PAN 2007

tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online

Na moda, a integração é total

Grandes grifes apresentam referências nipônicas e não causam mais espanto: agora, isso faz parte

Márcio Oyama, especial para O Estado

O desfile de Erika Ikezili na última SPFW teve várias referências japonesas, constantes no trabalho da estilista. Ela diz que a inspiração vem da busca por suas raízes

Evelson de Freitas/AE

O desfile de Erika Ikezili na última SPFW teve várias referências japonesas, constantes no trabalho da estilista. Ela diz que a inspiração vem da busca por suas raízes

SÃO PAULO - Barquinhos de papel no cenário de Ronaldo Fraga. Carpas em meio à estamparia da Redley. Um imenso Monte Fuji de fundo e mangás nos vestidos da Sommer. Origamis em Simone Nunes. As várias referências nipônicas apresentadas por grande grifes nos dois maiores eventos de moda do País - São Paulo Fashion Week e Fashion Rio -, realizados em junho, poderiam até sinalizar a volta do japonismo às vitrines tupiniquins. O retorno da tendência (hit do começo do século), porém, sequer foi mencionado nas avaliações de diretrizes para o verão 2008, nas revistas especializadas. Passou batido? Sim, mas não por falta de atenção. Parece mesmo que as tais referências já não são vistas como estrangeiras na moda, alienígenas o suficiente para subirem ao posto de ‘hypes’. A mistura nipo-brasileira mostra ter se integrado ao repertório de influências dos estilistas nacionais, ‘contaminando’ as criações - ainda que inconscientemente - tanto quanto o calor dos trópicos, os ritmos da terrinha, a alegria e a sensualidade do povo. É como na churrascaria: o sushi no bufê não causa mais espanto. Faz parte.

 

E este novo desenho do mercado fashion verde-e-amarelo - agora com pinceladas de vermelho - leva a assinatura de nikkeis que constroem (e transformam) a moda brasileira. São estilistas nascidos da imigração quase centenária cujas carreiras dão corpo à história da nossa indumentária e cujas criações, sempre respingadas pela fusão ocidente-oriente, ajudam a decifrar a identidade do que sobe às passarelas daqui.

 

Nascido no Jabaquara, zona sul de São Paulo, alfabetizado em japonês antes de ingressar no ensino regular, lutador de judô e jogador de tênis de mesa até a adolescência, o precursor das ‘agulhas de ouro’ da colônia, Jum Nakao, de 40 anos, compõe hoje o primeiro time da moda canarinho. Mesmo afastado das fashion weeks desde 2004, quando se despediu do mercado com um lendário e perturbador desfile na Bienal - em que uma coleção etérea, magistralmente delicada, toda confeccionada em papel durante 700 horas de trabalho, foi destruída ao final da apresentação -, o estilista mantém o seu prestígio de criador de ponta nas aulas de pós-graduação que ministra no Instituto Brasil de Arte e Moda e nas exposições e palestras que organiza até no exterior. Em 2005, Jum exibiu as peças do desfile derradeiro - batizado de ‘A Costura do Invisível’, que ainda rendeu um livro-DVD - no Museu de Moda de Paris, junto a criações dos maiores estilistas do mundo, como Paul Poiret, Chanel, Christian Dior, Jean Paul Gaultier, John Galliano, entre outros. Em 2006, uma homenagem inusitada: o rompimento do nikkei com a semana de moda paulistana (e o seu entorno) recebeu dela o prêmio de desfile da década, ao fim das comemorações dos dez anos do evento.

 

“Decidi romper com o mercado porque, além da pouca viabilidade empresarial, eu via um futuro vazio de conteúdo. Não enxergava nem perspectivas financeiras nem conceituais”, explica o estilista. “Tinha uma preocupação grande com a nova geração, percebia como o trabalho de jovens criadores estava condicionado a valores duvidosos, totalmente pasteurizados por uma estética generalista. O rasgo das roupas procurou mostrar que, se existe uma idéia, um conceito, o trabalho permanece, independente da forma.” Não por acaso Jum está hoje na sala de aula e no rol dos imortais da moda tupiniquim.

 

Para chegar à ponta da criação nacional, o nikkei não nega as bases: a rígida educação que recebeu dos pais nisseis. “Sempre tive uma cobrança muito grande por parte deles, e também da minha avó, de ser o número um. Em tudo o que eu fazia, precisava ser o melhor.” A garra também veio do (espartano) judô. “Meu sensei (professor) era o Ryuzo Ogawa, um dos que trouxeram a luta ao Brasil. Eu chegava a chorar de tanto apanhar. Ele impunha a hierarquia com uma espada de bambu. Apesar de tudo, o judô me ensinou a ter disciplina - e a ralar muito.”

