O principal ganho da conquista da auto-suficiência na produção de petróleo, na avaliação do presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, será a independência do Brasil em relação a eventuais reviravoltas econômicas e políticas no mundo. O consumidor não verá este novo estágio refletido em preços mais baixos nas bombas dos postos de gasolina, como acontece na Venezuela, o maior reservatório de petróleo da América Latina.
Gabrielli sustenta que são duas realidades distintas, já que não há como comparar a demanda doméstica lá e cá. 'Na Venezuela, 85% da receita com o petróleo vêm das vendas externas', declara, informando que no Brasil a situação é exatamente o oposto. Ele defende a continuidade do padrão de acompanhamento do preço internacional e indaga por que não há a mesma discussão pública em relação à política de preços da carne e do aço, por exemplo.
Apesar de não contribuir para tornar mais leve o bolso do consumidor, a Petrobrás espera sensibilizar a população para a campanha - que Grabrielli prefere não antecipar -, frisando que passamos a ter garantia de abastecimento de combustíveis sob qualquer hipótese. Outro ponto que destaca é o fortalecimento do saldo comercial, já que o País está deixando para trás uma posição deficitária na conta de compra e venda de petróleo, para um superávit que será registrado este ano pela primeira vez e tende a ser maior ano a ano. A seguir, os principais trechos da entrevista concedidas pelo presidente da Petrobrás ao Estado:
O que significa a auto-suficiência na produção de petróleo?
Poucos países e, com certeza, pouquíssimas empresas podem estar associados ao conceito de auto-suficiência. O maior mercado de combustíveis, os Estados Unidos, tem cerca de 65% de sua demanda baseada em importações. Se considerarmos os três grandes mercados (EUA, China e Europa), veremos que eles enfrentam dificuldade no fornecimento físico do derivado de petróleo. Usam mecanismos geopolíticos e militares para garantir acesso a esses suprimentos; revervas absolutamente extraordinárias de moeda estrangeira, como é o caso da China, e, evidentemente, um pouco da administração da política monetária e da política cambial como forma de proteção para eventuais elevações de preços. O Brasil é diferente. Tem uma vantagem excepcional. Mesmo que a nossa economia cresça em torno de 4% ao ano, o que significa um aumento de demanda em torno de 2,6% nos combustíveis, temos condições de produzir no Brasil a quantidade suficiente para atender ao mercado brasileiro de petróleo. O grande efeito da auto-suficiência é a garantia física do fornecimento de petróleo para o País, independente das crises geopolíticas e das crises mundiais.
E essa vantagem se refletirá no preço da gasolina?
O preço é outra coisa. Depende de um conjunto de variáveis, principalmente em função da disponibilidade de petróleo. Também depende da capacidade de refino, das alternativas de substituição de fornecimento local, da especificação do produto. No caso brasileiro, também da variação do preço do álcool, além das especificações mundiais. O Brasil éuma economia aberta. Os preços da gasolina e derivados não podem ficar descolados do preço internacional. Mas, havendo garantia de fornecimento, pode-se manter uma certa redução da volatilidade dos preços, porque se pode administrar a oferta brasileira. O preço brasileiro não pode ficar permanentemente acima ou abaixo dos preços internacionais. Se ficar acima muito tempo, vai estimular que haja importação, o que vai forçar a queda do preço. Se ficar muito abaixo, vai estimular que outros agentes comprem da Petrobrás e exportem para o exterior. É impossível numa economia aberta manter os preços descolados do preço internacional.
Então nada muda com a auto-suficiência?
Vai mudar tudo na prática. Saímos de uma situação em que o petróleo era o grande problema para a vulnerabilidade do País. Não precisamos mais desembolsar dólares para conseguir petróleo, nem estamos ameaçados de não tê-lo. É uma mudança substantiva. É o grande resultado da auto-suficiência.
Mas já se coloca na conta da autosuficiência a estabilidade no preço da gasolina. O que muda?
Objetivamente, temos mais capacidade de gerir a gestão do preço doméstico. Em 2004, tivemos déficit comercial em petróleo e derivados de US$ 3 bilhões. Em 2005, o déficit foi de apenas US$ 132 milhões. Em 2006, provavelmente vamos superar os US$ 2 bilhões de superávit, o primeiro da história.
