Domingo, 3 de Agosto de 2008 | Online
Cidades engasgam com os automóveis
Entrevista: Bill Mitchell, diretor do programa Cidades Inteligentes do MIT
Herton Escobar
Cidades são como pessoas, podem ser burras ou inteligentes, doentes ou saudáveis. As espertas são aquelas capazes de atrair talentos, de se reinventar diante das dificuldades e dotadas de pensamento inovador. É o caso de Nova York, Londres, Paris.
E as cidades burras? Bill Mitchell é elegante demais para citar nomes. Do ponto de vista mais "fisiológico", diz o diretor do programa Cidades Inteligentes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma metrópole depende de duas coisas básicas para funcionar: um bom planejamento de uso do solo e um sistema de transportes eficiente. Ou seja: órgãos bem distribuídos e artérias livres para o sangue fluir. Um de seus projetos no Media Lab do MIT, chamado City Car, é desenvolver um modelo de pequenos automóveis elétricos comunitários.
Eles seriam compactados e encaixados em pontos estratégicos das cidades (saídas de metrô e grandes centros comerciais) e funcionariam como carrinhos de bagagem nos aeroportos: você pega em um lugar, usa, e devolve em outro. Esses veículos poderiam ser usados em percursos urbanos de pequena ou média distância, como uma espécie de táxi descartável, dirigido pela própria pessoa. Nos pontos de coleta, cada veículo se acoplaria ao outro, como carrinhos de supermercado, e teria a bateria recarregada automaticamente. O usuário pagaria por tempo de uso, com cartão de crédito. Outro projeto é o RoboScooter, uma mobilete elétrica, superleve e dobrável, pequena o suficiente para ser guardada debaixo da mesa do escritório. A idéia geral, segundo Mitchell, não é substituir o transporte público, mas oferecer um complemento de mobilidade que permita às pessoas deixarem o carro na garagem na maior parte do tempo.
Para o professor do MIT, o modelo baseado no carro particular é algo que precisa ser superado, um vício a ser contido. "Claramente, as cidades estão engasgando com automóveis", diz. "Minha impressão é de que pequenos ajustes não vão dar conta do recado; precisamos repensar radicalmente todo o conceito de mobilidade urbana." Mitchell já foi diretor da Escola de Arquitetura e Planejamento do MIT e professor de outras grandes universidades, como Yale e Cambridge. Ele é autor de vários livros sobre as relações entre homem, arquitetura, comunicação e tecnologia no ambiente urbano.
O que é uma "cidade inteligente"?
A melhor maneira de entender isso é pensar na história evolutiva das cidades e compará-las a organismos vivos. As cidades pré-industriais eram feitas essencialmente de osso e pele - paredes, pisos e telhados que nos protegiam do ambiente exterior. Já na era industrial, as cidades desenvolveram fisiologias artificiais, dotadas de sistema nervoso, com redes digitais de sensoriamento e processamento espalhadas por todos os lados. Isso deu a base para que elas pudessem se comportar de maneira muito mais inteligente.
Mas todas as cidades têm isso?
Todas estão evoluindo nessa direção, até mesmo nos países em desenvolvimento. Quase todas as cidades já possuem pelo menos uma rede de telefonia celular. As mais evoluídas têm redes de alta velocidade, etc.
É uma questão estrutural, mais do que funcional?
Estrutura e função estão diretamente conectadas. Construir a infra-estrutura do sistema nervoso é o primeiro passo; a partir daí se desenvolvem as funções.
Nessa analogia, como será o organismo urbano do futuro? Uma espécie de ciborgue?
Há um certo paradoxo na maneira como enxergamos as coisas. As tecnologias digitais são muito inconspícuas, quase imperceptíveis; elas desaparecem no ambiente de trabalho, desaparecem dentro do seu bolso, por isso você não vê muita coisa delas. Computadores costumavam ser máquinas enormes, agora todo mundo carrega um laptop dentro da pasta. O telefone costumava ser uma coisa que ficava presa à parede ou em cima da mesa, agora todo mundo tem um celular no bolso. Então acho que, curiosamente, os ambientes hi-tech do futuro não vão ter cara de hi-tech. Serão extremamente funcionais, porém a tecnologia propriamente dita será ainda mais inconspícua. Isso vai permitir o ressurgimento de uma arquitetura focada nas necessidades humanas mais básicas, como luz e ar.
Como assim?
A arquitetura do século 20 foi muito dominada pela tecnologia. Por exemplo: os prédios não tinham janelas que podiam ser abertas, porque isso interferia com o sistema de ar condicionado, mas hoje podemos resolver isso com sistemas mais avançados de controle. Salas de reunião tinham de ser necessariamente ambientes escuros, porque os equipamentos de projeção não funcionavam na luz. Hoje temos telas e projetores de alta definição que não precisam disso.
Como o senhor vê o processo global de urbanização? Ele é bom ou ruim?
É uma coisa inevitável. Se é boa ou ruim, portanto, é de certa forma irrelevante. Quando surgiu a internet, e as telecomunicações começaram a se desenvolver rapidamente, muita gente achava que as cidades iriam se dissolver, que não haveria mais razão para agregar atividades em um só lugar. Essa teoria se provou completamente errada. Este é, sem dúvida, o século das cidades.
Mas o que vai acontecer se todas as metrópoles do mundo virarem uma Nova York, por exemplo? A urbanização pode ser sustentável em escalas ainda maiores do que a atual?
