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Inundação e fim do mundo (Juruna) Sinaá morava
com os Juruna. Ele era Juruna também. O pai dele era uma onça
muito grande que vivia em cima de um jirau dentro da casa.
A onça chamava ducá. A mãe de Sinaá era gente. A onça não
dormiu com a mulher para nascer Sinaá.A onça introduziu o
pênis num buraco onde viu a mulher urinar. Foi assim que nasceu
Sinaá. A onça era muito brava, nunca saía de cima do jirau.
Ela babava muito. Junto dela havia sempre uma cuia para aparar
a baba. Se a baba caísse no chão, outros índios apareciam
e matariam os Juruna. A baba da onça quando enchia a cuia
tinha que ser jogada dentro dum buraco fundo. Pequena quantidade
de baba quando derramada, o vento espalhava e virava passarinho.
A onça não olhava pra frente. Tinha a cabeça sempre virada
para um lado. Ela não podia ver ninguém. Se enxergasse, outros
índios viriam e matariam os Juruna. Ela só podia ver o pessoal
com os olhos que tinha nas costas. Sinaá também era assim.
Tinha olho nas costas. Tanto Sinaá quanto o pai dele, a onça,
se pisassem no rio, a água dele secaria. Sinaá tinha três
filhos. Ele tinha água separada para tomar banho. Seus filhos
usavam também essa água separada e escondida. Era uma água
muito fria. No começo mesmo não havia água. Só o passarinho
a possuía. Era a juriti. Só ela é que trazia água para o pessoal
beber. Trazia de uma caixa muito grande que havia lá em cima.
A juriti um dia deixou de trazer água, e os filhos de Sinaá
começaram a chorar de sede. Diziam chorando: - Nosso avô não
traz mais água para nós. O filho mais velho de Sinaá resolveu
quebrar a caixa d´agua que havia lá para cima. Foi falar primeiro
como pai. Sinaá falou: - Cuidado, peixe grande pode comer
vocês todos. - Não tem perigo, não. Nós quebramos e pulamos
longe. Como Sinaá não queria, os filhos foram escondidos,
dizendo:"Deixa que o peixe nos coma". Havia mesmo muito peixe
dentro da caixa. Todos os peixes estavam lá. A caixa era muito
longe e muito grande. Quando os meninos chegaram perto dela,
tiveram medo. Ficaram olhando com medo de quebrar. Disse o
mais velho para o irmão mais moço: - Você bate com a borduna
e pula longe. Não fique parado não, senão o peixe pega você.
O menino bateu mas não pulou logo para trás. O peixe saiu
da caixa e o engoliu. O mais velho e o do meio pularam logo,
e o peixe não pegou. Sinaá estava na casa dele e ouviu o barulho
da água que começou a descer. Barulho muito grande, igual
a trovão quando está zoando. Era muita água que começava a
correr. Sinaá disse consigo mesmo: " Os meninos quebraram
a caixa". Ele falou e saiu a procurar os filhos mas não os
encontrou. O mais pequeno estava na barriga do peixe grande.
Só as pernas dele estavam de fora. As águas estavam descendo.
Os dois outros meninos corriam na frente. Eles queriam barrar
a água com pedras mais embaixo, pra salvar o irmão, tirá-lo
da boca do peixe. A água chegou na primeira barragem que fizeram
e passou por cima. Fizeram outra mais pra baixo e a água passou
por cima dessa também. Levantaram outra e aconteceu a mesma
coisa. Construíram muitas, sem resultado. Por fim, bem na
frente, fizeram uma tapagem muito alta e em cima dela ficaram
esperando. Quando o peixe apareceu com a cabeça pra cima trazendo
o menino na boca, subindo com a água, o filho mais velho de
Sinaá agarrou o irmão pela perna e arrancou-o de onde estava.
O peixe passou para o outro lado com a água que cobriu a barragem.
