Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

Diário de bordo: Mumbai

Em meio à feiúra, o fascínio pela megafavela de Dharavi, que se recusa a fazer parte do progresso a qualquer custo

Eduardo Nunomura


Indianos costumam ser muito atenciosos com estrangeiros. Mas há dois tipos de tratamento: se você é quem pede ajuda ou se é ele quem oferece. No primeiro caso, o pior que pode lhe acontecer é ficar na mão. No segundo, grande chance de ter de preparar o bolso. Eles cobram, sem cerimônia, pelo socorro prestado. Isso me aconteceu já no aeroporto, quando um operador de uma agência de aluguel de carros me emprestou o telefone. Ou com um taxista que quis me cobrar o triplo por uma corrida até a favela de Dharavi, depois de quase uma dezena de outros motoristas recusarem me transportar. Ou com o gerente do hotel, que queria me cobrar taxas-extras para tudo. Ou ainda com um jovem que me ofereceu uma visita a estúdios de Bollywood, com direito a conhecer atores de lá – aliás, lindas atrizes indianas, ele fez questão de frisar. Não, não vi lindas atrizes indianas.

 

Ao chegar em Mumbai, às 9 horas de um domingo, a primeira cena que vi me chocou: uma criança baixou as calças para defecar na sarjeta. Depois outra. Metros depois vi uma mulher na mesma situação. Imediatamente, parei de gravar com a filmadora, de dentro do táxi. E prossegui o percurso até o hotel sem filmar mais nada. A cidade, para mim, se tornou feia a partir daquele instante. O que vi nos sete dias seguintes tinha como premissa a feiúra: o contraste chocante entre os poucos nichos de ricos e o emaranhado de habitações precárias era feio; o trânsito caótico e infernalmente barulhento, de motoristas agressivos e maus condutores, o feio do feio; as ruas mal varridas e o lixo acumulado em muitos locais, feio, feio, feio.

 

Por sorte, tinha como foco Dharavi, a megafavela localizada no coração de Mumbai. Nas palestras da conferência do Urban Age, disponíveis na internet, percebi a importância que os indianos davam a Dharavi. É difícil não ficar fascinado por ela. E, de uma maneira muito particular, a feiúra se mostrou compreensível. Os moradores dela são desconfiados, porém generosos quando descobrem sua intenção. A minha era retratar o melhor possível a megafavela que se recusa a fazer parte do progresso a qualquer custo, planejado pelos governantes. Por meio de líderes comunitários, visitei famílias, trabalhadores, circulei livremente por Dharavi. Encontrei personagens resistentes.

 

Um deles, Anmappa Kunchikor, me levou de moto para todos os cantos que pedi para visitar. E ainda serviu de intérprete com os outros personagens. Até que ele fez questão de mostrar a sua lojinha de bijuterias em Dharavi – pense na Rua 25 de Março, em São Paulo, em época de Natal. Lá conheci sua mulher, os dois filhos, as noras e os dois netinhos. Na minha frente, Anmappa brigou com o filho mais velho, um jovem com jeito de playboy, roupa e óculos da moda, conversa de malandro. Ele é um agiota, empresta dinheiro barato e cobra juros exorbitantes. O pai estava revoltado. Como se seu discurso de defesa de uma favela composta só de trabalhadores honestos que fez para mim horas antes fosse uma grande mentira. Entendi. Um pouco encabulado, ele me pediu até para publicar essa história, que nada tinha a esconder. E a enviasse para servir de exemplo ao herdeiro. Anmappa, eis o texto. As fotos, mando depois.