Acredito que sim. Se você pensar bem, as cidades são eficientes em muitos aspectos. O adensamento residencial, por exemplo, é muito mais eficiente do que a dispersão urbana, que exige um investimento enorme em transporte. Uma cidade bem planejada e bem gerenciada é, em princípio, bastante sustentável.
Adensar e verticalizar é sempre melhor?
Em geral, sim, você ocupa menos terras agrícolas e minimiza os custos com transporte e locomoção. Mas há limites; se você depende de arranha-céus para obter densidade, eventualmente os prédios vão se tornar ineficientes, por causa dos custos com infra-estrutura e mobilidade vertical.
Quais são os aspectos indispensáveis de um sistema de transportes? É uma questão puramente logística, ou dá para usar tecnologia para melhorar o trânsito?
Dá para usar muita tecnologia. Está claro para mim que estamos chegando ao fim da era do automóvel. O carro particular foi uma das grandes invenções do homem; transformou a vida das pessoas e o funcionamento das cidades. Mas, claramente, as cidades estão engasgando com automóveis neste momento. A demanda de energia é altíssima, as emissões de carbono são um problema enorme. Minha impressão é de que pequenos ajustes não vão dar conta do recado; precisamos repensar radicalmente todo o conceito de mobilidade urbana.
E quanto aos prédios e construções?
É algo que não exige nenhum grande desafio tecnológico. Os prédios podem ser muito mais eficientes em termos de energia. Nós já sabemos como fazer isso, o que falta é motivação econômica; as pessoas se preocupam muito mais com o custo inicial de construção do que com o custo do ciclo inteiro de vida do prédio. Portanto, é menos uma questão de tecnologia e mais de criar os incentivos necessários. A maneira como as pessoas utilizam os prédios também é importantíssima para a sustentabilidade - por exemplo, não deixando as luzes acesas o tempo todo.
Quais são os exemplos de cidades inteligentes hoje?
Não acho que exista um exemplo perfeito de uma cidade-modelo para o século 21. Cada lugar tem seus altos e baixos. Vou dar alguns exemplos: as economias de Nova York e Londres dependem largamente do setor de telecomunicações, que faz delas ‘hotspots’ (núcleos) da indústria financeira global. São cidades inteligentes no sentido de que não poderiam funcionar sem a conectividade que têm. Paris, em outros aspectos, é uma cidade inteligente que recentemente adotou sistemas sofisticados de uso compartilhado de bicicletas, que são coordenadas eletronicamente. Cingapura criou o pedágio urbano eletrônico. Na maioria das cidades você vai encontrar coisas inteligentes que estão sendo feitas. Outras já não estão caminhando tão bem.
Quais são os erros que as cidades costumam cometer?
Duas questões fundamentais são o planejamento básico de uso do solo e dos padrões de transporte. Fazer isso direito desde o início é crucial para a eficiência e a sustentabilidade das cidades a longo prazo. Muitas cidades cresceram de maneira pouco planejada, descoordenada, descontrolada, o que só acumula problemas para o futuro. O mais importante é olhar para o futuro e reconhecer que leva décadas ou séculos para se construir uma cidade. Não se pode pensar apenas no curto prazo, apesar de as pressões políticas e econômicas normalmente levarem a isso.
Se a cidade é mal planejada no início, dá para "arrumar a casa" depois?
É difícil, mas não impossível. As cidades nunca são projetadas em um único momento, com base em alguma utopia perfeita. Elas crescem e se desenvolvem com o tempo, construindo sobre a herança de gerações passadas. É um processo que exige criatividade constante.
O senhor escreve muito sobre a relação entre pessoas, tecnologia e comunicação dentro do ambiente urbano. Como acha que a urbanização vai transformar as relações humanas no futuro?
O que as cidades fazem é muito simples: elas abrem oportunidades para mais relacionamentos culturais, sociais e econômicos. As pessoas são atraídas para as cidades por causa dessas oportunidades. Ao longo da história, as cidades sempre foram centros de inovação e criatividade, porque elas aproximam as pessoas e proporcionam essa interação. Isso é muito bom. É por isso que Nova York é um lugar tão interessante. Porque ela é um centro cultural, um centro de inovação, uma cidade dinâmica, então as pessoas querem ir para lá. Você pode falar sobre um monte de coisas técnicas, mas a questão crucial de uma cidade é se as pessoas querem ou não morar ali.
O que Nova York fez que deu tão certo?
Nunca é uma coisa só. Nova York é uma cidade que se reinventou continuamente e, se você olhar para outras cidades que tiveram sucesso em sua história, vai encontrar essa mesma característica: a capacidade de reinventar e se adaptar a condições diversas. Outra coisa que Nova York fez foi se tornar um ímã global de talentos. Pessoas do mundo inteiro querem ir para Nova York, ou então para Los Angeles, Paris, Londres. Se eu tivesse que escolher um fator essencial para o sucesso econômico de uma cidade no século 21, seria este: a capacidade de atrair talentos, de se reinventar e inovar.
Nesse sentido, seria correto assumir que cidades de sucesso sempre têm grandes universidades por trás delas?
É difícil imaginar que uma cidade possa ter sucesso sem uma grande universidade. Se você olhar as cidades que mencionei, todas têm boas universidades. Boston, obviamente, tem uma superconcentração delas (como o MIT e Harvard).