Depois de sair para o seco, o filho mais velho de Sinaá disse:
- Vamos fazer este rio ficar mais largo. E fez o rio alargar
tanto que a outra margem sumiu. Depois cortou folha de bananeira
brava e pôs em cima do irmão, aquele que tinha ficado na boca
do peixe. Ele estava morto. O mais velho cortou as pernas
e os braços do irmão e soprou no sangue que saiu. Na mesma
hora o irmão viveu de novo. Voltando a viver, ele não conheceu
mais nada. Nem dos irmãos se lembrava. O mais velho teve de
ensinar tudo de novo. No fim, disse ao irmão que ele tinha
sido engolido pelo peixe grande, acrescentando: - Você foi
engolido por peixe, porque você não é filho de verdade do
nosso pai. A mãe, quando estava com ele na barriga, juntou-se
com bicho. Nasceu misturado por isso. Os meninos voltaram
para casa. A mãe pensava que o peixe tinha comido os filhos
de uma vez e estava chorando. Sinaá dizia: - É bom que tenha
comido mesmo. Por que eles foram quebrar a caixa dágua? eu
estava dizendo para não ir. Quando os irmãos chegaram em casa,
o mais velho mandou o mais novo dizer ao pai que o peixe não
tinha comido ele não. Ele foi e falou assim: - Quebramos a
caixa e ficou bom agora. Tem bastante água para a gente beber.
Sinaá tinha visto o jaburu no sonho, e disse para os filhos:
- Tem jaburu por aí. Cuidado com ele. - Onde está ele? - Está
por aí mesmo, mas cuidado porque é muito perigoso. Os meninos
saíram procurando e encontraram o jaburu. Estava pescando
numa água rasa. O mais velho mandou o mais novo pegar o bico
do jaburu, alertando: - Toma cuidado que ele é perigoso. O
menino foi. Quando estava perto do jaburu, saltou na água
e virou peixe. ao passar perto dele, foi engolido. O bico
do jaburu ficou sujo de sangue. O mais velho, depois de pensar
um pouco como ia fazer para reaver o irmão, transformou-se
em marimbondo e foi sentar no bico do jaburu para colher um
pouco de sangue. Feito isso, num lugar afastado soprou no
sangue, formando de novo o irmão. E falou quando este ressurgiu:
- Por que você fez desse jeito? É por isso que o nosso pai
não gosta de você. Você não é filho dele. É ficho de bicho.
- Vá você então quebrar o bico do jaburu - falou o mais moço.
Tal e qual o primeiro, o mais velho pulou na água e virou
peixe. Nadou até perto do jaburu se oferecendo a ele. Quando
o jaburu deu a bicada, ele saiu de baixo e, já de novo em
forma de gente, o agarrou e quebrou-lhe o bico. Em seguida
os meninos voltaram para casa e entregaram o bico do jaburu
para o pai, dizendo: - Você disse que era perigoso, mas não
era, não. Sinaá pesou o bico, guardou-o e falou para os filhos:
- Tem coisa mais perigosa por aí que pode cortar vocês no
meio. Não procurem não. - Onde mora esse bicho? - perguntaram
os meninos. Sinaá não quis dizer. O mais velho comentou com
os irmãos: - Eu vou ficar sabendo. Nosso pai pensa que nós
não somos filhos dele. Falou isso e foi dormir, e viu no sonho
onde o bicho morava. No outro dia foram lá. O bicho perigoso
estava varrendo a casa e quando viu os meninos chegando perguntou:
- De onde vocês vêm? Perguntou e continuou varrendo. Depois
que terminou de limpar a casa, mostrou o pé pedindo aos meninos
para tirar as suas pulgas: "Tenho muita pulga no pé. Venham
tirar para mim". O pé dele tinha forma de cavadeira. Na hora
em que o mais novo dos irmãos ia chegando perto para atender
ao pedido, alertou o mais velho: - Toma cuidado que ele vai
cortar você. Quando o menino, para tirar as pulgas, encostou
o pé do bicho na barrida, este deu um coice e cortou-o ao
meio. Ficou dividido em duas metades. Aí o irmão mais velho
virou marimbondo. Colheu um pouco de sangue e, soprando nele,
reconstituiu o irmão. E disse em seguida: - Agora eu é que
vou quebrar a perna desse bicho - Cuidado, ele vai cortar
você também - disse o irmão do meio. O bicho estendeu outra
vez o pé, pedindo: - Tira as minhas pulgas. Quando esticou
a perna para dar o golpe, o menino agarrou duro nela e quebrou-a.
Isso feito, voltaram para casa. Lá entregaram a perna ao pai.
