09.04.2014 - 07:00

Carona vira opção a trânsito caótico

Transporte público fraco ajuda a gerar o caos. Quem usa a carona, diz que comodidade e economia valem a pena

Karina Craveiro/Rafaela Borges
Mariana (ao volante), leva três colegas que moram no mesmo bairro na zona oeste de SP - W. Santana/F. Rau/N. Fukuda/R. Arbex/Estadão
W. Santana/F. Rau/N. Fukuda/R. Arbex/Estadão
Mariana (ao volante), leva três colegas que moram no mesmo bairro na zona oeste de SP

A precária segurança pública e o transporte coletivo ineficiente são determinantes para uma cena muito comum do trânsito paulistano: a maioria dos carros é ocupada por apenas uma pessoa. Some-se a isso o aumento da produção e oferta de novos veículos aliados à alta de renda da população e o resultado é o tráfego cada vez mais caótico.

Uma boa solução é a carona solidária. Os que utilizam essa forma de transporte logo descobrem que se trata também de uma maneira de gastar menos (veja na pág. 14). “O paulistano é individualista. Além disso, a falta de segurança acaba fazendo com que as pessoas tenham medo de dar carona”, diz o engenheiro e especialista em trânsito da Universidade Mackenzie, Luiz Vicente de Mello. 

Outro complicador é que São Paulo é o principal mercado da indústria automobilística nacional, que cresceu 114,5% entre 2004 e 2013. Enquanto a média nacional de carros por habitante é de 5,2, na capital a relação é de 1,54. O número só é inferior aos registrados no Canadá e EUA, de acordo com dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e Anfavea, a associação das fabricantes. 

Ao considerar a taxa de ocupação por veículo, a relação é de 1,38. Ou seja. cada carro transporta menos de duas pessoas por viagem.Outra opção para driblar o trânsito das grandes cidades é o uso de bicicletas (leia mais na página 15).

SOLUÇÃO EMERGENCIAL

Enquanto a expansão das linhas do metrô caminha a passos de tartaruga (veja ao lado), a prefeitura da capital investe na ampliação dos corredores de ônibus para incentivar a troca do transporte individual pelo coletivo. “Essa migração não ocorreu, pois o cidadão não viu vantagem em transporte sem flexibilidade de horário e confiabilidade”, afirma Mello. 

Quem já utilizava ônibus está gastando menos tempo para se locomover – a redução foi de, em média, 38 minutos por dia, segundo a CET. No entanto, ninguém deixou de usar o carro em prol do ônibus.

Mello diz que os corredores foram mal planejados. “O número de ônibus é incompatível com a demanda e seria preciso fazer a integração entre as faixas para evitar filas nos horários de pico. Isso não existe.”

CARONA SE TORNA OPÇÃO VIÁVEL

Pegar e dar carona é uma prática pouco comum na cidade de São Paulo. Mas as poucas pessoas que optam por compartilhar o veículo estão satisfeitas, pois economizam dinheiro e contribuem para tirar carros da rua e, consequentemente, reduzir os índices de lentidão e emissões. 

É o caso da engenheira Mariana Borin da Silva, que dá carona a três colegas que, como ela, moram na capital e trabalham na mesma empresa na grande São Paulo. Com o também engenheiro André Figueiredo, a administradora Isadora Coutinho e a analista Elza Okubo, Mariana divide, há seis meses, as despesas com combustível, pedágio e estacionamento de seu VW Fox. 

Antes disso, o quarteto utilizava o ônibus fretado pela empresa. No retorno para casa, todos desciam no mesmo ponto. “Convidei-os a irem de carro. Reduzi despesas e viajo em segurança, com pessoas de diferentes áreas da empresa, com quem antes, provavelmente, eu não teria contato”, diz ela.

Mariana conta que, ao ir de carro, economiza pelo menos uma hora de seu dia – em comparação ao tempo em que usava o ônibus. E as despesas mensais de cada um caíram de R$ 175 para R$ 125. “A parte ruim foi quando a Mariana entrou de férias. Tive de arrumar outro jeito de ir ao trabalho e vi o quanto a carona faz falta”, conta Figueiredo.

A gerente de marketing Elaine Bassaco já havia tentado criar um esquema de carona com um colega em um emprego anterior, mas o plano não deu certo por causa da divergência de horários entre eles.