 

Jum reconhece a herança da garra nipônica em seu trabalho, porém, curiosamente, não identifica nele raízes culturais. “Não ligo para isso, não. Alguns estudiosos encontram várias referências do Japão em criações minhas, mas não se trata de uma busca. Acho que é inconsciente.” O primeiro grande desfile do estilista, em 1996, nas passarelas do Phytoervas Fashion (berço da SPFW), trazia samurais e yakuzas, entre outros japonismos. “Me baseei em cinco contos sobre o machismo.” Já na última apresentação, em 2004, o papel remetia à intrínseca ligação da cultura oriental com o artefato, traduzida em dobraduras, pinturas e caligrafias. “Evidentemente, há nesses criadores um aporte cultural que os outros estilistas não têm. As referências, às vezes, vêm mesmo sem eles se darem conta. Enquanto a gente brincava de amarelinha na infância, eles brincavam de origami. É uma coisa de berço, uma questão de DNA cultural”, analisa a especialista em moda Glória Kalil.

 

Resgate

 

Se as tintas nipônicas que pincelam o mercado fashion brasileiro surgem inconscientemente nas criações de Jum Nakao, nas de Erika Ikezili (era para ser 'Ikejiri', não fosse o erro do registro no cartório) elas aparecem bem lúcidas, como um resgate cultural. A nikkei de 30 anos - que há três desfila na semana de moda paulistana - nasceu em Cornélio Procópio, no Paraná, mas, ao contrário de Jum, cresceu longe de suas bases orientais: quando pequena, mudou-se para o multicolorido Limão, na zona norte de São Paulo. “Sou uma japonesa que fala alto, mexe demais os braços. Fui criada com as italianas e as portuguesas do bairro. A culinária de restaurante japonês, por exemplo, só conheci depois de adulta.”

 

Era 1996. Erika, ainda cursando a faculdade de moda, subiu ao altar com um sansei ‘típico’. “Meu marido sempre teve muito contato com a comunidade nikkei. Então, houve um interesse grande da minha parte de descobrir o que é ser japonês. Foi quando comecei a pesquisar a cultura mais a fundo. Tudo parecia novo, não tinha vivido aquilo.” A partir daí, gueixas, obis, cerejeiras e origamis passaram a carimbar as coleções da designer - que, antes de chegar à SPFW, caminhou pelo Mercado Mundo Mix, Casa de Criadores e Amni Hot Spot. “Já trabalhei com várias coisas relacionadas ao Japão, sobretudo na estamparia, com muitos florais, e nas cores, sempre fortes. Também gosto de misturar desenhos. O contraste de cultura e atitude que marca os nikkeis é o que mais tento colocar no meu trabalho.”

 

Hoje, a ligação de Erika com a terra do sol nascente virou negócio. A estilista já exporta as suas criações - em peso - para lá. São 12 pontos de venda, a maioria na capital Tóquio. “As roupas agradam tipos variados de compradores, de lojas grandes a butiques. É um começo ainda, mas sinto que o desejo pela moda brasileira cresce no Japão”, comemora. Bem-sucedida no resgate cultural que usa como fonte de idéias, a nikkei não deixa de lado as homenagens: em janeiro, apresentará, na semana de moda paulistana, uma coleção com foco no centenário da imigração. “Já estamos captando recursos”, avisa.

 

Foi também buscando um resgate que Rogério Hideki, de 35, vendeu, com o sócio Vitor Santos, a grife masculina V.Rom - nome de peso da SPFW desde 2002 -, para abrir um estúdio de design. O último desfile da marca tendo a dupla no comando aconteceu em janeiro, em clima de despedida: os criadores encerraram a apresentação de mãos dadas, visivelmente emocionados. “Tudo ainda é novo para mim, estou me adaptando”, confessa Rogério. “Trabalhamos agora para fortalecer a nova empreitada.”

 

Nascido em Atibaia, interior paulista, o estilista veio para São Paulo com 16 anos. Os pais, nisseis, nunca o forçaram a seguir padrões de comportamento, diferentemente da avó, japonesa, que sonhava ver o neto formado em medicina. “Quando optei por humanas, ela ficou um pouco frustrada. Mas só no começo.” Rogério chegou a cursar a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), sem se formar. Entrou de cabeça no mercado fashion, trabalhando na Alpargatas, Zoomp/Zapping (por 12 anos) e abrindo a V.Rom, com Vitor, em 1999.

 

O começo da grife foi marcado pela influência divertida dos videogames e dos mangás, traços nipônicos que se dissiparam com o passar dos anos. Daí, o resgate. Rogério conta que o estúdio - batizado de Árvore - pretende retomar este olhar perdido da estética oriental. “Agora, temos mais liberdade para criar. Também há mais possibilidades de se brincar.” O tal resgate ainda se estende ao ‘business’: o estúdio é a concretização de um projeto antigo do estilista. “Tinha a intenção de abrir o negócio desde a V.Rom. Queria fazer um trabalho independente da moda.”

 

O mercado da indumentária não será negligenciado, garante o nikkei. Tanto que o estúdio já presta serviços para a própria V.Rom, a Cavalera, Redley e Mandi. O Árvore tem outros alvos além-vitrine, como o mercado publicitário, mas não desvia o foco dos cabideiros. Rogério promete: “Nunca vou deixar a moda”.