Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

Em declínio

Nascimentos e migrações diminuíram na região central

Carlos Marchi


A tendência durou mais de um século - entre 1870 e 1990 a população da cidade de São Paulo não parou de crescer. Mas, há uns 18 anos, o movimento se reverteu. Nos últimos 7 anos a capital registrou crescimento anual de 0,4%. E, na última década, 53 dos 96 distritos paulistanos perderam o equivalente a uma Londrina, que tem 460 mil habitantes.

 

Demógrafos atestam que está nascendo menos gente e a migração para a metrópole se reduziu. A mudança de comportamento, como o ingresso da mulher no mercado de trabalho e a popularização de métodos contraceptivos, faz a maternidade ser adiada. Ao mesmo tempo, a atividade industrial cada vez mais esparsa empurrou as correntes migratórias para o interior, para onde muitas empresas se mudaram. "São Paulo não é mais a porta de entrada de migrantes", garante o urbanista Aurílio Caiado, da Seade. Hoje o número de nordestinos que voltam para o Nordeste é maior que o número dos que se aventuram a viver na capital. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios, entre 1997 e 2006 partiram 182 mil pessoas a mais do que chegaram; e de 1987 a 1996, o movimento inverso tinha trazido meio milhão de migrantes nordestinos. E os que ainda migram têm ficado cada vez menos tempo.

 

São Paulo começou a crescer aos saltos a partir das duas últimas décadas do século 19 por três motivos, segundo o professor de Sociologia da Universidade de São Paulo José de Souza Martins. O primeiro foi a imigração européia, a partir dos anos 1880; o segundo, a abolição da escravatura, que despejou escravos libertos nas grandes cidades do País, inclusive São Paulo; e o terceiro, o fato de que, com o surgimento das malhas ferroviárias, a elite cafeeira veio morar na capital e criou uma demanda de comércio e serviços que atraiu mão-de-obra de todo lado, efeito que se multiplicaria com o tempo. Mas, nos anos 1990, o crescimento estancou de tal forma que a região metropolitana, agora, apresenta a idade média mais envelhecida de toda sua história: 31,1 anos.

 

A redução é, também, resultado de uma progressiva expulsão dos mais pobres para a periferia, causada pela valorização imobiliária, como diz o economista e demógrafo Haroldo da Gama Torres, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Bairros como Vila Mariana e Perdizes, cita Torres, se verticalizaram e perderam população. Demógrafos explicam o fenômeno pela observação do espraiamento radial, dividindo a Grande São Paulo em cinco círculos concêntricos. O anel interno corresponde ao centro da metrópole e o seguinte, à população de maior escolaridade, mais riqueza e longevidade, o que pressupõe baixo crescimento populacional. Nos anéis subseqüentes, idade média, renda e escolaridade começam a cair, ao contrário do crescimento demográfico. No anel externo, os índices de qualidade de vida despencam.

 

"Concentrar a cidade em áreas menores, com aproveitamento de espaços não utilizados, permitiria que a Grande São Paulo operasse numa lógica de cidade mais compacta", explica a diretora executiva da Seade, Felícia Madeira. Ela sugere, até mesmo, que esse processo já estaria ocorrendo em tradicionais bairros paulistanos como a Mooca, a Barra Funda e o Brás.