A Petrobrás está em primeiro lugar entre as exportadoras brasileiras e exportamos o dobro da segunda.
A Venezuela fez a escolha política de vender barato no mercado interno.
A Venezuela tem uma situação absolutamente distinta de nós. Nós temos 85% de nossa receita no Brasil; a Venezuela tem 85% da receita fora. Isso muda radicalmente a importância do mercado doméstico.
Mantemos um certo alinhamento com o preço internacional. Não fazemos mudança todo o dia, nem vamos fazer. A flutuação dos preços internacionais é tão intensa hoje que ora está acima (o preço no Brasil), ora está abaixo, produto a produto.
Os cálculos de analistas é de que o preço no Brasil ainda está 20% acima do internacional.
Essa conta de analistas é absolutamente equivocada, errada, burra! Porque é uma visão absolutamente financeira do problema. É comparar banana com laranja. (A gasolina) não está mais cara do que lá fora.
Porque, objetivamente, a gasolina lá fora é outra. Qual é o teor de enxofre, qual o de cetano, qual é a proporção de álcool, qual a logística? Essas contas (dos analistas) são genéricas, bonitinho para influenciar na operação financeira.
Agora, do ponto de vista funcional do negócio do petróleo, é errada. Senão, todo mundo estaria entrando e saindo do mercado.
E como sensibilizar o consumidor para uma campanha que não representará redução de preço? O Brasil tem uma má história com relação a petróleo, porque o preço caía lá fora e não aqui...
Se há ameaça de falta de gás em São Paulo, o que o consumidor fala? 'Vou para o Rio de Janeiro'. Se faltar gasolina, o que acontece? O consumidor pensa em preço, mas, em última instância, quer a disponibilidade do produto. O Brasil é mais do que auto-suficiente em carne, em soja e óleo de soja, café, aço, e, no entanto, os preços são internacionalizados. Por que uma discussão tão intensa sobre política de preços do petróleo? Qual setor discute publicamente a política de preços? A economia não é aberta? A estratégia da campanha é que temos um produto fundamental para movimentar o País. Se houver algum problema externo, não haverá problemas de combustível, a grande questão do mundo hoje. Não precisaremos gastar dólares para comprar petróleo. Temos a segurança que não vai faltar petróleo no mercado interno.
Hoje enfrentamos impasse semelhante em relação ao gás, com a mudança nas regras na Bolívia.
Quando seremos auto-suficientes em gás?
Não temos pretensão de sermos auto-suficientes em gás.
O que determina o (mercado do) gás é a infra-estrutura de transporte regional. É um mercado mais em rede, mais dependente do que o do petróleo, onde o mapa dos dutos determina os fluxos. Somos a favor da auto-suficiência, mas não dá para desprezar o benefício (do gasoduto Brasil-Bolívia).
A auto-suficiência muda a estratégia de internacionalização da Petrobrás.
Processar esse petróleo pesado na nossa refinaria lá fora ou aqui aumenta o valor adicionado. É claro que isso vai mudar.
Vamos elevar nossos investimentos em refino. É claro que a exploração (de petróleo) é sempre o elemento-chave da empresa. Temos mais áreas exploratórias, vamos investir mais em exploração. Estamos hoje na Nigéria, Angola, Guiné Equatorial, Tanzânia, Moçambique, Níbia, Irã, Turquia, Estados Unidos e quase todos os países da América do Sul. O Iraque nos convidou mas, neste momento, o país não é uma boa iniciativa para empresas de petróleo. A Petrobrás está gerando valor na sua capacidade de descobrir e multiplicar reservas. Como nossa expansão maior está ocorrendo nos Estados Unidos, vamos crescer mais lá. Temos 853 blocos exploratórios no Golfo do México.A previsão de investimentos, só na área exploratória, deve ser US$ 1,5 bilhão até 2012.
Estamos comprando uma refinaria nos Estados Unidos. Vamos aumentar a produção e investir fortemente nos EUA.