PAN 2007
terça-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online
Brasil-Japão: a parceria do século 21
Entrevista: Ken Shimanouchi, embaixador do Japão no Brasil
Lu Aiko Otta, do Estadão

O centenário da imigração japonesa, em 2008, coincidirá com o anúncio de novos investimentos privados japoneses no País. É possível que entre eles esteja a construção de usinas de etanol e obras de infra-estrutura que permitam exportar o produto. O mercado potencial para o álcool brasileiro no Japão, diz o embaixador, é “enorme”.
Os dois países também discutem medidas que ataquem os problemas hoje enfrentados pelos 300 mil brasileiros que vivem e trabalham no Japão, os dekasseguis. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como serão as comemorações dos 100 anos de imigração japonesa no Brasil?
2008 será marcante para os imigrantes japoneses e seus descendentes, que têm dado uma contribuição muito importante ao desenvolvimento da sociedade e da economia brasileiros. Para nós, será uma oportunidade de agradecer os sacrifícios, esforços e contribuições deles às excelentes relações bilaterais entre o Japão e o Brasil. Também será uma ótima oportunidade para intensificar e dinamizar as relações bilaterais em diversos campos. Haverá muitos eventos comemorativos e culturais em todo o País e também no Japão, importantes visitas de autoridades. Esperamos a visita de um membro da família imperial. Na área econômica, será um ano significativo. Muitas empresas preparam o lançamento de projetos, aproveitando o clima de comemoração do centenário. Por isso, não será um evento temporário. Vai ser o início de um novo processo de estreitamento e intensificação nas relações bilaterais.
O senhor acredita que será possível retomar o nível de cooperação econômica dos anos 70?
Nos últimos 30 anos, o Brasil mudou muito e o Japão também. Por isso, as relações econômicas agora são muito diferentes das que tínhamos nos anos 70. Entre o Brasil e o Japão existem campos tradicionais de cooperação, como siderurgia, celulose, automóveis, agroindústria. Estas relações tradicionais estão indo muito bem. Têm melhorado muito nos últimos anos, sobretudo depois da troca de visitas do nosso primeiro-ministro em 2004 e o presidente Lula em 2005. Também entramos numa relação ganha-ganha, com a maior ênfase nas tecnologias de ponta. Tenho dois exemplos importantes. O primeiro é a TV digital, o símbolo dessa nova relação nipo-brasileira que podemos chamar de ‘a parceria do século 21’. O presidente Lula anunciou que o Brasil, juntamente com o Japão, desenvolverá a tecnologia de TV digital brasileira, baseada no sistema japonês. Aí entra outro aspecto importante dessa cooperação: a colaboração em terceiros países. Agora, trabalhamos juntos para a divulgação desse sistema em outros países da América do Sul. Outro exemplo muito importante é a Embraer, o quarto maior produtor de aviões do mundo. Recentemente, a companhia aérea japonesa Jal, Japan Airlines, decidiu comprar aviões da Embraer. Creio que existe um mercado crescente. Esses são exemplos de cooperação em áreas de alta tecnologia. No futuro, esses campos vão crescer.
Essa cooperação na TV digital resultará em novos investimentos no Brasil para produzir aparelhos, com vistas ao mercado sul-americano?
Naturalmente, as empresas já presentes no Brasil se preparam para o início da emissão de TV digital em dezembro. Até agora, porém, nenhum país sul-americano decidiu qual padrão de TV digital adotará. A cooperação nesses países pode ser muito importante, por isso estamos colaborando estreitamente em terceiros países.
Os anúncios das empresas para 2008 se darão nos campos de inovação tecnológica?
Será em diversas áreas. Não conheço os projetos específicos das empresas privadas japonesas, mas os empresários falam da possibilidade de lançar novos projetos em 2008. Estão presentes no Brasil mais de 200 companhias japonesas, por isso há muitas possibilidades de investimentos diretos. Recentemente houve novos investimentos importantes na área de siderurgia, como na Usiminas e também da Cenibra, na área de celulose. Toyota e Honda ampliam as fábricas no Brasil, as motocicletas de Honda e Yamaha têm muito êxito. Os investimentos estão ocorrendo.
Qual é o potencial para o etanol brasileiro e outros biocombustíveis no mercado japonês?