Disse-lhe o mais novo dos três: - Você falou que o bicho ia-nos
cortar mas não cortou, não. Sinaá, depois de guardar a perna,
falou aos filhos: - Índios bravos estão andando por aí. Vocês
tomem cuidado, senão eles podem matar vocês. É melhor não
ir procurar. O irmão mais velho pediu ao mais novo que fosse
dormir para ver se sonhava com os índios e ficava sabendo
onde eles estavam. O menino dormiu mas não sonhou nada. Depois
o mais velho dormiu e viu onde eles estavam. No outro dia
saíram e encontraram os índios pescando com anzol. Primeiro
o mais novo foi ver se conseguia tomar o anzol dos pescadores:
- Muito cuidado, senão eles te fisgam, puxam você para fora
e matam - disso o outro. O menino foi, saltou na água e virou
peixe pirarara. Nadou até o lugar onde os índios estavam jogando
a linha. Quando abocanhou a isca, foi fisgado. Como, na hora,
não voltou a ser gente para cortar a linha, foi puxado para
fora e morto a paulada. Vendo isso, o mais velho falou: -
Mataram o nosso irmão outra vez. Por isso é que eu não queria
que ele fosse cortar a linha. O menino com forma de peixe
foi cortado em pedaços, assado e comido.Só o sangue dele ficou
no chão. O mais velho virou marimbondo, apanhou um pouco do
sangue e soprou até o irmão se refazer de novo. Disse depois
para os outros: - Vocês esperem aí que eu vou tomar o anzol
deles. Saltou na água, virou piranha e foi. Quando estava
sendo puxado cortou a linha e ficou com o anzol.De volta para
casa, pediu ao mais moço que fosse mostrar o anzol para o
pai. Ele foi e disse na hora que entregou: - Você disse que
os índios iam nos matar, mas não mataram, não. * * * No princípio
não havia noite. Era sempre dia. Só onde Sinaá dormia era
escuro.Era um lugar fechado que só ele saiba onde ficava.
Só ele ia dormir lá. Um dia os filhos viram o pai sair com
a rede e perguntaram: =- Aonde você vai? - Lá tem noite para
mim - respondeu o velho. - Onde é? Sinaá não contou. Ele não
contava para ninguém. O filho mais novo foi dormir para sonhar
com o lugar mas não sonhou. O mais velho dormiu e viu o lugar
no sonho. Acordando, disse para os outros. - Eu vi a noite.
Está lá. Vamos procurar para ter noite também. Nós não dormimos.
É sempre dia pra nós. Saíram os três na direção da noite do
pai. Encontraram. O lugar era muito escuro. - Vamos armar
as redes e dormir - falou um deles. E assim fizeram. Armaram
as redes e dormiram um pouco. Depois, foram ter com o pai,
a quem disseram: - Nós sabemos onde está a noite. Dormimos
lá. - Cuidado quando abrir a porta - disse sinaá - senão vai
ficar tudo escuro. - Nós vamos abrir mesmo, porque a noite
é boa. - Não abram, senão vai ficar tudo escuro - voltou a
dizer Sinaá. Os meninos foram e arrombaram a casa; e a noite
escureceu tudo. Sinaá, lá na casa dele, lamentou: - Eles romperam
a casa da noite. Vão-se perder todos. Na escuridão o filho
mais novo de Sinaá se perdeu. Não sabia mais onde era o caminho
e gritava: - Onde é o caminho?! - É aqui - respondeu o mais
velho. Voltaram para junto do pai e disseram: - Quebramos
a casa. Está bom agora para dormir. Dormir de dia não presta.
- Está bem. Vamos deixar assim mesmo - falou Sinaá. * * *
Um dia os filhos de Sinaá viram a costa dele toda comida.
O mais novo perguntou: - O que comeu você? - Mosquito. - Onde
tem mosquito? - Tem por aí. O menino foi contar para os irmãos:
- Mosquito comeu as costas do nosso pai. - Vá perguntar para
ele onde tem mosquito - pediu o irmão do meio. - Já perguntei,
mas ele não conta. - Eu sei onde tem. Vi no sonho - disse
o mais velho dos três. Conversaram e foram falar com o pai.
