Domingo, 3 de Agosto de 2008  | Online

Sobrevivemos

Como a violência foi reduzida na periferia, no relato de vítimas, testemunhas e ex-bandidos

Bruno Paes Manso


Nos anos 1980, o sargento David Monteiro acreditava que a violência policial ajudava a reduzir a criminalidade no Capão Redondo, bairro pobre da zona sul de São Paulo; por isso, saía à caça de bandidos. Laércio Soares, dono de uma venda em Diadema, município vizinho, achava que os justiceiros eram a melhor solução para acabar com os assaltos; e, com outros comerciantes, contratava advogados para defender matadores na Justiça. Na década seguinte, o traficante Edson Mendes mandava bala em quem atravessasse seu caminho, certo de que, assim, conquistaria respeito entre clientes e concorrentes no Recanto dos Humildes, na zona norte paulistana, enquanto Alexandre Rodrigues da Silva, integrante de uma gangue do Jardim Ângela, se envolvia em rixas intermináveis com grupos rivais na zona sul - disputas que levaram à morte de pelo menos 150 pessoas ao longo de 7 anos. Jucileide Rodrigues Mauger, a diretora da Escola Municipal Oliveira Viana, onde Alexandre estudou, contou mais de 100 alunos assassinados nas décadas de 1980 e 1990, período em que o número de homicídios batia recordes sucessivos até atingir seu pico histórico: 11.472 mortes violentas em 1999. Até mesmo o motoboy Paulo Enoc, que vivia longe do crime, foi levado a praticar um duplo homicídio para não morrer na zona sul. No entanto, os anos 2000 chegaram, o índice de assassinatos despencou - e todas essas pessoas mudaram a forma de enxergar o mundo e de levar a vida. David, Laércio, Edson, Alexandre, Jucileide e Enoc: são eles que ilustram, com suas histórias, este relato de quase 30 anos de crimes sangrentos e de como foi reduzida, bruscamente, a violência na periferia.

 

1980 - A era dos justiceiros
Em 1979, aos 19 anos, David Monteiro ainda era um varapau desengonçado. Com 1,90 metro, sem um único fio de barba no rosto, cursava o terceiro ano do ensino médio e tinha cara de moleque. Vivia sem grandes preocupações no Jabaquara, bairro de classe média da zona sul de São Paulo. Um dia, a caminho de uma sessão de cinema, encontrou um conhecido que estava indo prestar concurso para a Polícia Militar. "Vou com você", decidiu David. Na época, a PM queria ampliar quadros e os testes para o ingresso de recrutas eram simples. David foi aprovado na segunda tentativa. Dois dias depois, embarcava para um quartel em Santos, no litoral paulista, para deixar de ser garoto e se transformar em policial.

 

No primeiro dia de curso, um sargento encrespou com o sorriso de David: "Está rindo de quê?" O rapaz recebeu a primeira lição - é proibido sorrir - e, para não esquecer, teve de virar cambalhotas na lama, diante do pelotão de novatos. Quatro meses depois, David já era um soldado. Foi trabalhar no Capão Redondo, na zona sul, bairro que crescia desordenadamente. Além de maturidade, faltava-lhe preparo para encarar o que viria. O jovem teve aulas sobre militarismo e táticas para enfrentar grupos guerrilheiros, mas quase nada sobre como combater a criminalidade comum. Justamente numa época em que os roubos começavam a assombrar a população de São Paulo. Entre 1979 e 1984, os crimes como roubos e furtos haviam saltado de 1.187 para 2.100 casos por 100 mil habitantes.

