Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

O distrito que mais cresce

Anhangüera se expande em áreas de ocupações irregulares na Serra da Cantareira

Diego Zanchetta


Todo dia surge um novo comércio, um novo barraco, uma nova antena parabólica. Assim é o distrito de Anhangüera, o de maior crescimento de São Paulo. Fruto de invasões ocorridas desde o fim dos anos 1980, o bairro se expande em áreas de ocupações irregulares na Serra da Cantareira, que fornece quase metade da água que os paulistanos bebem. Anhangüera cresce ignorando a lei, situação que, em tese, exime o poder público de levar asfalto, água, coleta de esgoto e lixo, escolas, transporte, postos policiais e de saúde. Mas os moradores têm orgulho de dizer que a invasão com barracos de lona se transformou numa região com alguma infra-estrutura. O bairro Recanto dos Humildes, por exemplo, recebeu asfalto há pouco menos de dois anos, enquanto na vizinha Favela da Paz ainda faltam água e luz - na favela, os moradores furaram uma adutora da Sabesp e os "gatos", ligações clandestinas de energia elétrica, são abundantes. O Centro Educacional Unificado (CEU) em construção pela Prefeitura embala o sonho de quem acabou de chegar, como a dona de casa Maria das Graças, de 40 anos, mãe de Michele, de 9. "Minha filha vai estudar aqui no ano que vem, se Deus quiser", aposta Maria das Graças, que antes morava de aluguel em Santa Cecília, no centro.

 

Do alto das lajes que se proliferam às margens das Rodovias Anhangüera e Bandeirantes, municípios como São Paulo, Caieiras e Cajamar parecem um só. "Isso aqui era só mato até 1997. Quando cheguei, o chão era de terra. Tudo ficou muito bom. Temos o centro comercial de Caieiras do lado, e de trem chego à Estação da Luz em menos de uma hora", alegra-se o pastor José Bezerra do Vale, de 60 anos, enviado pela Assembléia de Deus ao distrito há 9 anos. Bezerra do Vale chegou sozinho, vindo do povoado de Acoqui, uma das regiões mais pobres do Maranhão. Hoje, está casado com a "irmã" Rosenilde da Silva, de 34, que morava em Pirituba, zona oeste da capital, de aluguel e conseguiu a casa própria no Anhangüera em 2001. Ela conheceu o pastor dois anos após ficar viúva. A família ergue a laje do terceiro andar no sobrado de cinco cômodos, onde também moram dois enteados. "Aqui, você consegue um sobrado de cinco cômodos por R$ 13 mil, eu falo isso em todo bairro que vou orar." Sua outra vocação, mais comercial, é a de vender bacias, baldes e utensílios plásticos, dispostos na garagem.

 

Por causa das invasões, morros da Serra da Cantareira já apresentam clarões visíveis. Entre 1990 e 2000, o distrito perdeu área verde equivalente a 80 campos do Estádio do Morumbi, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. "Na quebrada ninguém tá ligando muito para as árvores, é bom que os bichos vão embora", diz o lavador de carros Lucas de Oliveira. A Prefeitura, por meio da Operação Defesa das Águas, tenta impedir o avanço de novas moradias sobre a Cantareira, com demolições de imóveis. Muitos que deveriam ir embora ganham a indenização de R$ 5 mil e, espertos, vendem o barraco para outro incauto futuro morador. E assim o distrito de Anhangüera não pára de crescer.