- Nós gostamos de mosquito e queremos quebrar a casa deles.
Já vimos onde é. - Não , mosquito não é bom, não. Não quebrem
a casa deles. É muito ruim. Os meninos, depois de conversar
com o pai, saíram escondidos para arrombar a casa dos mosquitos.
Eram três casas. A porta era só um buraquinho. chegando lá,
cada um arrombou a sua. Sinaá, que nessa hora estava sentado
fora da casa dele, começou a sentir mosquito nas costas e
entrou para dentro já sabendo que os filhos tinham feito o
que estavam querendo. O filho mais novo, lá onde estava, foi
todo comido pelos mosquitos, nos olhos, no nariz, em toda
a parte do corpo. Os outros não foram mordidos. Vendo o irmão
como estava, disseram a ele: - Você não é mesmo filho do nosso
pai. é por isso que os mosquitos gostam de comer você. De
volta para casa, os meninos começaram a brincar de flechar
folhas de árvores. As folhas que caíam viravam passarinho.
Na mesma hora os passarinhos eram abatidos, assados e comidos.
Todos flechavam, mas não caía nenhuma folha flechada pelo
mais novo. Só caíam as que eram flechadas pelos outros. Sinaá
não ensinava todas as coisas para os filhos porque pensava
que não eram seus filhos de verdade. Achava que tinham mistura
de outro. Julgava assim porque tinha visto a mulher andar
com bicho. Um dia, zangado, Sinaá fez a mulher ir sozinha
à roça, para índio bravo matar e comer ela. Ele sabia que
havia índio por lá. A mulher foi e os índios mataram e comeram
ela. Só Sinaá sabia como a mulher tinha desaparecido. Os filhos
não sabiam de nada. Pensavam que tinha sido onça ou outro
bicho qualquer que havia matado a mãe. Um dia eles foram caçar
e o mais novo flechou um jacu. O jacu quando caiu falou: -
Por que você quer me matar? Não fui eu que matei e comi sua
mãe. Foi índio quem fez isso. O menino, assustado, correu
a contar para os irmãos o que o jacu tinha dito. Na mesma
hora voltaram para casa par saber do pai onde encontrar os
índios. Perguntaram: - Onde estão os índios bravos que mataram
e comeram nossa mãe? - Estão por aí em qualquer lugar. Mas
vocês tenham cuidado com eles, são muito perigosos e podem
matar você - respondeu Sinaá. Deixando o pai, o mais novo
dos três dormiu para sonhar com os índios e saber o seu paradeiro.
Dormiu muito mas não sonhou nada. Depois o mais velho dormiu
e sonhou com os índios, e viu onde estavam. Aí, foram falar
com o pai dizendo que já sabiam onde estavam os índios que
tinham matado a mãe. No outro dia passaram tinta cheirosa
no corpo, para não serem mortos, e foram ao encontro dos índios.
chegaram ao lugar onde estes estavam acampados, e viram que
eles não tinham ânus. Tudo que comiam era vomitado depois.
O mais moço dos irmãos defecou para que os índios vissem,
dizendo que era melhor assim do que pôr fezes pela boca. em
seguida, o mais velho perguntou aos índios se eles queriam
que fizessem neles uma saída igual à que eles tinham. Os índios
quiseram. Os meninos, então, começaram a abrir o traseiro
deles. Foi o mais moço que começou a fazer o serviço, mas,
como estava cortando pouco, o mais velho tomou o seu lugar
e começou a golpear com força e a enfiar, sem que os índios
vissem, um pau aguçado em cada um. ele cortava e enfiava o
chuço em seguida. Os índios, todos de costas para ele, iam
morrendo um atrás do outro. Quando viram que os índios perceberam
o que eles estavam fazendo, os meninos correram levando com
eles três crianças. depois que saíram do alcance dos índios,
assaram as crianças, comeram um pouco da carne delas e levaram
o resto para a avô, a onça. Chegando em casa deram a ela o
cesto de carne. A onça engoliu tudo na hora. Mas a carne que
restava com os meninos, não acabava nunca. Crescia á medida
que ia sendo comida. Quando acabava a carne colocada no jirau
para a onça, eles tiravam mais da panela que estava sempre
cheia. A carne era comida com a farinha que a mulher de Sinaá
fazia, a mandado dele. Com tudo o que os meninos estavam fazendo
Sinaá ainda desconfiava de que fossem seus filhos mesmo. Dizendo
que não havia pedra para fogão, mandou que os três sentassem
no chão para servir de suporte da torradeira de farinha. Sinaá
pensava: "Se não são meus filhos, vão se queimar". quando
a torradeira foi tirada de cima dos meninos, eles se levantaram
com a cor do fogo. O mais moço quase se queimou de uma vez.
