PAN 2007

tera-feira, 17 de julho de 2007, 00:01 | Online

O caminho de volta ainda é atraente

O Japão deixou de ser o Eldorado, dizem especialistas. Mas os brasileiros continuam querendo ir para lá

Kátia Arima, especial para O Estado

Murilo e Ana Paula foram para ficar três anos no Japão: ‘Vamos fazer muita hora extra para conseguir voltar logo’

Ernesto Rodrigues/AE

Murilo e Ana Paula foram para ficar três anos no Japão: ‘Vamos fazer muita hora extra para conseguir voltar logo’

SÃO PAULO - Em tempos de dólar baixo, trabalhar no Japão já não rende tanto para os brasileiros. Mesmo assim, ainda há muita gente disposta a partir para o outro lado do mundo para executar atividades braçais. São os dekasseguis, trabalhadores que se dedicam a tarefas não qualificadas, rejeitadas pelos japoneses, geralmente pesadas, sujas e/ou perigosas.

 

“O Japão deixou de ser o Eldorado dos brasileiros”, afirma Eduardo Toyama, que há um ano montou uma agência que recruta dekasseguis. Apesar disso, ele envia de 15 a 20 brasileiros todo mês para trabalhar no Japão. A maioria vai por falta de boas oportunidades aqui, observa Toyama. “São pessoas que se formam na faculdade, mas não conseguem emprego ou são demitidas na meia-idade.”

 

Sem boas perspectivas profissionais no Brasil, o casal de publicitários Murilo e Ana Paula Matsumoto decidiu encarar a vida de dekassegui. Os dois embarcaram para o Japão no começo do mês, de coração apertado. “Somos muito apegados à família e vamos sentir saudades”, afirma Murilo, de 26 anos. “Mas acho que o sacrifício vale, teremos mais retorno financeiro do que aqui no Brasil.”

 

Moradores da cidade de Marília, no interior de São Paulo, eles não se sentiam valorizados. No Japão, vão montar componentes em uma grande empresa de eletrônicos. Planejam ficar três anos, para juntar dinheiro. O sonho do casal é montar uma agência de publicidade quando voltar. “Vamos encarar o que vier e fazer muitas horas extras para conseguir voltar logo.”

 

Outro brasileiro que parte para trabalhar no Japão, Miguel Jorge de Meira Nonose, de 21 anos, não tem certeza se volta. “Talvez depois eu vá estudar no Canadá”, diz. Ele decidiu encarar a vida de dekassegui junto com o irmão mais novo, Paulo Sadao, porque se sentia perdido. Estava cursando a faculdade de Geografia, mas não via boas perspectivas profissionais. “Não queria me tornar professor, que é muito desvalorizado no Brasil”, diz. “Prefiro ser operário no Japão e ter qualidade de vida, conhecer pessoas e uma nova cultura.”

 

O pai de Jorge, Sérgio Nonose, de 45 anos, foi há cinco anos para o Japão, juntar dinheiro para pagar uma dívida - até agora não conseguiu quitar. “Foi a salvação da família”, diz Jorge. Mas o pai não gostou da decisão dos filhos. “Ele diz que o trabalho é pesado e repetitivo e que gostaria que terminássemos os estudos no Brasil.”

 

Rotina dura
Não existe trabalho fácil para os dekasseguis, afirma Ricardo Sassaki, advogado da Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), sociedade civil sem fins lucrativos, criada em 1992 em São Paulo para orientar os brasileiros que vão trabalhar no Japão. “Por mais simples que seja a tarefa, é cansativo passar 8 horas ou mais em pé.”

 

A remuneração dos dekasseguis caiu muito nos últimos anos, observa Sassaki. Ele conta que, na década de 80, ganhavam-se 2.000 ienes por hora de trabalho (cerca de R$ 30). Atualmente, as empresas japonesas pagam por volta de 1.100 ienes por hora (cerca de R$17). Apesar disso, muitos brasileiros decidiram permanecer no Japão. Mais de 60 mil brasileiros já pediram visto definitivo, conta Sassaki. No total, há 312.979 brasileiros registrados no departamento de imigração japonês.

 

Para os dekasseguis, é muito difícil se readaptar ao Brasil, afirma Sassaki. “Eles voltam defasados profissionalmente e não conseguem a mesma renda obtida no Japão. Por isso, ficam entre idas e vindas.”

 

A brasileira Ester Megumi Shibata, de 38 anos, há 17 anos no Japão, acha que é um vício. “A maioria dos meus amigos que disseram que nunca mais trabalhariam no Japão está de volta. A gente sabe que, se faltar grana no Brasil, dá para voltar para cá.”

 

No Japão, Ester já costurou cortinas, inspecionou placas de impressão e vidros, arrumou quartos de hotéis e motéis, soldou chips de celular, operou máquinas de fazer plástico e montou marmitas. Não foi nada fácil, por causa do preconceito dos japoneses em relação aos brasileiros. Mas, ressalva, há quem elogie os dekasseguis. “Eles dizem que somos corajosos por vir de um país tão distante e ficar longe da família só para realizar um sonho”, diz Ester. “Para alguns, dekassegui é sinônimo de garra, perseverança, força de vontade.”

 

Sucesso

 

Um exemplo de que o esforço dos dekasseguis pode levar ao sucesso no Japão é a história de Edson Masatoshi Tamada, de 34 anos. Perdeu o pai aos 13 anos e teve que ajudar a mãe a sustentar as duas irmãs mais novas. Com 20 anos de idade, ele foi trabalhar numa fábrica japonesa de autopeças. Encarava uma jornada diária de 12 horas. “A saudade e o trabalho exaustivo desanimam muitos brasileiros, mas para mim era um desafio”, diz. Nas horas vagas, fazia entrega de encomendas de carne aos brasileiros. Abriu um pequeno açougue, que mais tarde transformou em empresa atacadista.

 

Hoje,mantém o grupo IBFox, com 12 empresas de diversas áreas, que rendem US$ 61 milhões ao ano. “A IBFox é um pedacinho do Brasil no Japão”, diz, orgulhoso.

 

O administrador de empresas Edson Shiroma não ficou rico, mas melhorou de vida depois de quatro anos trabalhando no Japão. Como Tamada, virou empresário.

 

De volta ao Brasil, montou uma loja de equipamentos de informática. Em 2003, abriu uma empresa de equipamentos de segurança. “Antes de ir ao Japão, trabalhava na área de informática”, conta. “Se não tivesse ido, hoje estaria trabalhando como empregado da mesma forma.”