Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

De olho em 2030

Com dinheiro no caixa, prefeitura lança plano de desenvolvimento sustentável

Herton Escobar e Camila Viegas-Lee, enviados especiais


No fim do dia de trabalho, quando milhões de pessoas se amontoam nas plataformas das velhas estações do metrô de Manhattan, pode-se enxergar o passado, o presente e o provável futuro de Nova York. A metrópole vive um dos momentos mais prósperos de sua história. A população nunca foi maior: 8,2 milhões de habitantes na capital e 19,040 milhões na região metropolitana (a segunda maior do mundo, depois de Tóquio). Os cofres nunca estiveram tão cheios: orçamento municipal de US$ 59 bilhões (R$ 94 bilhões, quase quatro vezes o de São Paulo) e PIB metropolitano de R$ 1,5 bilhão (9% do PIB americano). Os turistas também nunca foram tantos: 46 milhões em 2007. A rede metropolitana de transporte tem quilometragem suficiente para uma viagem de ida e volta de São Paulo a Belém. Números de uma cidade que sempre planejou seu crescimento, em vez de ser sufocada por ele.

 

Porém, como podem perceber os passageiros apertados no metrô, a cidade dá sinais de que está chegando ao seu limite. A estimativa é de que mais 1 milhão de pessoas se mudem para Nova York até 2030. É hora de planejar de novo.

 

No ano passado, a prefeitura lançou um ambicioso plano de desenvolvimento sustentável para as próximas duas décadas. Batizado de Plano NYC, inclui 127 metas para seis grandes áreas: uso do solo (incluindo habitação, áreas verdes e recuperação de áreas degradadas), recursos hídricos, transporte, energia, qualidade do ar e mudanças climáticas. As propostas incluem desde medidas simples, como a remodelação de praças e o plantio de árvores, até programas bilionários, como a ampliação do metrô e a substituição de velhas usinas termoelétricas por modelos menos poluentes.

 

"Temos espaço para crescer, mas para isso precisamos ser mais eficientes em tudo", afirma Amy Chester, assessora da prefeitura para Planejamento e Sustentabilidade. Um dos objetivos principais do Plano NYC é garantir habitação para os futuros moradores. O alto custo de moradia é apontado como um dos principais gargalos de Nova York. Em 2005, cerca de 30% dos nova-iorquinos gastaram mais de um terço da renda com aluguel - uma das taxas mais altas dos Estados Unidos. "Manhattan está virando um gigantesco shopping", diz Elliot Sclar, diretor do Centro para Desenvolvimento Urbano Sustentável do prestigiado The Earth Institute, da Universidade de Columbia. "Mesmo jovens formados e com bons salários têm dificuldade para morar aqui."

 

O plano propõe mudanças de zoneamento e a construção de lajes sobre estradas e ferrovias, que servirão de base para novos espaços imobiliários. Prédios abandonados ou subutilizados de escolas e hospitais vão virar condomínios. Uma das regiões prioritárias é Hudson Yards, área de 1,5 quilômetro quadrado às margens do Rio Hudson, entre a 8a Avenida e as Ruas 30 e 42, que tem grandes espaços subutilizados e pátios dos trens que saem do terminal da Penn Station rumo a New Jersey. A prefeitura espera criar 13.500 unidades residenciais e 2,2 milhões de metros quadrados de espaço comercial, com acesso facilitado por uma extensão da Linha 7 do metrô, que atualmente termina na Times Square.

 

Com exceção de uma unidade dos Correios e do Centro de Convenções Jacob K. Javits, Hudson Yards tem depósitos, estacionamentos, um par de borracharias e um posto de gasolina. Nos fins de semana, pode-se caminhar horas sem encontrar ninguém. Eventualmente se consegue ver um jornalista com bloquinho nas mãos saindo do número 450 da Rua 33, prédio que abriga a agência de notícias Associated Press, o jornal NY Daily News, a revista U.S. News & World Report e a TV PBS. "O aluguel lá é mais barato e, se jornalista consegue trabalhar em zonas de guerra, consegue trabalhar em qualquer lugar", diz JP Pappis, presidente da agência de fotos Polaris Images, que funciona num escritório próximo, na Rua 30.

 

Em maio, o órgão metropolitano de transporte (MTA), dono dos quarteirões por onde passam linhas de trem, aprovou um pré-acordo com a empresa Related Companies para a construção de quase 510 mil m2 de conjuntos comerciais, 492 mil m2 de unidades residenciais e 93 mil m2 distribuídos em lojas, hotel e uma escola. O projeto prevê a instalação de uma laje sobre os trilhos para construir imóveis em cima. Pelo pré-acordo (o prazo para acertar o contrato formal é de cinco meses), a Related pagará aluguel à MTA nos próximos 99 anos, no valor total de R$ 1,5 bilhão. O custo do projeto foi estimado em R$ 23,9 bilhões. Só a laje está orçada em R$ 3,1 bilhões.