Sinaá mandou que fossem para a água. Ao mergulhar no rio chiaram
como se fossem brasas lançadas na água. Sinaá ficou alegre.
Os meninos receberam nome: o mais velho Dubata, o do meio
Panharima, o mais novo Urubiatá. Sinaá deu rede aos filhos
e nunca mais zangou com eles. Ensinou-lhes muitas coisas e
disse contente: - Vocês são meus filhos mesmo. Bicho bravo
nada poderá fazer contra vocês, porque são meus filhos de
verdade. * * * Sinaá não tinha canoa. Só ariranha é que tinha.
Ariranha era igual a gente. Sinaá pediu canoa a ela mas ela
não quis dar, dizendo assim: - Você é pajé grande, por que
não faz canoa você mesmo? tem muito pau por aí. Sinaá então
pediu à ariranha que ensinasse a fazer canoa mas nem isso
a ariranha quis. Sinaá, nada conseguindo, cortou pau seco
e começou a rodar o rio com o seu pessoal. A ariranha ia na
frente, de canoa, descendo o rio também. Quando o sol estava
alto, a ariranha parou para comer peixe. Ela assava o peixe
com o fogo do gavião. Sinaá parou também para comer peixe.
Comia cru, porque não tinha fogo. Pediu fogo para a ariranha
mas ela não deu, sempre repetindo que Sinaá era pajé grande
e devia saber fazer tudo. As crianças todas do pessoal de
Sinaá viviam com dor de barriga, por causa do peixe cru que
comiam. Os filhos de Sinaá também estavam sempre evacuando,
passando mal. Sinaá pensou consigo mesmo: "Sou pajé grande
mas não sei fazer fogo nem canoa". Zangado com isso, disse
para os seus: - Agora vou tomar a canoa da ariranha. Estou
pedindo, pedindo, e ela não quer dar. Agora eu tomo. No outro
acampamento que a ariranha fez, Sinaá tornou a pedir o remo
dela e ela novamente negou. sinaá insistiu, dizendo que era
só para ver. No mesmo instante pegou o remo e bateu com ele
no trazeiro da ariranha. A ariranha ao cair na água começou
a pegar piranha com os dentes e virou bicho. O remo que ela
tinha passou agora a ser o seu rabo. Lá no meio da água falou
para Sinaá: - Por que você fez assim com a gente? - Eu pedi
canoa, remo, fogo e você não quis dar. Agora você vai ficar
sempre assim, como bicho mesmo. - Eu não dei o fogo mesmo,
vá você pegar. Mas o gavião já tinha voado levando as suas
pedras de fogo. Sinaá ficou só com a canoa e o remo da ariranha.
A ariranha ainda por perto pediu a sinaá: - Faça com que bicho
não nos coma nem nos ataque. É por isso que a ariranha não
é atacada por peixe nenhum, nem por outro bicho qualquer.
Sinaá, de posse da canoa e do remo, saiu para ver se conseguia
fogo do gavião. Transformou-se em anta morta e ficou esperando.
Primeiro foi visto pelo urubu, que avisou os outros. Sinaá,
assim com a forma de anta, ficou com um dos braços levantado.
