A história do tesouro submarino

Nicola Pamplona

Em 1974, ao voltar de uma viagem ao Oriente Médio, o geólogo Carlos Walter Marinho Campos encontrou em sua mesa, na sede da Petrobrás, pedido de autorização para o abandono de um poço exploratório que estava sendo perfurado no litoral norte-fluminense.

A sonda de perfuração Petrobrás 2 trabalhava há semanas no local e não havia encontrado nada. Técnicos da companhia sugeriam o deslocamento da sonda para outra região. Os recursos eram escassos e o Brasil precisava de petróleo para responder à crise mundial de preços, foi o argumento usado para justificar a desistência.

Na viagem, Marinho aprendeu que as abundantes reservas árabes foram encontradas em rochas calcárias, a cerca de 5 mil metros de profundidade. Como o poço da Petrobrás 2 estava a apenas 200 metros do calcário, ele determinou que os trabalhos seguissem mais fundo. Dias depois, a Petrobrás encontrou os primeiros indícios do que viria a ser a Bacia de Campos. O sucesso motivou a perfuração de um novo poço na região, descobridor do Campo de Garoupa, o primeiro da bacia hoje responsável por 83% da produção nacional de petróleo.

"Não imaginávamos que tínhamos descoberto uma província tão grande. Para nós, podia ser algo parecido com a Bacia de Sergipe-Alagoas", recorda o geólogo Giuseppe Bacoccoli, que trabalhava na área de exporação e produção da Petrobrás na ocasião, citando a primeira bacia onde a estatal buscou petróleo no mar. Hoje, ele ri da comparação: toda a Bacia de Sergipe-Alagoas produz 54 mil barris por dia, cerca de um terço do que a P-50, sozinha, vai extrair do Campo de Albacora Leste. "Se me perguntassem na época se Campos poderia produzir mais de 1 milhão de barris por dia, eu diria que era impossível", diverte-se.

A maior bacia petrolífera brasileira superou a marca de 1 milhão de barris por dia há cinco anos. Hoje, o volume extraído diariamente na região chega perto dos 1,5 milhão, maior do que a produção de alguns membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), como Argélia e Indonésia. A atividade na região só tende a aumentar, com a entrada em operação de novas plataformas. Além da P-50, o planejamento estratégico da estatal prevê que, até 2009, oito novas unidades sejam instaladas na região, com capacidade para produzir pelo menos 1 milhão de barris por dia. Para 2010, há mais três grandes plataformas.

A anglo-holandesa Shell também vai investir na bacia, onde encontrou 500 milhões de barris de petróleo em parceria com a Petrobrás. Além disso, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), 14 empresas têm concessões para buscar reservas nos 100 mil quilômetros quadrados da bacia. Interesse que reflete o bom desempenho da Petrobrás na região - segundo a empresa, a taxa de sucesso em Campos é a maior do mundo, com uma descoberta para cada dois poços perfurados.

DESCONFIANÇA
A história da bacia, porém, é recheada de desconfiança e, se o mundo não enfrentasse uma crise sem precedentes no abastecimento de petróleo, é possível que sua descoberta fosse mais demorada. A Petrobrás iniciou a busca por reservas marítimas no Nordeste. Com a primeira crise do petróleo, no início dos anos 70, porém, os esforços na busca por reservas se intensificaram. Na segunda crise, no fim da década, o governo criou um plano de investimentos no setor, que previa uma abertura sem precedentes nos cofres estatais. A meta era atingir a produção de 500 mil barris de petróleo por dia, reduzindo substancialmente a dependência com relação ao mercado internacional.

Esse esforço foi coroado com a descoberta, em 1985, do primeiro campo gigante do País, batizado de Albacora. A partir daí, foram descobertas reservas cada vez maiores, em campos como Marlim - hoje o maior do País, com cerca de 500 mil barris por dia -, fundamentais para a auto-suficiência.

Hoje, qualquer número relativo à Bacia de Campos é grandioso. São 40 plataformas de produção, conectadas entre si e com o continente através de mais de 4,7 mil quilômetros de dutos, distância igual à de Porto Alegre a Manaus. Todo ano, a Petrobrás contrata R$ 11 bilhões em serviços e outros R$ 4 bilhões em bens para a região.

O desenvolvimento da Bacia de Campos, onde as grandes reservas estão em águas profundas, foi o principal laboratório para o desenvolvimento da tecnologia petroleira para produção de petróleo, hoje reconhecida em todo o mundo.