Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

Diário de bordo: Xangai

Na China, jamais fale mal do país, das pessoas ou da visível exploração a que os trabalhadores são submetidos

Eduardo Nunomura


No Aeroporto de Paris, esperando a conexão para Xangai, havia um painel de propaganda de um banco inglês que dizia estar presente no futuro. A imagem era de Pudong, mas só soube disso ao me ver diante desse distrito-símbolo da megacidade chinesa. Quando a vice-cônsul, Luciana Belmok, e o designer gráfico Bruno Porto, dois brasileiros que tive o prazer de conhecer, foram me contando alguns dos progressos urbanísticos dos chineses, mal pude acreditar. E eles estavam certos em tudo: Xangai quer crescer alucinadamente para depois pensar em como repartir o bolo - enquanto isso, pague-se mil yuans para os trabalhadores.

 

Fiquei espantado com três coisas dos chineses: o pragmatismo, o conformismo e o patriotismo. Jamais fale mal da China, das pessoas ou da visível exploração a que os trabalhadores são submetidos. Fiz isso e me dei mal. Um entrevistado, um engenheiro a quem tentava convencer para me deixar subir no último andar de um arranha-céu em construção, virou a cara e foi embora depois que falei sobre o gosto duvidoso dos prédios. Não deu nem tempo de pedir desculpas. Um professor de arquitetura perguntou se eu iria falar bem ou mal de Xangai. Cancelou a entrevista quando respondi que escreveria o que eu vi.

 

Neto de japoneses, pensei que teria problemas em conversar com as pessoas. O Japão não é bem um país aliado da China. Mas, para meu espanto, quase todo mundo com quem conversei achava que era um chinês. Ao perceber isso, fiquei desinibido. Saí fotografando e filmando o que via pela frente. E, como o que não falta é oriental fotografando e filmando, virei um deles. Quando alguém vinha reclamar, sorria dizendo "nihao" (olá) e saía de fininho.

 

Essa viagem teve um final atribulado. Depois de uma semana em Xangai, fui para Mumbai, mas meu retorno seria pela megacidade chinesa. O visto concedido pelo consulado chinês em São Paulo permitia duas entradas, mas a polícia alfandegária de Xangai não me permitiu entrar de novo. A alegação era de visto vencido, o que não era verdade. Nas duas horas em que decidiram se podia ou não entrar, um simpático policial chinês puxou conversa. Queria saber como era ser repórter e me confidenciou que tinha se formado em jornalismo. Perguntei porque ele ficava carimbando passaportes em vez de exercer a profissão. Ele me respondeu assim: "Meus pais não quiseram, não viam futuro nisso. Mas quando me casar e ter minha própria família poderei ser jornalista." Nada mais pragmático e conformista.