Domingo, 3 de Agosto de 2008 | Online
Diário de Bordo: a violência em São Paulo
Maior desafio foi convencer os entrevistados a falar sobre passado violento
Bruno Paes Manso
Existem coisas que fazemos e que devemos manter em segredo. Ou por que nos envergonham ou por que colocam nossa vida e reputação em jogo. Falar sobre o passado de assassinatos, por exemplo, é um desses tabus gigantescos. Ainda mais quando damos o nome e mostramos a cara para milhares de leitores.
Na apuração dessa matéria, conversei com pelo menos 30 pessoas. Precisei selecionar as histórias das pessoas que viveram fases diferentes da história da violência em São Paulo entre os anos 1980 e 2000. O vereador Laércio Soares, que conta sobre os justiceiros e os assassinatos nos anos 1980, eu já conhecia desde 2001, quando acompanhei seus trabalhos como vereador em Diadema.
O tenente David, da Polícia Militar, que fala sobre os assassinatos da polícia na mesma década, foi apresentado a mim pela professora Jucileide, do Jardim Ângela. Cheguei até a professora porque pretendia me aprofundar na história da guerra entre as gangues do Bronx e dos Ninjas, que causou a morte de mais de 150 pessoas na zona sul nos anos 1990. Ela havia dado aula para Alexandre Rodrigues da Silva, apontado como um dos líderes dos Bronx, que se encontra preso em Paraguaçu Paulista e com quem troquei correspondências.
O pastor Edson, ex-traficante do Recanto dos Humildes, que narra a explosão do tráfico nos anos 1990, eu conheci em 2004, quando acompanhava a celebração dos 450 anos de São Paulo no bairro. Edson havia organizado um grande evento na praça do Recanto, com pastores evangélicos que tinham sido criminosos, para convencer os traficantes locais a mudar de vida. Mentivemos contato desde então.
Paulo Enoc, que matou Luisinho, um dos últimos integrantes da gangue dos Ninjas, foi localizado pelos inquéritos policiais e processos que li exaustivamente sobre os homicídios ocorridos na zona sul. Como ele estava na eminência de ser julgado, quase não quis falar. Espero que a confiança tenha valido à pena. Foi absolvido ém junho, durante a apuração da matéria.
Três dos personagens morreram assassinados. Eu já havia conversado com César, José e João Carlos em 1999, quando trabalhava na Revista Veja. Eles eram matadores da região do Grajaú e na época me contaram sobre as chacinas que cometiam na região. Por meio dos inquéritos e processos, consegui descobrir o destino dos três.
O destino desses personagens, por sinal, que viveram a violência em diferentes épocas da história da cidade, também foi fundamental para compreender a lógica da queda dos homicídios no ano 2000. As transformações que viveram, a mudança na maneira de enxergar o mundo ou o trágico desfecho que tiveram, no meu entender, são bastante esclarecedores. Revelam também as mudanças no bairro onde vivem, nas instituições e sociedade.
Como hoje parte das reportagens são feitas para apontar culpados ou inocentes, encarei as resistências dos entrevistados com naturalidade. Afinal, parece que atualmente o jornalista assumiu o papel de porrete do Ministério Público e da Polícia, antecipando nas telas e páginas de jornais - por meio do escracho, da exposição do suposto culpado - as sentenças que demoram para serem conquistadas no Judiciário.
Acredito que existe espaço para reportagens que não julguem nem acusem. Mas que narrem histórias e ajudem a compreender a dinâmica dessa sociedade em estado acelerado de transformação. Foi sempre esse meu argumento. Nesse caso, em vez de justiceiro, o jornalista exerceria o papel mais parecido com o de psicanalista, ajudando a revelar os conflitos e os segredos perturbadores da sociedade sobre a qual escreve, problemas que só são resolvidos a partir do momento em que são narrados e assumidos em toda sua complexidade.

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