domingo, 16 de março de 2008, 08:32 | Online
Dalai Lama denuncia 'genocídio cultural' chinês no Tibete
Líder do Tibet disse durante entrevista coletiva que a China 'tem armas mas não controla mente humana'
Da BBC Brasil - BBC

O governo afirma que 10 pessoas morreram durante os protestos que ocorreram na sexta-feira contra os mais de 50 anos de domínio chinês no Tibete - boatos de que este número seria até dez vezes maior são difíceis de confirmar, disse o correspondente da BBC em Pequim Dan Griffiths.
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No sábado, o governo da região autônoma do Tibete estabeleceu um prazo até a meia-noite da segunda-feira, 17, para que os envolvidos nas manifestações da sexta-feira se entreguem.
Em uma entrevista à BBC, o lama - palavra tibetana que designa o mestre ou líder espiritual - disse ter sentido "o mesmo espírito de 1959", quando o último grande levante tibetano contra a ocupação chinesa acabou obrigando-o a se exilar no exterior.
"(A situação) se tornou muito, muito tensa. O lado tibetano está determinado. O lado chinês está igualmente determinado. Isso significa: mortes e mais sofrimento", declarou ele.
"O governo chinês não está vendo a realidade. Eles acham que só porque têm armas têm o controle. Sim, podem controlar. Mas não podem controlar a mente humana. Quanto mais repressão, mais ocupação militar e mais repressão militar, mais ressentimento."
As declarações foram feitas em Dharamsala, no norte da Índia, onde o guru vive desde 1959. Mais tarde, ele falou a um grupo de jornalistas e pediu uma investigação para "descobrir o que está acontecendo" na região do Tibet.
"Por favor, investiguem por sua conta, ou se possível com alguma organização internacional, primeiro, qual é a situação no Tibet, e quais são os prejuízos", pediu ele aos repórteres.
"Que o governo chinês admita ou não, este é o problema. O problema é que uma nação com um patrimônio cultural antigo está enfrentando sérios perigos."
Amigos e inimigos
Neste domingo, a capital do Tibet, Lhasa, amanheceu tranqüila, com soldados chineses patrulhando as ruas da cidade e do centro velho.
Nesta madrugada, os soldados que fizeram vigília nas ruas da capital e forçaram um toque de recolher da população.
Uma emissora de TV de Hong Kong afirmou que cerca de 200 veículos militares, cada um carregando 60 soldados armados, estão na cidade.
A BBC apurou que tropas da província vizinha de Chengdu tiveram as férias canceladas e estão aquarteladas.
"Diferencie entre inimigos e amigos, mantenha a ordem", diz uma mensagem emitida em altos-falantes públicos na cidade.
O número de mortos nos episódios violentos da sexta-feira e sábado em Lhasa ainda permanece envolto em incertezas.
O governo da região autônoma, que tem o apoio de Pequim, reconhece dez mortos, mas o próprio Dalai Lama disse ter recebido informações de que o número é dez vezes maior.
Jovens radicais
O governo deu aos manifestantes um prazo até a meia-noite da segunda-feira para se renderem.
As autoridades tibetanas prometeram poupar aqueles que se arrependerem - e responder "com força" aos que insistirem no que qualificam de "atos criminosos".
Mas o Dalai Lama disse não poder garantir que os manifestantes voltem atrás, mesmo que ele faça apelos pelo fim da violência.
"Não sei (se os manifestantes estão dispostos a se render)", disse ele à BBC. Segundo o lama, as gerações mais jovens, tanto no Tibet quanto no exílio, estão mais ressentidas e menos tolerantes em relação à China que gerações anteriores.
Na sexta-feira, os manifestantes perseguiram chineses que vivem na cidade, acenderam fogueiras para incendiar seus pertences, realizaram saques e queimaram lojas.
De outro lado, a polícia teria utilizado bombas de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes que desafiaram o toque de recolher imposto pelo governo chinês.
"Não estamos querendo independência ou secessão", disse o Dalai Lama. "Estou totalmente comprometido com a estabilidade, unidade. Isto é essencial. Mas a estabilidade e a unidade devem vir do coração."
O líder espiritual tibetano enfatizou que ainda apóia a realização das Olimpíadas em Pequim, em agosto.
Em sua opinião, é a oportunidade para os chineses demonstrarem alinhamento aos princípios da democracia e da liberdade de expressão.
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