PAN 2007

tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online

Interessados. E também desconfiados

Entusiasmo pelo País voltou a crescer, mas precisa de garantias, respeito aos prazos e aos compromissos

Jorge J. Okubaro*

SÃO PAULO - Homem do campo, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues faz questão de dizer que a primeira fase do relacionamento entre Brasil e Japão foi marcada pela transformação da agricultura brasileira promovida pelos imigrantes do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Esses imigrantes, diz ele, permitiram ao País produzir variedades até então desconhecidas de produtos hortifrutícolas e que se tornaram usuais na mesa dos brasileiros. A segunda fase, a da década de 1970, o ex-ministro caracteriza como a do Prodecer, projeto comum dos dois países para o desenvolvimento da agricultura no cerrado, região então considerada imprópria para o plantio. Foi esse projeto, diz Rodrigues, que permitiu ampliar as fronteiras agrícolas e desenvolver a cultura de soja no País.

 

Para o economista Paulo Yokota, que coordenou o livro Fragmentos sobre as relações nipo-brasileiras no pós-guerra, o relacionamento econômico mais estreito entre os dois países teve início na década de 1950, quando empresas japonesas começaram a investir mais intensamente no Brasil. Empresas de fiação e tecelagem (Toyobo, Kanebo, Nichibo, Kurashiki e Tsuzuki, entre outras) chegaram ao Brasil nessa época. Também para cá vieram Pilot Pen, Ajinomoto, NGK, Yanmar Diesel, Kubota Tekko, Fuji Film.

 

Grandes projetos só surgiram em 1958: a Usiminas, o estaleiro Ishikawajima e, em menor escala, a Toyota. A experiência da sociedade na Usiminas não foi do inteiro agrado dos japoneses (os aumentos de capital decididos pela parte brasileira não faziam parte dos planos dos investidores nipônicos, o que os fez sentir-se lesados) e afugentou novos investimentos.

 

Foi só no fim da década de 1960 e início da de 1970, durante a ditadura militar, na época do “milagre econômico”, marcado por rápido crescimento, que as empresas japonesas voltaram. São dessa época as parcerias como o Projeto Carajás (do qual participou a japonesa Nissho-Iwai), a Companhia Siderúrgica de Tubarão (Kawasaki Steel), a Cenibra (Itochu), o Prodecer e a Albrás (joint-venture entre a Companhia Vale do Rio Doce e um consórcio de mais de 30 empresas japonesas associadas na Nippon Amazon Aluminium), entre outros grandes empreendimentos. Cerca de cinco centenas de empresas japonesas se instalaram no Brasil nesse período, mas boa parte saiu. Culpa da falta de conhecimento do mercado, dos métodos de trabalho e de gestão, pelo lado microeconômico, e problemas conjunturais, como alta da inflação, endividamento crescente, políticas dúbias marcadas pela não observância das regras por parte das autoridades brasileiras, pelo lado macroeconômico.

 

Eles agora estão voltando. Entusiasmados? Pode ser. Mas, como sempre - adverte Paulo Yokota, que conhece bem dirigentes e empresários dos dois países -, em busca também de garantia de que as regras serão observadas, os prazos cumpridos, as condições respeitadas. É assim que os japoneses agem.

 

*Jorge J. Okubaro, editorialista do Estado, é autor de “O Súdito (Banzai, Massateru!)” (Editora Terceiro Nome), que trata da imigração japonesa no Brasil



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