 

A extensão da Linha 7 começou em dezembro e prevê duas estações, uma na Rua 41 e outra na Rua 34, perto do Javits Center. O Javits funciona num edifício de 15 andares, projetado por I.M. Pei (o arquiteto da pirâmide do Louvre). Sua área será ampliada de 70 mil m2 para 120 mil m2 e o complexo ganhará um hotel. Segundo a prefeitura, o Javits é hoje o 18o centro de convenções dos EUA em tamanho e, por isso, não pode abrigar 60 das maiores feiras do país. "É inacreditável que um centro desses não tenha acesso mais fácil", diz a mineira Martha Beatriz Ramos, dona da D’Ipanema Comercial Exportadora, que vende jóias e bijuterias brasileiras em três feiras realizadas todos os anos no Javits. "O ônibus demora demais e é um bairro deserto. Se não fosse Nova York, teria medo de andar por ali."

 

Em outubro, a Empire State Development Corporation, dona da Penn Station, anunciou a remodelação do edifício da 8a Avenida que abriga um escritório, um centro de distribuição dos Correios e a única agência aberta 24 horas de Manhattan. A 8a Avenida é a divisa entre Hudson Yards e o Fashion District, onde, bem diante do prédio dos Correios, fica o Madison Square Garden. Os Correios vão transferir a maior parte de suas atividades. A fachada do prédio, com 20 colunas coríntias, projetada em 1913, deve ser preservada, mas o resto será demolido para dar espaço a torres comerciais, um hotel, um shopping e a nova entrada principal da Penn Station.

 

Don Emilio de Lamos, ator e cabeleireiro aposentado de 71 anos, está documentando a evolução do bairro. "Meu vídeo vai se chamar A Transformação de Nova York", diz Lamos, dono de um prédio de quatro andares na Rua 36. "Assim que os preços subirem, vendo meu predinho e compro uma ilha tropical", brinca. O irlandês Martin Lee, de 33, mudou-se para a Rua 36 há apenas um ano e está ansioso para ver os efeitos da reurbanização. "Vendi minha van. Com a extensão do metrô vai ficar fácil se locomover aqui."

 

Transporte público e expansão urbana sempre foram intimamente ligados em Nova York. O metrô foi usado como incentivo para a ocupação de áreas subutilizadas dos subúrbios. "A economia de Nova York não sobrevive sem o metrô", diz Jeff Zupan, da Regional Plan Association, entidade civil que analisa políticas públicas. O metrô tem mais de mil km, com 468 estações distribuídas em 26 linhas. Só a Linha A Azul, que vai do norte de Manhattan às praias de Rockaway, no leste do Brooklyn, tem mais estações (68) e quase a mesma extensão (50 km) que o metrô de São Paulo (55 estações e 61 km). A cidade é ponto final de outros 2.190 km de ferrovias que fluem dos condados vizinhos a leste do Hudson e mais 1.774 km de linhas do lado oeste, no Estado de New Jersey, que convergem para os terminais de Hoboken e Penn Station. O resultado é uma supermancha costurada por quase 6 mil km de trilhos, que transportam quase 1,6 bilhão de passageiros por ano.

 

Cerca de 95% das pessoas que entram em Manhattan e saem dela diariamente utilizam o transporte público. Carro é artigo de luxo - só um em cada quatro nova-iorquinos tem um. "O custo de manter e estacionar um carro em Nova York não vale a pena, já que há transporte público barato e de qualidade", diz Allison de Cerreño, diretora do Centro Rudin para Políticas e Gerenciamento de Transporte da Universidade de Nova York, que pega mais de uma hora de trem todos os dias para ir de casa, no condado de Westchester, ao sul de Manhattan.

 

A estrutura de transporte de Nova York existe graças ao planejamento ambicioso. A maior parte do metrô, que movimenta quase 5 milhões de pessoas por dia, foi construída antes dos anos 1930, quando a população era inferior a 7 milhões. "Por sorte, os que vieram antes de nós pensaram no futuro", diz o cientista político Steven Cohen, diretor executivo do The Earth Institute.

 

Pensar no futuro, no século 21, tem de levar em consideração a questão ambiental. Uma das metas principais do Plano NYC é produzir uma Nova York "mais verde". Até 2013, os táxis deverão ter motores híbridos, movidos a eletricidade e combustível. Outro objetivo da prefeitura é garantir que, em 2030, todos os nova-iorquinos morem a menos de dez minutos de um parque.

 

"Vivemos num mercado globalizado, onde as cidades competem por negócios", afirma Cohen. "Se você quer atrair negócios, precisa de uma cidade atraente para se viver. Parte disso é a vida noturna e os restaurantes, parte são árvores e ar limpo. Qualidade ambiental não é luxo, é necessidade econômica."