Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

Metrópoles não são vilãs ambientais

Urbanização pode ser boa para o ambiente, diz Oliver Hillel, coordenador de Biodiversidade da ONU

Herton Escobar


Grandes cidades são habitualmente associadas à degradação ambiental. Mas o processo de urbanização pode ser bom para o ambiente, segundo o brasileiro Oliver Hillel, coordenador do Programa de Biodiversidade e Cidades da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da Organização das Nações Unidas. Quanto mais gente disputando apartamentos nas metrópoles, diz ele, menos gente disputando espaço com a biodiversidade na natureza. Na Amazônia, por exemplo, o desenvolvimento urbano seria uma maneira de tirar as pessoas da floresta e reduzir a pressão sobre os ecossistemas - dos quais as cidades também dependem para sua qualidade de vida. Ele sustenta que, tomando por base o conceito de "pegada ecológica" (o impacto causado na natureza por uma atividade humana), mais vale uma grande pegada metropolitana do que várias pegadas menores espalhadas pela floresta. No final, caberá aos moradores da metrópole decidir o destino das espécies que vivem fora dela. "É o padrão de consumo nas cidades que vai determinar o que vai acontecer com o planeta", afirma Hillel, entrevistado no fim de maio em Bonn, na Alemanha, durante a última conferência da CDB. Formado em biologia marinha, educação ambiental e em hotelaria, ele foi por quatro anos diretor do Programa de Ecoturismo da organização não-governamental Conservação Internacional.

 

Mais da metade da população do mundo vive nas cidades. Essa urbanização é boa ou ruim para o ambiente?
O fato é que a urbanização é inevitável. Até 2030, estima-se que 70% das pessoas morarão em cidades. A grande questão, portanto, é como vamos fazer essa urbanização e qual será o impacto dela sobre o ambiente. O que os planejadores urbanos têm apregoado é que a urbanização não é um problema, mas uma vantagem, porque a única chance que temos de preservar uma parcela significativa da biodiversidade é concentrar o consumo nas cidades. E, com isso, permitir que áreas naturais mais vastas sejam conservadas.

 

Concentrar a população é sempre melhor? Deveríamos, então, incentivar o crescimento das cidades?
A idéia é criar uma ocupação mais intensiva e menos extensiva. O crescimento vai ocorrer de qualquer jeito, não precisa ser incentivado. O que precisamos incentivar é a formação e o desenvolvimento correto das cidades, de forma que a biodiversidade já esteja incorporada no próprio design, no próprio planejamento urbano.

 

Na Amazônia, por exemplo, pouco se fala das cidades e do papel que elas podem ter no desenvolvimento sustentável da região. A urbanização seria uma maneira de reduzir a pressão sobre as florestas?
Ninguém fala nelas, mas elas estão lá, elas existem. E seriam, sim, uma maneira de reduzir a ocupação desordenada das florestas. É óbvio que você vai precisar de unidades produtivas no campo, vai precisar de áreas de plantio, mas não há dúvida de que uma explosão populacional rural é muito mais danosa para o ambiente do que uma explosão populacional urbana.

 

Uma São Paulo faria bem à Amazônia?
Do ponto de vista do uso dos recursos naturais, sim, é melhor ter uma cidade com 10 milhões de habitantes do que dez cidades com 1 milhão de habitantes. Existe uma teoria de que o consumo de recursos per capita diminui à medida que o tamanho da cidade aumenta. Quanto maior a cidade, menos água e menos energia é consumida per capita, porque as pessoas se tornam consumidores mais eficientes. Outro fato é que a taxa de crescimento populacional rural é bem maior. Uma das primeiras decisões que uma família toma ao se mudar para a cidade é reduzir o número de filhos, então, nesse sentido, a estabilização da população anda de mãos dadas com a urbanização. Boas cidades são parte da solução. Se o planejamento for bem feito, a urbanização pode fazer um bem tremendo para a Amazônia.

 

Por que alguém que mora em São Paulo deve se preocupar com a conservação da biodiversidade, com o que acontece nas florestas?
A pessoa urbana, infelizmente, não tem a percepção do quanto ela depende dos serviços ambientais que os ecossistemas fornecem para ela. Há um dado da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) que diz que 40% da economia mundial depende diretamente da biodiversidade, seja na agricultura, na medicina, etc. Mas o urbanóide se esqueceu disso.

 

Qual a expectativa para o futuro? Numa sociedade cada vez mais urbanizada, o homem ficará cada vez mais desconectado da natureza?
Não acredito que o homem urbano vá despertar do dia para a noite para o fato de que há ecossistemas lá fora essenciais à sua sobrevivência, mas essa consciência vai ter de surgir em algum momento. Os governos municipais e estaduais e ambientalistas vão começar a perceber que não existe essa disparidade entre campo e cidade, que é tudo uma coisa só. O cidadão urbano é quem tem nas mãos o poder de decidir o futuro do planeta. O secretário da CDB (Ahmed Djohglaf) diz sempre que a luta pela vida na Terra vai ser vencida ou perdida nas cidades.