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Jurun mata o Sol Kuadê, o Sol, era gente também.
Morava longe e falava outra língua. Os Juruna costumavam passear
na casa dele. Perto de onde morava o Sol tinha um buraco na
pedra que estava sempre cheio de água. Era uma armadilha para
pegar bicho. Bicho que enfiava a cabeça no buraco para beber
água ficava preso. Todos os dias o Sol ia ver se havia caça
presa. Quando encontrava, matava e levava pra casa para comer.
A pesca, ele só fazia à noite, clareando a água com uma luz
que ele tinha no traseiro. Ele zangava e matava quem dizia
ter visto a sua luz. Havia um moço Juruna que não sabia da
armadilha do Sol, o buraco na pedra. Passando perto um dia,
com sede, foi beber e ficou preso pela mão. Quando no outro
dia viu o Sol que se vinha aproximando na sua visita diária,
o moço fingiu de morto. Deitou e ficou imóvel, com o coração
parado também, de tanto medo. O Sol chegou e começou a examiná-lo.
Abriu a boca, os olhos, apalpou o peito e verificou que estava
tudo parado como gente morta. Aí o Sol desprendeu o moço Juruna
do buraco e o colocou dentro de um cesto para ser transportado.
Mas antes de pôr o cesto nas costas, para ver se o moço estava
bem morto mesmo, jogou formiga em cima dele. O Juruna aguentou
as formigas, sem se mexer, mas quando elas morderam nos olhos,
ele se mexeu um pouquinho. A borduna do Sol, que estava perto,
percebendo o movimento, quis logo bater, mas o dono não deixou,
dizendo que o Juruna estava bem morto. Em seguida, o Sol levou
o cesto com o corpo para perto da casa dele, pendurando-o
no galho de uma árvore. No dia seguinte, pediu ao filho que
trouxesse o cesto para dentro de casa. O filho do Sol foi
mas não encontrou mais o Juruna. Ele tinha fugido de noite.
O Sol sabendo disso, na mesma hora jogou a sua borduna atrás
dele. a borduna saiu voando e logo adiante bateu num veado.
O Sol disse que não era aquilo que ele queria, e saiu em perseguição,
até que encontrou o fugitivo escondido na raiz oca de um pau.
A borduna chegou e começou logo a bater no tronco. Vendo que
isso não dava resultado, cortou uma vara e passou a chuçar
o buraco. O Juruna ficou todo machucado, mas continuou dentro
da toca. Como já estava muito tarde, o Sol tapou a boca do
buraco com uma pedra e disse para a borduna: "Amanhã nós voltamos
para acabar de matar". De noite, na ausência do Sol, todo
tipo de bicho - anta, porco, veado, macaco, paca, cutia -
apareceu para ajudar o moço Juruna a sair de dentro da toca
onde se tinha enfiado. Lá dentro, ele pedia: "Cavem esse pau
para eu sair". Os bichos começaram a cavar. Quando os seus
dentes quebravam, iam à procura de outros bichos para continuar
a escavação. a anta conseguiu abrir uma pequena saída. O moço
Juruna pôs a cabeça para fora e pediu que cavassem mais um
pouco. Com o alargamento que a cutia e a paca, por último,
fizeram, ele pôde sair de uma vez para fora. Quando o sol
chegou, não o encontrou mais. O moço a essa hora já estava
chegando em casa. Lá, contou para os parentes o que havia
acontecido com ele, dizendo que quase tinha sido morto pelo
Sol. Três dias depois foi dizer à mãe que ia sair novamente
para colher coco. A mãe, chorando, pediu a ele que não fosse.
"Não vá, meu filho, que o Sol vai matar você". O moço, depois
de cortar todo o cabelo e se pintar de jenipapo, foi dizer
à mãe que assim como estava não ia ser reconhecido pelo Sol.
"Não tenha medo, que o Sol não me vai conhecer. Agora estou
diferente". Falou isso e entrou mata adentro. Subiu no primeiro
inajá que encontrou e ficou lá em cima colhendo coco. O Sol,
que passava por perto, pensou que era macaco que estava no
alto da palmeira. Quando viu que era gente e reconheceu o
Juruna, disse assim: -Quase matei você naquele dia, mas agora
você vai morrer. -Eu não sou quem você está pensando. Sou
outro - disse o moço lá do alto. Mas o Sol sabia, e replicou:
- É você mesmo. Desça daí que você vai morrer agora mesmo.
O Juruna, então, lá da copa da palmeira, pediu ao sol que
parasse primeiro um cacho de coco que ele ia jogar. -Pega
primeiro este cacho que eu vou jogar. -Joga - disse o Sol.
O moço jogou o cacho e o Sol pegou. Era um cacho pequeno,
esse primeiro jogado. O moço lá de cima tornou a pedir: Pega
mais este. E lá de cima jogou um cacho pesado, muito grande.
O Sol estava esperando com os braços estendidos para o alto.
O cacho caiu direito no peito dele e o matou na hora. Ao morrer
o Sol, tudo ficou escuro. A borduna, com a morte do dono,
no mesmo instante correu e se transformou em cobra, a salamanta
(uandáre-borduna do Sol). O sangue que escorria do Sol ia-se
transformando em aranha, formiga, cobra, lacraia e outros
bichos. Essas cobras e aranhas que forravam o chão não deixavam
o moço Juruna descer da palmeira. ele, então, como os macacos,
foi passando de árvore para árvore. Só desceu quando viu o
chão limpo. Uma vez em baixo, procurou o caminho e voltou
para a aldeia. Lá chegando, disse para a mãe: -Matei o Sol.
-Por que você fêz isso? eu bem não queria que você saísse.
Agora está tudo escuro - a mãe, assustada, lamentou. As crianças
todas começaram a morrer com a escuridão, porque ninguém podia
pescar, caçar, ou trabalhar. Lá na aldeia do Sol, a mulher
dele já sabia da sua morte. Disse aos três filhos que já estavam
passando fome: - IO pai de vocês morreu porque gostava de
matar gente. Qual de vocês quer ficar no lugar dele? Experimentou
primeiro o mais velho dos três. Este, logo que pôs na cabeça
o penacho do pai, achou-o muito quente. Foi subindo, subindo,
quando estava quase amanhecendo não aguentou mais o calor
e voltou. Aí foi a vez do outro, o do meio. Colocou o penacho
na cabeça e começou a subir. Passou um pouco da altura a que
chegou o primeiro, mas não aguentou também e voltou dizendo
que o calor era demais. Restava o mais novo. A mãe perguntou
se ele queria ficar no lugar do pai. Ele disse que sim. Adornou-se
com o penacho e subiu, mas como o calor era muito grande,
andou depressa e se escondeu logo do outro lado. De regresso
à casa, a mãe lhe disse: -Você aguentou um pouco,mas é preciso
andar mais devagar da outra vez, para o pessoal poder matar
peixe, caçar e trabalhar. Não corre não. O filho mais moço
do Sol voltou a fazer a caminhada, e fez toda ela devagar,
desta vez. A mãe havia recomendado a ele que parasse um pouco
quando estivesse bem no alto, no meio do caminho, e que começasse
a descer bem devagar depois, parando um pouquinho também,
antes de entrar duma vez do outro lado. Quando a mãe viu o
filho fazer todo o caminho, como devia ser feito, chorou dizendo:
-Você agora está no lugar de seu pai, e não vai voltar mais
para mim. O filho lá do alto por sua vez falou: -Agora não
posso mais voltar para morar com você. Vou ficar sempre aqui
em cima. A mãe, ao ouvir isso, chorou outra vez.
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