O gavião veio e colocou nele o embornal onde guardava o seu
fogo. Mas, vendo os olhos da anta se mexer, voou logo em seguida,
dizendo que aquilo era mentira, não era anta não. Sinaá, então,
mergulhou o braço na terra, apontando-o mais adiante um pouco,
na forma de pau seco. Passando um pouco o gavião voltou. Depois
de quebrar uma pontinha do galho seco (um dos dedos de Sinaá),
pendurou nele o embornal. Sinaá, no mesmo instante, levantou
com o embornal já na mão. Antes o gavião, a pedido do urubu,
tinha acendido fogo com a sua pedra, para assar a anta. Quando
viu Sinaá apoderar-se do seu embornal, assim falou: - Você
é pajé grande e não sabe fazer fogo, não tem fogo, não tem
nada. - Agora eu tenho, porque vou ficar com o seu - retrucou
Sinaá, acrescentando: - Eu sou gente e você é bicho. Sinaá
falou e assoprou no gavião, fazendo com que ele ficasse bicho
só, gavião mesmo. O gavião chorou porque perdeu o fogo. E
esse lamento ficou sendo o seu canto; pinhéé, ele grita até
hoje quando sobrevoa queimadas. Antes de se afastar de uma
vez o gavião que perdeu o fogo, pediu a sinaá que deixasse
sempre, nos jiraus do terreiro, peixe assado e outras carnes
para ele. Até hoje os Juruna quando caçam ou pescam deixam
o resto dessas coisas para o gavião comer. * * * Há muito
tempo, Sinaá e o seu pessoal não conheciam mandioca e outras
plantas. Só comiam farinha feita de raspa de pau. Comiam sucuri
também. Era uma sucuri muito grande que vivia debaixo da terra.
Sinaá mandava cavar no lugar até descobrir a cobra, que era
tirada para fora, morta e depois comida. Uma vez os Juruna
desenterraram uma dessas cobras e sentaram em cima dela para
descansar. Quando quiseram levantar não puderam, estavam grudados.
A sucuri com o pessoal preso em cima dela saiu assastando-se
e entrou no rio. Lá no fundo da água engoliu todos. Os que
ficaram de fora estranharam, não sabiam por que a sucuri se
tornara brava. Antes, era mansa. Todos os dias os Juruna iam
ver se a sucuri já tinha voltado para o seu lugar no pé da
serra. Passado algum tempo, ela saiu da água e voltou para
a sua morada no seco. O pessoal, então, resolveu queimá-la.
Fez primeiro uma grande roçada ao redor dela. A sucuri ficou
no meio da derrubada. Quando a roça secou bem Sinaá mandou
tocar fogo. A sucuri ficou pulando no meio da queimada até
acabar de uma vez. Aí, começou a chover. O pessoal de sinaá,
sem o seu alimento que era sucuri, só comia jabuti e farinha
de casca de pau. Da sucuri que foi queimada começaram a nascer
todas as espécies de plantas: mandioca, batata, cará, milho,
abóbora, pimenta, tudo estava nascendo das cinzas da sucuri.
Depois que estava tudo nascido e crescido um pouco, as chuvas
pararam. O pessoal foi ver e ficou admirado de ter brotado
tudo aquilo da cobra queimada. O pessoal só olhava, mas não
conhecia nada, não sabia se aquelas plantas serviam para alguma
coisa. Às vezes os que iam ver a roça comiam um pouco de milho
cru, ou provavam pimenta. Sinaá, um dia, foi ver também. Um
passarinho apareceu e perguntou: - O que é que você está olhando?
Isso tudo é comida, é bom para comer. O passarinho falou e
começou a mostrar as plantas uma por uma: - Esta é milho -
é bom assado; esta é mamão - pode comer quando estiver maduro,
bem amarelo; esta é mandioca - serve pra farinha, mingau e
bebida; esta é pimenta - boa com peixe; esta é batata - assada
ou cozida é boa pra comer; esta é cana - é para ser chupada,
é muito doce. O pessoal não sabia e estava assando cana. Não
sabia que era para ser chupada. O passarinho falou sobre as
outras plantas: - Esta é banana - quando estiver ficando amarela
e esse pendão secar, pode tirar o cacho e cortar o pé também,
para nascer outro novo; esta é cará - pode comer cozido, assado
ou fazer bebida. O passarinho, depois de ensinar sobre todas
as plantas que nasceram das cinzas da sucuri, disse que era
preciso fazer novas roças todo fim das chuvas. Ensinou também
como plantar de novo tudo aquilo que tinha nascido. Tudo ele
ensinou a Sinaá e ao pessoal dele. Depois voou e foi embora.