 

A situação era mais crítica no Capão Redondo. O 47o Distrito Policial era a única delegacia do bairro, inaugurada havia pouco tempo. A PM contava com 40 homens para cobrir toda a região sul de São Paulo - menos do que um décimo do efetivo atual. "De um lado, no bairro tinha muito metalúrgico que trabalhava nas indústrias da zona sul. De outro, bandidos que começavam a apavorar. A gente via histórias horríveis, como estupro de mulher grávida e assassinato para roubar botijão de gás", lembra David. Ainda inseguro, ganhou na tropa o apelido de Bebê Johnson, humilhante para um policial. A situação mudou no dia em que matou um ladrão. David ganhou moral na tropa e um novo apelido, "de respeito" - Bebê Diabo. "Naquele tempo, a mentalidade que eu e os outros policiais tínhamos era de que bandido bom era bandido morto. Se no lugar tem alguém roubando, estuprando e nós matarmos ele, está resolvido. Ia lá, investigava, perseguia, cercava, perseguia, corria, corria. E matava o cara."

 

Para ganhar a disputa com os criminosos, os policiais viviam a ilusão de que a violência era a estratégia mais eficiente. "Imagina eu, com 20 e poucos anos. Não entrava em um bar sem dar geral em todo mundo. Se vacilasse pra botar a mão na cabeça, já dava um tapão. Você não podia demonstrar medo. E a população não tinha para quem se queixar porque a gente era apoiado pelo governo", lembra. Até o ano de 1991, já como sargento, David havia se envolvido em 99 casos de resistências seguidas de morte - ocorrências em que o policial alega ter matado o suspeito em legítima defesa - e tinha assumido pessoalmente 14 delas.

 

Defendida pela corporação, a crença na eficácia da truculência e dos assassinatos para exterminar bandidos e "purificar" bairros violentos se disseminava. Os 1.508 homicídios registrados em 1979 haviam triplicado em 1984 com a ajuda da polícia, chegando a 4.930 casos. Nessa fase, uma solução alternativa ganhava força nas periferias da metrópole: os justiceiros.

 

David lembra que, em meados da década de 1980, foi abordado por um certo Adalton, que morava no Capão Redondo e dizia caçar bandidos. Adalton aproximou-se dele e intimou: "E aí, sargento, a gente tem que dar um jeito de se unir, os vagabundos estão dominando a área." David recusou o convite. Mas, em outros bairros e cidades da Grande São Paulo, os justiceiros se tornaram solução caseira e complementar à da polícia, pois conheciam de perto os dramas e inimigos locais. Em Diadema, o comerciante Laércio Soares participou de todo esse processo. Professor de matemática vindo do norte de Minas Gerais, chegou à Vila Nogueira em 1973, aos 25 anos, e 3 anos depois enxergou uma boa oportunidade para abrir um dos primeiros estabelecimentos comerciais do bairro, vendendo alimentos.

 

No começo, Laércio testemunhou a força da economia paulista. Cansou de indicar vizinhos para trabalhar em pequenas e médias metalúrgicas, cujos proprietários iam à sua venda pedir indicação de pessoas. O ambiente era tranqüilo. As coisas começaram a se complicar na virada para os anos 1980. Greves e fechamento de vagas na zona sul eram o termômetro da crise que chegava com tudo. Junto do desemprego, surgia uma nova geração no bairro, filhos e netos de migrantes que cresciam soltos nas ruas e viam os pais se matarem de trabalhar para ganhar uma miséria. Foi nessa época que os furtos e roubos começaram a preocupar, drama que Laércio sentiu na pele.

 

Ele nunca tinha sido roubado até 1981. Mas entre aquele ano e 1985, raro foi o mês em que não foi vítima de assalto. As ameaças tornaram-se comuns. Ligavam dizendo que iriam matá-lo para roubar o bar. "Eu falava que podiam vir, mas que teriam resposta. Não podia baixar a cabeça, demonstrar medo. Cansei de dormir de tocaia ao lado do bar, para impedir arrombamento. Muitas vezes tinha que trocar tiros. Era a única maneira de sobreviver a essa situação." Nos anos 1980, Laércio não saiu de casa desarmado. Às vezes, levava duas armas.

 

A maioria dos justiceiros, espalhados pela periferia, era migrante nordestino, alegava ter começado a matar depois de ser vítima de algum bandido, denominava-se caçador de marginais e recebia o apoio de comerciantes e da população local. Foi o caso de Adalton, do Capão Redondo; Zoreia, de Osasco; Esquerdinha, de São Bernardo, e Chico Pé-de-Pato, do Jardim das Oliveiras. Só o justiceiro Rivinha, do Parque Novo Mundo, foi acusado por moradores de matar mais de 200 pessoas.

