novos altos fornos, podem chegar a US$ 50 bilhões até 2015, diz Watanabe.
É uma cifra imensa, mesmo para padrões internacionais, mas não é a única que Watanabe cita para fundamentar sua tese a respeito da terceira onda de investimentos japoneses no País.
Ainda na área de siderurgia, ele lembra a associação entre a francesa Vallourec e a japonesa Sumitomo Metals para a construção de uma moderna fábrica de tubos de aço sem costura no pequeno município mineiro de Jeceaba (6,5 mil habitantes), com investimentos de US$ 1,6 bilhão. Nos registros da Jetro, os investimentos chegam a US$ 20 bilhões, valor que não foi citado pelos sócios do empreendimento.
Energia
O setor de energia ocupa espaço importante no cenário traçado por Watanabe. A empresa japonesa que mais projetos tem nesse campo é a Mitsui, por meio de parcerias com a Petrobrás. As duas empresas se associaram para a construção no Nordeste, ao custo estimado de US$ 1 bilhão, do terminal que receberá gás natural liquefeito importado por navios. A Mitsui participou também do processo de concessão de financiamento de US$ 900 milhões para a modernização da Refinaria Henrique Lage (Revap) em São José dos Campos. É sócia da estatal brasileira no projeto do primeiro grande alcoolduto do País, para transportar etanol de Goiás até o porto de São Sebastião, e pode participar do segundo, de 900 quilômetros, entre Campo Grande e o porto de Paranaguá, orçado em US$ 2 bilhões. Os dois parceiros agora avaliam mais de 40 projetos de construção de destilarias que produzirão álcool para exportação, em particular para o Japão, se este realmente utilizar o combustível nos volumes esperados.
Embora com volumes e valores menores, outras grandes empresas comerciais exportadoras japonesas participam do boom do etanol ou da onda do biocombustível. A Usina São Martinho, uma das maiores produtoras de açúcar e álcool do País, assinou contrato de venda de etanol com a japonesa Mitsubishi, para a qual vendeu 10% de suas ações. A Itochu participa do programa da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) para a produção de etanol. A Marubeni associou-se à Agrenco, que faturou US$ 1,4 bilhão ano passado e pretende multiplicar esse valor até o ano que vem, quando seus três complexos de bioenergia (que, além de energia, vão produzir também biodiesel) deverão estar operando a plena carga.
Cifras como essas, embora possam impressionar os especialistas, pouco significado têm para os consumidores urbanos. Mas também para estes a nova onda de investimentos terá algum efeito. As duas principais montadoras japonesas, Toyota e Honda, programam ampliar sua produção no País, visto que, para alguns modelos, a demanda tem superado a oferta.
Há, ainda, grande interesse das empresas japonesas em áreas como recursos naturais (exploração de minério de ferro, armazenamento e distribuição de gás natural) e infra-estrutura. Recentemente, representantes de empresas como Mitsui, Kawasaki, Mitsubishi e Banco Japonês para a Cooperação Internacional (JBIC) reuniram-se com dirigentes da Valec, interessados em participar do consórcio que disputará a construção e a operação da linha de trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. A Mitsui já participa do esquema de financiamento da Linha 4 do metrô paulistano.
*Jorge J. Okubaro, editorialista do Estado, é autor de “O Súdito (Banzai, Massateru!)” (Editora Terceiro Nome), que trata da imigração japonesa no Brasil
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