Os juruna até hoje não enxotam esse passarinho quando ele
vai comer mamão e outras coisas nas suas roças, porque foi
ele que ensinou a plantar e colher. Os Juruna tinham tudo
quando as águas começaram a crescer com as chuvas. Sinaá avisou
logo a sua gente que a água dos rios ia tomar e cobrir as
matas, os campos e os morros. dizia ele: - A chuva não vai
parar até que tudo esteja cheio, coberto pelas águas. Precisamos
fazer uma canoa grande pra plantar dentro dela. Sinaá fez
a canoa. Uma canoa grande, que cabia muita gente. Na metade
da frente ele pôs terra e plantou mandioca, milho, batata,
todas as outras coisas. As águas cresciam cada vez mais. Os
rios transbordavam e cobriam as matas. Só a parte alta das
serras ficou de fora. Era tudo água. As antas, os porcos,
todos os bichos nadavam de um lado para outro, sem encontrar
terra para pisar, e acabavam, se afogando. As aves cruzavam
o céu em todas as direções, procurando onde pousar e não encontravam.
sinaá, com parte do seu pessoal embarcado na canoa, navegava
ora numa direção, ora noutra. Outros foram para o alto das
serras. Sinaá, com o produto da roça flutuante que se renovava
cada dia, ia de serra em serra distribuindo alimento para
a sua gente. Os que foram para longe, além das serras próximas,
se perderam, viraram gente brava. Sinaá estava sempre recomendando:
- Não se afastem. Fiquem perto. Quem for para longe vai se
perder. Quando as chuvas começaram a diminuir, sinaá procurou
alcançar e reunir os que se estavam espalhando, mas não conseguiu.
Perderam-se. Os que não acreditavam no que ele dizia, iam
descendo noutras direções e se desgarrando. Cessada duma vez
a chuva, Sinaá falou: - Agora vai secar mas ninguém se afaste.
Fiquem juntos de mim. Quem sair para procurar terra vai se
perder. As águas desciam cada dia e Sinaá, no seu barco, descia
com elas, orientando-se no rumo do vale principal. Ele sabia
onde estava o rio. A todo momento o pessoal perguntava: -
Onde está o rio? - Está longe ainda. E as águas continuavam
descendo, e Sinaá sempre se orientando na direção do rio.
- Está longe ainda? -Não. Agora está perto. Mais um pouco
e nós chegamos. De copa em copa de árvore, o barco ia chegando
cada vez mais perto do rio, até que chegou. - Chegamos. É
este o nosso rio - disse Sinaá. Os outros continuavam na serra.
Quando viram que estava tudo seco começaram a descer no rumo
do vale. Não desceram todos de uma vez. Parte ficou na serra.
As mulheres dos que saíram na frente, quando tinham filhos,
deixavam no caminho, sobre folhas de banana, os restos dos
seus partos. Os que vinham vindo atrás, pensando que aquilo
eram vísceras de caça, iam comendo o que encontravam. Ao chegarem
à beira do rio, em levas, uma atrás da outra, diziam aos que
já estavam lá: - Nós vínhamos com fome e comemos as barrigadas
que vocês deixaram no caminho para nós. Quando ficavam sabendo
o que tinha comido, zangavam-se e resolviam voltar. Não queriam
ficar na companhia dos outros. Sinaá, contrariado, deixava
que fossem embora, dizendo que podiam entrar para o mato e
virar gente brava. Na hora da separação Sinaá dava, a cada
grupo que partia, uma língua diferente e um pedaço de cordão
que ele ia cortando e entregando. Sinaá desceu o rio com o
pessoal que ficou com ele. Depois de viajar muitos dias, parou
e levantou aldeia. O pessoal aumentou muito. Ficou numeroso
outra vez. Os Juruna nesse tempo comiam carne de gente. Matavam
outro índio e comiam. Um dia sinaá pediu a sua neta que fosse
buscar carne noutra casa. Era carne de gente que estava sendo
assada. A menina foi mas o dono da casa não quis dar. Sinaá
mandou a neta pedir de novo: - Vá pedir outra vez que ele
dá agora. A menina tornou a ir e lá na casa do outro foi agarrada
e possuída. Voltou chorando para casa. Sinaá não perguntou
nada porque já sabia o que tinha acontecido. Sinaá ficou muito
contrariado e disse para o seu pessoal que ia embora. - Não
podemos mais ficar aqui. Vamos embora pra outro lugar. Os
outros, quando viram Sinaá se aprontando para sair, disseram
entre si: "Vamos matar o nosso Chefe. ele está bravo e não
quer ficar aqui". Quando sinaá começou a descer o rio, o pessoal
saiu atrás dele jogando flecha, mas as flechas não entravam
no seu corpo nem no dos filhos. Sinaá tinha fechado o corpo
de todos contra flecha. As flechas batiam e caíam. Não furavam,.