 

Em Diadema, a Vila Nogueira seguia rumos parecidos. Vitão, antigo morador, dizia que se tornara justiceiro depois de ver a mulher ser abusada. Matou o agressor e não parou mais. Os moradores calculam que ele chegou a matar mais de 100 pessoas. Vitão tinha bons informantes, investigava os roubos e matava quem ele julgava ser bandido. Quando era preso, recebia a ajuda de comerciantes. "A gente não tinha onde se segurar e agarrava o que estava mais à mão", diz Laércio, que organizava a coleta para bancar os advogados de justiceiros e policiais que os ajudavam a "limpar" o bairro. "É como se estivéssemos nos afogando em um rio. O justiceiro era aquele pedaço de pau que a gente acreditava que ia nos salvar. Mas que acabava rachando, quebrando a nossa cabeça e nos levando mais pro fundo." É que o critério dos justiceiros para escolher a próxima vítima se tornou cada vez mais imprevisível. Na trajetória de matanças, arrumavam inimizades por todo lado e passavam a viver para se defender de eventuais ataques de desafetos.

 

Incontroláveis - ao mesmo tempo que perdiam o apoio da população ou eram assassinados -, no fim da década de 1980 os justiceiros tornaram-se alvo preferencial das forças de segurança do Estado. No começo dos anos 1990, mais de 40 justiceiros estavam presos no Centro de Operações Criminais, na zona norte, jurados de morte por outros detentos. Em meados de 1990, o reinado deles havia acabado: justiceiros desapareceram do noticiário e do cotidiano da periferia. A violência havia se transformado. Novos tipos de assassinos dominariam os anos 1990, com novas justificativas, resultando em milhares de mortes.

 

1990 - Tráfico e gangues
O que é a violência? Com voz alta e ruidosa, que lembra o som de uma britadeira, o pastor Edson Mendes, líder de um pequeno templo da Assembléia de Deus no Recanto dos Humildes, comunidade pobre da zona norte de São Paulo, divaga sobre o tema do alto de sua larga vivência. "A violência é grande, um vulcão adormecido que você precisa controlar diariamente. Todo homem é um grande pit bull. A qualquer hora o instinto vem à tona. Por isso ele precisa ser forte, saber aonde quer chegar." Edson tem 49 anos, mas com pouco mais de 30 comandou o tráfico da região na década de 1990, depois de ver falir a pequena empresa de construção que tocava. Saiu do negócio só com uma moto CB 400. Na porta de um bar, um amigo sugeriu a ele que vendesse o veículo para iniciar outro negócio com "clientes permanentes". Edson topou sem fazer muitas perguntas. Virou traficante, investindo o capital em cocaína, com um bom fornecedor de Guarulhos.

 

Além de administrar a venda, Edson era o cobrador da boca. No mundo caótico do tráfico de drogas, o grande vulcão viveu anos em intensa atividade. Com 12 homens sob seu comando, usando o Centro Desportivo Municipal do bairro como base das vendas, viu os negócios prosperarem. Ganhou o apelido Tocha de seu sócio na boca, Nenê Barracão, depois de um intenso tiroteio com a polícia, que tentava desativar uma boca do grupo no Jardim do Russo, uma das primeiras a levar o crack para a zona norte. Edson atirava com uma espingarda calibre 12, arma que soltava labaredas. "No tráfico, ou você é ou você é", diz. "Não pode ter medo. Não dá para entrar na chuva se você não quer se molhar. Precisa ir pra cima." O medo que Edson e seu grupo espalharam na região inibia concorrentes e moradores.

 

Além da decadência dos justiceiros, os anos 1990 foram marcados pela disseminação das bocas de droga na periferia. Desde o início da década anterior, quando os cartéis colombianos conseguiram se estruturar para exportar cocaína, a atividade criminosa no Brasil assumiu um novo patamar. No Rio de Janeiro, sob a batuta do Comando Vermelho, o tráfico mudou a vida dos morros. Em São Paulo, sem a intermediação de grandes facções, as drogas chegaram mais lentamente, vendidas pelos atacadistas a pequenos marginais dispostos a abrir uma "biqueira na quebrada".

