Domingo, 3 de Agosto de 2008 | Online
Diário de bordo: Brasília
Na maquete de concreto onde gente de carne e osso teima em viver, um pouco do passado e do futuro
João Domingos
Sou estrangeiro em minha cidade. Moro em Brasília desde 1985 e, ao ir a campo para fazer o texto sobre a capital do País para a revista Megacidades, descobri que, mesmo depois de 23 anos aqui, pouco sei a respeito desta impressionante cidade, uma maquete de concreto onde gente de carne e osso teima em viver. Assim, dedicar alguns dias a descobrir coisas novas naquilo que parecia velho acabou por se transformar numa experiência fascinante.
Agora, ao tocar a reportagem, tive tempo de parar do lado direito, um pouco abaixo do Supremo Tribunal Federal (STF), e ver que o Bosque da Constituinte, plantado quando a Constituição foi promulgada, em 5 de outubro de 1988, não conseguiu, de fato, transformar-se num bosque. E que um pouco abaixo, uns 400 metros do Palácio do Planalto, ainda há uma construção de madeira, dos tempos em que Brasília era só obras.
Deu para ver também que uns dois quilômetros à esquerda, na Vila Planalto dos primeiros candangos, as casas de madeira que existiam foram substituídas pelo concreto. E que a classe média chegou, comprou, fixou-se no local e levantou suas mansões de cinco, seis ou mais quartos. Como os dos Lagos Norte e Sul, muitas vezes para ficar vazios, pois em Brasília as famílias de classe média costumam ser menores do que o número de aposentos da casa. É como se todos esperassem a chegada de um parente, que nunca chega.
Avançar para o lado das cidades-satélites é pegar trânsito congestionado por 15, 20, 30 quilômetros. É ver que a distância delas consome de duas a três horas por dia de cada cidadão que não tem o privilégio de morar no Plano Piloto. Ver o sol amanhecer nos Lagos Sul e Norte é ser testemunho da chegada de chusmas e chusmas de empregadas domésticas que descem dos ônibus oriundos de cidades goianas próximas. Algumas fumam rapidamente cigarros proibidos pelas patroas, outras voltam ainda com a roupa da festa da noite anterior.
E andar a pé pela Esplanada dos Ministérios com olhos de quem observa a paisagem - apesar da ameaça constante dos carros que passam, pois não há lugar para pedestres ali - dá a sensação de que é possível ver um pouco do passado e do futuro de nossa História. À esquerda de quem desce, o Teatro Nacional é uma pirâmide maia; à direita, o Museu da República é o planeta Saturno, com seus anéis. No centro, o presente ameaçado: o verde do gramado, com seus ipês e barrigudas em flor.

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