Mais embaixo, os filhos dizendo que estavam sentindo muita
dor, pediram ao pai que fizesse o pessoal voltar. sinaá, então,
começou a produzir grandes estrondos batendo com os braços
nos lados do corpo. Os perseguidores tiveram medo e voltaram.
Sinaá continuou descendo. Muito longe ele parou, abriu roça,
levantou casa e ficou morando. Passado algum tempo, os Juruna
desceram atrás dele. Não foram para brigar.De Sinaá quiseram
saber por que as flechas jogadas contra ele não tinham entrado
no seu corpo, nem no dos filhos. Depois de se certificarem
disso, pediram a Sinaá para deixar duro também seus corpos.
Sinaá explicou que, para isso, era preciso abster-se de relação
com mulher. No dia seguinte a essa recomendação, Sinaá, depois
de tomar outras medidas, flechou os Juruna no peito. Um, apenas,
morreu, porque não tinha dado crédito ao aviso de siná. Ao
morrer, petrificou-se e está até hoje lá onde foi flechado.
Sinaá mais tarde tornou a mudar de lugar. Desceu o rio e levantou
outra aldeia. Os juruna que tinham ficado com o corpo duro
para flecha desceram com ele. Tempos depois, aqueles que ficaram
saíram novamente à procura de sinaá. Reunidos viveram longo
tempo, até que Sinaá se deslocou outra vez rio abaixo, apenas
com o seu grupo. Não demorou muito o resto da sua gente foi
ter com ele. Novamente viveram todos eles juntos numa aldeia
só. Mais uma vez Sinaá se desloca com o seu grupo para outro
lugar. Agora para muito longe - junto da água grande. Lá,
transcorrido algum tempo, vão ter mais tarde todos os Juruna,
toda a gente de Sinaá. Sinaá presenteou a todos com colares,
e tudo o mais que eles queriam.Depois de curta permanência
junto dele, metade dos Juruna regressou. a outra metade permaneceu
com Sinaá. De todos os homens que ficaram, Sinaá aparou os
cabelos e com isso todos eles se transforamram em outra gente,
falando outra língua. Estes aumentaram muito em número e se
transformaram nos caraíbas de hoje. Um dia, muito tempo depois,
os Juruna apareceram na aldeia de sinaá à procura de presente.
Pediram o que queriam, porém ninguém mais entendia a sua língua.
Não conseguindo fazer-se compreender, os Juruna regressaram.
No caminho de volta passaram por um outro lugar menor, ocupado
também pela mesma gente na qual os Juruna haviam-se transformado.
Os Juruna aportaram suas canoas e pediram utilidades que desejavam:
faca, facão, machado e outras coisas, mas não foram entendidos.
Contrariados com isso, afastaram suas canoas para o largo
e lançaram flechas contra os moradores do lugar. Estes responderam
ao ataque jogando dardos por meio de uma outra coisa que não
era arco. Dai em diante os Juruna começaram a atacar e tomar
à força o que queriam e precisavam. EPILOGO Sinaá continua
morando lá em baixo para onde foi. Há muito tempo um Juruna
esteve com ele. Sinaá estava casado com uma aranha muito grande
que fazia vestidos. Sinaá estava velhinho, todo branco, mas
remoçava toda vez que ia tomar banho, desensacando-se da pele
pela cabeça. Depois de perguntar como estava a sua gente,
levou a visita até ao alto de uma pedra grande, de onde enxergava
em baixo os Juruna pescando nas suas canoas. Sinaá, por fim,
mostrou ao Juruna visitante uma enorme forquilha que sustentava
o céu, e disse: - No dia em que nossa gente acabar de uma
vez, eu vou tirar esta escora daqui, e o céu vai desabar,
e todas as gentes vão desaparecer. Vai acabar tudo.
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