 

Nessa nova realidade do crime, marcada pela competição e pela desordem, matar passou a ser visto como uma forma de mostrar força, cobrar respeito e intimidar eventuais agressores e rivais - e exterminar bandidos transformou-se em tarefa quase exclusiva das polícias. Edson lembra-se da história do finado Chicão, pequeno traficante que comprava drogas da boca que ele administrava. Chicão vendia crack para Maguila, um malandro da região, que o desafiava ao comprar mercadoria sem pagar. "O Chicão andava armado, mas não tinha apetite para cobrar. Chegamos pra ele e falamos: ‘E aí, sangue bom, como é que é? Você deixa o cara pegar os bagulhos? Não pode! Para você adquirir respeito tem que derrubar um cara de nome’." Chicão ouviu calado. Três dias depois, voltou dizendo que havia derrubado Lima, mendigo que morava na barraca de lona de um terreno invadido. "Quando ele falou que matou o mendigo, eu desacreditei. O pau comeu na orelha dele. Teve a boca tomada e precisou sumir da área", conta Edson. Chicão perdeu o respeito, sujou o nome "no meio". Três dias depois, amanheceu morto.

 

Edson liderou no começo dos anos 1990 a invasão de terrenos que surgiram nos arredores de conjuntos habitacionais locais, uma área privada, que ele ocupou, dividiu e depois vendeu. Foi a origem do Recanto dos Humildes. "As pessoas falam que no tráfico se matava por R$ 0,50, R$ 1,00. Mas não era o dinheiro que estava em jogo. Era a honra." No Recanto dos Humildes, havia até um cemitério clandestino em um grande descampado, mais tarde descoberto pela polícia.

 

No outro lado da cidade, no Grajaú, um bairro pobre da zona sul, César de Santana Souza, o Wolverine, ainda não havia completado 18 anos quando cometeu seu primeiro assassinato, no começo dos anos 1990. Um amigo dele, que estudava e trabalhava, foi morto durante um jogo de futebol na várzea. "Tinha uns pilantra, cheio de roubar o comércio, o cacete, que sentaram o pau no cara. Eu tinha amizade com o irmão dele, fui pra cima."

 

Anos depois, em 1999, César calculava ter matado mais de 50 pessoas. "Depois do primeiro, começou, entendeu? Fui matar junto com os amigos por consideração. Aí, começou a arrumar treta e a formar a família. Os caras vêm pra cima. A gente derruba. E nunca pára." Além dele, João Carlos Queiroz, o Zé Bonitinho, e José Idelvan dos Santos, o Flamarion, articulavam-se em uma rede de amigos que matava no Grajaú, motivados por rixas com grupos vizinhos e rivais. Eram as chamadas "bancas", famílias ou gangues, que começaram a despontar em meio ao caos do varejo das drogas e das armas abundantes. Um assassinato gerava ciclos de vinganças intermináveis e violentas. A década de 1990, que começou com 6.785 homicídios, foi marcada pelos assassinatos banais. Em 1999, a Grande São Paulo registrou 11.472 assassinatos - um recorde histórico.

 

No coração da zona sul, na sala simples e movimentada da diretoria da Escola Municipal de Ensino Fundamental Oliveira Viana, no Jardim Ângela, a diretora Jucileide Rodrigues Mauger, de 54 anos, lembra-se dos anos 1990 como a fase mais complicada dos seus quase 30 anos de carreira. Sem medo de errar, calcula que perdeu mais de 100 alunos assassinados. "Pior do que saber da morte era ver que o aluno estava ameaçado, que ia morrer, sem que a gente pudesse fazer nada. A gente pedia para irem embora, mas eles pareciam não ter medo e diziam: ‘Pra eu morrer, primeiro ele tem que me matar’", recorda.