Há um ano, convidou o designer Bruno Martins, que trabalha na mesma empresa, para dividir o carro. Ele topou.

Os dois compartilham os custos com combustível e Martins estaciona seu carro na vaga destinada a Elaine. “Da carona, nasceu uma amizade. Éramos colegas de departamento e tínhamos uma relação meramente hierárquica”, conta ela.

“Eu saí no lucro geral”, afirma Elaine. “Sei que é difícil e nem acreditava muito que o esquema da carona fosse dar certo. Mas, felizmente, deu.” 

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SÓ UMA EMPRESA OFERECE CARRO COMPARTILHADO

O compartilhamento de carros ou aluguel por hora ou diária é uma saída interessante para quem não quer ter despesas fixas com combustível, seguro e IPVA, mas prefere carro particular ao transporte coletivo. Em São Paulo, apenas uma empresa tem o serviço, conhecido como “car sharing”.

A Zazcartem frota em 45 locais na capital. Os carros estão disponíveis 24 horas – a hora parte de R$ 6,90 e a diária, de R$ 69,90. O cadastro é feito por meio de um site. 

Esse tipo de serviço é comum no exterior. Dona da Mercedes-Benz, a Daimler criou o programa Car2G, que oferece, desde 2008, o compartilhamento de Smart elétricos em países como EUA, Canadá e Alemanha.

No ano passado, a Renault ingressou no segmento em conjunto com a Keymoov. Unidades dos elétricos Twizy e ZOE estão em testes em Paris.

A VEZ DAS BICICLETAS

Fugir do trânsito da capital, especialmente nos horários de pico, é um dos motivos que levam alguns paulistanos a usar a bicicleta como meio de transporte diariamente. É assim para o publicitário Ivan Casabon. Seu segundo veículo é uma “bike”. O primeiro é um Volkswagen TL, herança de família, que está parado na garagem.
 
“O gasto com um carro não vale a pena. Em quase todas as situações, é mais rápido de ‘bike’”, diz Casabon, que há três anos circula do trabalho para casa e vice-versa de bicicleta. 
O arquiteto Leonardo Maia não tem carro. E garante que não sente falta de um veículo motorizado. Mesmo percorrendo, de bicicleta, os quase 18 quilômetros que separam sua casa, no Ipiranga (zona sul), da USP (zona oeste), onde ele faz mestrado. “Tenho sentido um pouco mais de respeito dos motoristas para com os ciclistas. E percebi que os ciclistas estão mais conscientes quanto à divisão de espaço da rua”, afirma. 

Para incentivar o uso da bicicleta, a Prefeitura de São Paulo, em parceria com o banco Itaú e a empresa Serttel/Samba, criou o “Bike Sampa”. O programa, criado em maio de 2012 para oferecer aluguel de bicicletas em diversos pontos da cidade, tem 250 mil usuários cadastrados e mais de 700 mil viagens realizadas. Usar a “bike” por até uma hora é grátis. Acima disso, o custo é de R$ 5 por hora – o pagamento é feito por meio de cartão de crédito ou bilhete único. 

Segundo a superintendente de Relações Institucionais do Itaú Unibanco, Luciana Nicola, 70% das viagens são feitas em dias úteis, entre os horários de pico do trânsito, e têm duração média de 20 minutos. “Por isso, concluímos que essas bicicletas são usadas como meio de transporte, e não apenas para o lazer.” A expectativa é que o programa tenha 300 estações na cidade até o fim do ano (atualmente, há 143). Isso inclui os bairros da Mooca, Brás, Belém, Belenzinho e Água Rasa, todos na zona leste da cidade.

Outro projeto interessante – mas ainda embrionário – foi batizado de “Bike da Firma” e idealizado pela agência de publicidade Señores. 
A ideia é reunir e incentivar, por meio de prêmios, os funcionários da empresa a utilizarem bicicletas, que serão oferecidas em um sistema de compartilhamento. 
As bicicletas terão sensores que enviarão dados sobre a quilometragem rodada pelo usuário cadastrado a um aplicativo. Quanto mais se pedala, mais prêmios se ganha. 

INFRAESTRUTURA

Segundo dados da CET, há quase 139 quilômetros de vias para bicicletas na cidade de São Paulo, formados por ciclovias, ciclorrotas, calçadas compartilhadas, ciclofaixas definitivas e de lazer (nos fins de semana). 

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