Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

Cidades européias inspiram soluções

Para a socióloga Saskia Sassen, know-how do passado industrial é um dos trunfos de São Paulo na transição para cidade globalizada

Fernando Dantas e Carlos Marchi


Criadora do conceito de cidade global, a socióloga americana Saskia Sassen diz que a "economia do conhecimento", o know-how acumulado ao longo da história, é vital para metrópoles serem competitivas. Ela afirma que São Paulo, com seu passado industrial, pode ter trajetória semelhante à de Chicago. Lá, a experiência de décadas de centro exportador de carne de porco, uma "indústria velha", ajudou na transição para cidade globalizada. Autora do livro A Cidade Global, de 1991, Saskia define essas cidades como a plataforma de operação de empresas transnacionais, o ponto de encontro do conhecimento e dos talentos que fazem a ponte entre atores globais e especificidades nacionais. Esse status garante crescimento, mas cria uma casta de muito ricos capaz de dominar o espaço urbano. Para ela, a sociedade precisa reagir ao mercado, algo mais comum na Europa que nos Estados Unidos.

 

Qual é exatamente o conceito de cidade global, e quais são os riscos e oportunidades trazidos para as megacidades?
Cidades globais têm um lado econômico e um político. No primeiro, têm todos os recursos e arcabouço regulatório para lidar com operações globais de mercados e empresas. Do lado político, está a competição pelo espaço urbano. Quando criei o modelo, em 1980, meu ponto de partida foram redes de filiais de empresas, as bolsas, rotas comerciais e cadeias de commodities. O grande acréscimo desde então foi o aspecto político. Em cidades como São Paulo, ele pode tomar formas violentas. Em outras, é uma violência mais organizada, como em Xangai, onde o governo removeu milhões de pessoas do centro.

 

Por que ocorre esse deslocamento dos mais pobres?
Cidades globais criam uma faixa de 20% de população muito próspera, capaz de dominar áreas-chave com prédios luxuosos e espaços de consumo, deslocando a classe média. É preciso ter lideranças políticas e cívicas para contrabalançar os mercados. Nova York, a cidade-mercado por definição, tem o maior índice de muito ricos dos EUA e mais de 20% dos oficialmente pobres.

 

Há soluções para esse problema? Gostaríamos que a senhora respondesse tendo em mente o caso específico de São Paulo.
Entre 63 cidades ranqueadas como centros globais, São Paulo aparece em quarto lugar em desenvolvimento imobiliário comercial. Isso se refere à facilidade com que se pode fazer empreendimentos, sugerindo que há pouca proteção para atores mais fracos. Quanto a soluções, é preciso olhar as cidades européias. O modelo americano é terrível e, em certa medida, foi seguido na América Latina, com total desconsideração com a desigualdade de renda, questões ambientais e estéticas. É preciso ter bons sistemas públicos de educação, habitação e transporte, criar parques. O liberalismo combate isso, mas as cidades européias têm tradição, aceitam altos impostos. Se não existissem, talvez achasse que as megacidades não têm solução.

 

Como a senhora vê o impacto da desindustrialização?
O que mudou foi a geografia: Hong Kong e Xangai produzem manufaturas para o mundo todo. Em São Paulo e Chicago, isso foi catastrófico para segmentos da economia e trabalhadores, para os espaços onde trabalham e vivem. As manufaturas para consumo de massa nessas cidades estão mortas.

 

No seu último livro, Território, Autoridade, Direitos, a senhora fala da importância da história econômica das cidades...
A economia do conhecimento é muito mais complexa do que ter trabalhadores com alto nível de educação. Chicago tem uma economia sofisticada, extraída da economia material das "velhas indústrias". Se você quer exportar a carne de 1 milhão de porcos, como fazia Chicago, é necessário conhecimento de aspectos legais, financeiros, contábeis. Algumas cidades desenvolvem esse conhecimento até extraí-lo da economia antiga e oferecê-lo como commodity. São Paulo, como Chicago, extrai a economia do conhecimento do seu passado como centro industrial.

 

A senhora considera São Paulo uma cidade global?
É a mais poderosa da América Latina, à frente de Cidade do México, Santiago e Buenos Aires. Lidera em poder de arregimentar recursos e em sofisticação da economia do conhecimento. É boa para setores complexos, que estão associados, como finanças, desenvolvimento de software, conhecimento legal, contabilidade, consultoria, publicidade. Tem boa posição em poder econômico, nem tanto como centro de negócios: há degradação de áreas públicas, problemas de transporte, desigualdade.

 

É factível, no Terceiro Mundo, adotar o conceito europeu de "novas cidades", criando novos centros nas metrópoles?
É uma boa idéia, o oposto da suburbanização. Dizem que tem de ser uma economia rica para isso. Tenho dúvidas: depende de vontade e da visão de que diferentes tipos de atores - empresas, cidadãos, governo, planejadores - podem ser mobilizados. O Brasil, aliás, é uma economia cada vez mais rica, o problema é a distribuição. Quanto maior a classe média, mais riqueza circula na economia.