 

A escola fica bem no meio de bairros onde alguns jovens formaram grupos rivais. Entre 1993 e 1999, as rixas entre as gangues do Bronx e dos Ninjas causaram a morte de 156 pessoas, segundo a polícia, em um raio de pouco mais de 3 quilômetros. No meio dessa batalha, Jucileide tentava transformar a escola em território neutro. "Não adiantava ficar condenando, moralizando, colocando rótulos. Isso a polícia já fazia. A gente tentava trazer eles para o nosso lado, falando a linguagem deles, respeitando e exigindo respeito. Se eles nos respeitassem, a escola estaria sempre de portas abertas. Todas as outras já estavam fechadas", diz.

 

Entre agosto e setembro do ano passado, um desses alunos deu notícias. Alexandre Rodrigues da Silva, de 34 anos, o Xandão, um dos líderes da Gangue do Bronx, escreveu três cartas da Penitenciária de Paraguaçu Paulista, no interior de São Paulo. Jucileide conheceu Alexandre em 1982, ano em que ele começou a estudar no Oliveira Viana. Aos 7 anos, o menino de olhar triste e cabelos encaracolados era obediente, mas tinha dificuldade para aprender. Repetiu três vezes a primeira série, duas vezes a segunda e duas vezes a quarta, antes de abandonar de vez os estudos, aos 17, e se tornar um dos muitos jovens matadores.

 

Quando foi preso, em 1998, condenado a 58 anos de prisão, Xandão era apontado como autor de dezenas de mortes na zona sul. Na delegacia, contou aos delegados como um grupo rival, os Ninjas, se fortalecia e passava a dominar a "quebrada" conforme os Bronx se esfacelavam, no final de 1996. A forte ofensiva dos Ninjas já vinha acontecendo desde 1995. Um dos líderes do grupo era o jovem Marcelo de Almeida Barbosa, o Belo, que aos 16 anos confessou cinco homicídios, que desencadearam novos assassinatos.

 

Esse efeito bola-de-neve dos homicídios acabava sugando quem não tinha nada a ver com a história. O motoboy Paulo Enoc, com 26 anos, morava no Jardim Tupi, área de origem do grupo dos Ninjas. Assim como os demais moradores, sabia das tretas e da fama dos matadores do bairro.

 

No emprego, era estimado pelos patrões, ganhava R$ 1 mil mensais e cuidava do filho de 5 anos, que tinha computador, plano de saúde e estudava em colégio privado. Em um domingo de 2001, Enoc chegou em casa depois do futebol e encontrou o primo Tiago todo machucado. Enoc perguntou o que tinha acontecido e soube que Luisinho e mais dois integrantes dos Ninjas haviam espancado o garoto. Depois da surra, a família de Enoc trancou-se em casa. Tinha medo de ver a casa invadida pelos Ninjas. Na noite de Natal de 1997, Luisinho e integrantes da gangue invadiram uma casa no bairro e cometeram uma chacina com sete vítimas, crime que assombrou a região.

 

Enoc e a família previam ser a bola da vez. E os recados começaram a chegar. Debora, irmã de Enoc, avisou a ele que Luisinho queria conversar a respeito da desavença com o primo no pagode do Bar do Sarará. Enoc comprou uma pistola na favela para se proteger. Ele chegou às 21h30 ao pagode. Era a noite de 7 de outubro de 2001. Nervoso, com muito medo, Enoc avistou Luisinho encostado no balcão do bar. A casa estava lotada. Ele foi direto tomar satisfação com o desafeto, quando viu Luisinho levar a mão em direção à cintura. Enoc imaginou que poderia receber um tiro. Em fração de segundos, decidiu apertar o gatilho da pistola 380.

 

Atirou, atirou e acabou matando Luisinho e Rogério, ferindo Sandra, José e Ricardo. Saiu correndo sem olhar para trás e jogou a pistola na Represa Guarapiranga. Depois pensou: "Minha vida acabou." Dos cinco atingidos, só dois eram integrantes dos Ninjas. Um dos mortos, Rogério, não tinha nada a ver com a história.

