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O primeiro Kuarup, a festa dos mortos (Kamaiurá)
Mavultsinim queria que os seus mortos voltassem à vida. Foi
para o mato, cortou três toros da madeira de kuarup, levou
para a aldeia e os pintou. Depois de pintar, adornou os paus
com penachos, colares, fios de algodão e braçadeiras de penas
de arara. Feito isso, mavutsinim mandou que fincassem os paus
na praça da aldeia, chamando em seguida o sapo cururu e a
cutia (dois de cada), para cantar junto dos Kuarup. Na mesma
ocasião levou para o meio da aldeia, peixes e beijus para
serem distribuídos entre o seu pessoal. Os maracá-êp (cantadores),
sacudindo os chocalhos na mão direita, cantavam sem cessar
em frente dos kuarup, chamando-os à vida. Os homens da aldeia
perguntavam a Mavutsinim se os paus iam mesmo se transformar
em gente, ou se continuariam sempre de madeira com eram. Mavutsinim
respondia que não, que os paus de kuarup iam se transformar
em gente, andar como gente e viver como gente vive. Depois
de comer os peixes, o pessoal começou a se pintar, e a dar
gritos enquanto fazia isso. Todos gritavam,. Só os maracá-êp
é que cantavam. No meio do dia terminaram os cantos. O pessoal,
então, quis chorar os kuarup, que representavam os seus mortos,
mas Mavutsinim não permitiu, dizendo que eles, os kuarup,
iam virar gente, e por isso não podiam ser chorados. Na manhã
do segundo dia Mavutsinim não deixou que o pessoal visse os
kuarup. "Ninguém pode ver" - dizia ele. A todo momento Mavutsinim
repetia isso. O pessoal tinha que esperar. No meio da noite
desse segundo dia os toros de pau começaram a se mexer um
pouco. Os cintos de fios de algodão e as braçadeiras de penas
tremiam também. As penas mexiam como se tivessem sendo sacudidas
pelo vento. Os paus estavam querendo transformar-se em gente.
Mavutsinim continuava recomendando ao pessoal para que não
olhasse. Era preciso esperar. Os cantadores - os cururus e
as cutias - quando os kuarup começaram, a dar sinal de vida
cantaram para que se fossem banhar logo que vivessem. Os troncos
se mexiam para sair dos buracos onde estavam plantados, queriam
sair para fora. Quando o dia principiou a clarear, os kuarup
do meio para cima já estavam tomando forma de gente, aparecendo
os braços, o peito e a cabeça. A metade de baixo continuava
pau ainda. Mavutsinim continuava pedindo que esperassem, que
não fossem ver. "Espera... espera... espera" - dizia sem parar.
O sol começava a nascer. Os cantadores não paravam de cantar,.
Os braços dos kuarup estavam crescendo. Uma das pernas já
tinha criado carne. A outra continuava pau ainda. No meio
do dia os paus começavam a virar gente de verdade. Todos se
mexiam dentro dos buracos, já mais gente do que madeira. Mavutsinim
mandou fechar todas as portas., só ele ficou de fora, junto
dos kuarup. Só ele podia vê-los, ninguém mais. Quando estava
quase completa a transformação de pau para gente, Mavutsinim
mandou que o pessoal saisse das casas para gritar, fazer barulho,
promover alegria, rir alto junto dos kuarup. O pessoal, então,
começou a sair de dentro das casas. Mavutsinim recomendava
que não saíssem aqueles que durante a noite tiveram relação
sexual com as mulheres. UM, apenas, tinha tido relações. Este
ficou dentro da casa. Mas não aguentando a curiosidade, saiu
depois. NO mesmo instante, os kuarup pararam de se mexer e
voltaram a ser pau outra vez. Mavutsinim ficou bravo com o
moço que não atendeu à sua ordem. Zangou muito, dizendo: -
O que eu queria era fazer os mortos viverem de novo. Se o
que deitou com mulher não tivesse saído de casa, os kuarup
teriam virado gente, os mortos voltariam a viver toda vez
que se fizesse kuarup. Mavutsinim, depois de zagar, sentenciou:
- Está bem. Agora vai ser sempre assim. Os mortos não reviverão
mais quando se fizer kuarup. Agora vai ser só festa. Mavutsinim
depois mandou que retirassem dos buracos os toros de kuarup.
O pessoal quis tirar os enfeites, mas Mavutsinim não deixou.
"Tem que ficar assim mesmo", disse. E em seguida mandou que
os lançassem na água ou no interior da mata. Não se sabe onde
foram largados, mas estão até hoje lá, no Morená.
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