A demanda potencial no mercado japonês é enorme. Os temas relacionados ao meio ambiente, sobretudo aquecimento global, são cada vez mais importantes na comunidade internacional, como se vê nas discussões do G-8. O Japão será o anfitrião da reunião de cúpula do G-8 no ano que vem. Recentemente, nosso primeiro-ministro, Shinzo Abe, anunciou uma iniciativa sobre aquecimento global chamado “Cool Earth 50”. Essa proposta pretende reduzir em 50% a emissão global de gases até 2050. Por isso, esse tema é importante para o Japão.
E quanto ao etanol?
A legislação permite a mistura de etanol (na gasolina) até 3%. Por outro lado, há uma meta de reduzir a dependência de combustíveis fósseis no setor de transportes, dos atuais quase 100% para 80% até 2030. O plano do governo japonês para reduzir as emissões de gás inclui a produção de etanol nacional, utilizando vários tipos de biomassa. No entanto, o mercado de etanol no Japão é enorme e vai crescer. Será necessária a importação. Se o Japão fizesse obrigatória a mistura de 10% de etanol na gasolina agora, mesmo utilizando toda a capacidade brasileira de exportação de etanol não seria possível atender a essa demanda. Portanto, para o Japão, garantir o fornecimento barato e estável é extremamente importante. De qualquer forma, existe enorme potencialidade para intensificar a cooperação entre os dois países nessa área.
A questão do fornecimento do etanol foi muito frisada em 2004, com o então primeiro-ministro Junichiro Koizumi. Ficou claro que o Japão não quer correr risco de adotar o etanol sem ter garantias de que poderá suprir sua demanda. Houve avanços nessa área?
É importante que o Brasil aumente ainda mais sua produção. Algumas empresas japonesas, junto com parceiros brasileiros, estudam a viabilidade de investimentos nos negócios relacionados ao etanol, voltados ao aumento da capacidade produtiva, com a construção de usinas no Brasil. Esperamos que esses estudos resultem em investimentos concretos para a produção de etanol e para a construção de infra-estrutura relacionada ao etanol no Brasil e eventualmente à exportação ao Japão.Tenho a impressão de que esses estudos não são de longo prazo, não vão demorar muito tempo, talvez um ano ou dois.
E com relação aos demais biocombustíveis?
Atualmente há poucos carros com motor a diesel no Japão. O interesse do povo japonês em termos de carros ecológicos está principalmente no motor híbrido, combinando gasolina e eletricidade. A Toyota é líder mundial em carros híbridos - todas as estrelas de Hollywood têm carros híbridos da Toyota. No longo prazo, há interesse na célula combustível. Isso não significa que a cooperação entre os dois países sobre biodiesel não tenha futuro. Tem, sim. Com o aumento de consciência quanto à necessidade de proteção do meio ambiente, é possível que o interesse sobre o uso de biodiesel também aumente no Japão no futuro.
Na troca de visitas de Estado entre o Japão e o Brasil foram assinados diversos protocolos. Eles avançaram?
As relações estão em muitas boas condições e aumenta o intercâmbio e cooperação em diversos campos. Atualmente, o grupo de sábios composto por líderes das principais empresas japonesas e brasileiras elabora uma agenda concreta e preferencial sobre a nova parceria econômico-estratégica Japão-Brasil. Esse grupo de sábios foi criado para dar seguimento aos resultados à visita do presidente Lula ao Japão no campo econômico. A primeira reunião desse grupo já se realizou em São Paulo, em maio deste ano. Vai haver outra reunião em julho, em Tóquio. Até agora, as discussões têm sido intensas e positivas. Tenho certeza que esse grupo fará proposta muito boa para os líderes de ambos os governos. Vão anunciar os resultados, possivelmente em julho. Os temas ainda estão em discussão. Biocombustíveis naturalmente será importante. Eletrônica, siderurgia, celulose, agroindústria... quase todos os campos. Serão identificados campos prioritários e provavelmente projetos prioritários. Mas é cedo para falar.
E em relação aos dekasseguis? Existe alguma novidade sobre esse tema para 2008?
Os brasileiros que estão no Japão contribuem para a recuperação econômica e também para as relações bilaterais, no intercâmbio de pessoas e cultural. Por outro lado, são mais de 300 mil pessoas e existem alguns problemas que ambos os países precisam resolver. Tem havido várias reuniões para falar sobre vários aspectos, como a educação dos filhos. A Previdência Social é um problema importante e também, infelizmente, a criminalidade. Estamos conscientes da necessidade de avançar.
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