 

São Paulo chegava ao começo dos anos 2000. Os Ninjas e outros grupos de jovens que se articulavam para matar estavam em franca decadência. Haveria tempo de Enoc tentar dar a volta por cima em uma região que parecia rumar para o buraco, mas que conseguiu seguir adiante em nova fase.

 

2000 - Cansados de guerra
Numa tarde de março de 2006, João Carlos Queiroz, o Zé Bonitinho, parecia agitado dentro de um bar do Grajaú, depois que recebeu algumas ligações no celular. Na banca de matadores da região, Zé Bonitinho, César de Santana Souza, o Wolverine, e José Idelvan dos Santos, o Flamarion, estavam preocupados com bandidos poderosos que se fortaleciam. Testemunhas contaram em um inquérito policial que o autor da ligação convocara Zé Bonitinho para "debater". O interlocutor era um integrante do grupo de tia Neide, traficante que, segundo testemunhas, é ligada à organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). "Se tiver que debater, não tem problema. Eu vou", respondeu João Carlos ao interlocutor do celular.

 

Antes do encontro, Zé Bonitinho passou na casa de Wolverine e de outros quatro amigos para irem ao "debate". A banca precisava estar unida, mas a precaução de nada adiantou. No local, havia sido armada a chamada "casa de caboclo": cerca de 20 pessoas esperavam pelo grupo, com armamento pesado. Rendidos, cinco deles foram colocados dentro do carro, entre eles Zé Botinho e Wolverine. Em seguida, todos foram queimados vivos. Em março do ano passado, foi a vez de Flamarion ser assassinado. Ele vinha contribuindo com a polícia em investigações sobre essa chacina e foi morto a tiros na frente do filho de 6 anos.

 

Desde 2001, o PCC vem aumentando sua ascendência sobre o atacado e varejo das drogas nas quebradas. A desordem das rixas de gangues e das disputas do tráfico sucumbiu a um poder mais forte, situação que leva muitos a atribuir a queda dos homicídios a essa nova configuração do crime em São Paulo. Da prisão, Alexandre Rodrigues da Silva, o Xandão, escreveu à reportagem do Estado: "Não é só no (Jardim) Ângela que diminuiu (o índice de homicídios). Em outros lugares também. Porque os criminosos se organizaram e estão preocupados em ganhar dinheiro, com 157 (roubo), 12 (tráfico) e 155 (furto). Hoje tem bairros que para matar alguém só se for uma coisa muito grave. Não está mais como antes, que muitos morriam por brigas no bar, ônibus, etc." Na prisão, Xandão repensou a vida. Em cartas que escreveu à antiga professora Jucileide Rodrigues Mauger, ele conta que virou evangélico há cinco anos, que está terminando o ensino médio, que se casou, tem "dois filhos maravilhosos" e, quando sair da prisão, quer visitar a escola que marcou a sua infância e a dos irmãos. "A Thayná (filha mais velha) tem 10 anos e estuda na 4a série. É muito educada e estudiosa. A primeira coisa que ela faz quando chega em casa são os deveres da escola. Incentivo muito ela a ir à escola, à igreja e a obedecer os mais velhos. O Thiago tem seis meses. A Thayná tem ciúme dele e não solta ele pra nada. Hoje vejo que a educação dos pais e da escola é muito importante na vida dos nossos filhos. Fiz o Enem este ano pela primeira vez. De 63 perguntas, achei que ia acertar 15. Acertei 27", escreveu.

 

O Jardim Ângela, onde Xandão morava, vem se transformando aos poucos. As mudanças na ação da polícia no bairro se intensificaram a partir de 1998, com a criação da base comunitária. O sargento David Monteiro fez parte dessa virada. Entre 1991 e 1996, ficou afastado do policiamento nas ruas por ter participado de muitos casos de resistências seguidas de morte. Ficou "encostado" em serviços internos e burocráticos, era humilhado pelos oficiais e sofreu o suficiente para repensar sua trajetória de caçador de bandidos.

 

Quando voltou para as ruas, em 1996, no mesmo Capão Redondo, abraçou a idéia do policiamento comunitário e tornou-se uma referência importante para as escolas e a igreja. Fazia cooper com a tropa pelas ruas do bairro e distribuía ovos de chocolate na Páscoa; participou ativamente de debates para reivindicar hospitais e postos de saúde no bairro; deu palestras em escolas para discutir a atuação da polícia, e construiu ao lado da base comunitária um palco para números musicais. Faz 17 anos que David não se envolve em um caso de resistência seguida de morte. O último ocorreu em 1991.

 

Perto dali, no Jardim Tupi, Paulo Enoc, depois do assassinato de um dos últimos integrantes dos Ninjas, assumiu o crime na Justiça alegando legítima defesa. Enquanto esperava o julgamento, trabalhou na mesma empresa e montou uma associação de bairro, a Família Tupi City, para organizar o time de futebol local, ginástica para idosos e montar uma cooperativa de costureiras. No dia 11 de junho, ele foi inocentado por um júri popular. "Hoje meu filho tem 11 anos. É nele que penso. Não quero que sofra o que eu sofri", afirma Enoc.

 

Muitas coisas ruins vêm à tona em momentos de crise, como ocorreu no auge dos assassinatos em São Paulo. Os moradores de bairros violentos, estigmatizados, não conseguiam empregos quando diziam onde viviam. Diadema perdeu indústrias, assim como toda a zona sul de São Paulo. Mas o sofrimento parece ajudar também a construir um ambiente receptivo a mudanças. E acabar com as ilusões a respeito da eficácia dos assassinatos e da justiça privada. "Em vez de resolver problemas, os homicídios criam outros ainda mais complicados. Respeito não se impõe à força, mas se conquista com humildade", avalia o pastor Edson Mendes, o ex-traficante Tocha.

 

Em 1995, depois de anos comandando o tráfico, Tocha estava cansado da vida, quando um amigo o chamou para visitar a igreja. Ele foi com duas armas na cinta. Durante o culto, ouviu a história do profeta Oséias, a quem foi ordenado que se casasse com uma prostituta. Achou que a mensagem era para ele e que Deus aceitaria um traficante arrependido em suas fileiras. "Decidi mudar naquela noite. Nunca dormi tão bem. Eu estava cego e com os dias contados. A violência não me levaria a lugar nenhum. Mas Deus tinha um plano para mim", diz. Com outros religiosos, ex-traficantes e ex-matadores espalhados em igrejas de bairros pobres, o pastor hoje luta para converter aqueles que permanecem no mundo do crime. "Eu sei a língua deles", resume.

 

Em Diadema, o comerciante Laércio Soares já havia percebido, em 1988, como os justiceiros eram uma escolha equivocada. Naquele ano, foi eleito vereador na cidade. Como presidente da Câmara de Diadema, em 1999, ajudou a mobilizar as lideranças locais num diálogo que culminou, três anos depois, na aprovação da Lei Seca. Bares teriam de ficar fechados depois das 23 horas. "A cidade é outra. Ano que vem inauguramos o primeiro shopping. Muitas indústrias voltaram e hoje discutimos no Plano Diretor para onde irão os empreendimentos de classe média alta na cidade, já que esse tipo de demanda começou a aparecer", afirma.

 

Uma comunidade a caminho do fundo do poço, saturada pela violência, fica mais aberta a cooperar com o salva-vidas quando ele aparece. Até meados dos anos 1990, contudo, São Paulo não sabia sequer quem poderia exercer esse papel. Mesmo na academia de polícia, quando um policial era questionado sobre como combater os assassinatos, respondia que se tratava de um problema social, a ser solucionado em prazo longo, talvez numa outra geração. "Era uma visão forte. Depois que desafios como a miséria, a má distribuição de renda, a educação, etc., fossem enfrentados, os assassinatos cairiam", recorda-se o coronel Luiz Eduardo Arruda, historiador da PM.

 

A resposta também funcionava para que a corporação lavasse as mãos das responsabilidades sobre o crime.

 

A situação começou a mudar depois de dois acontecimentos marcantes. Em 1997, a PM esteve à beira de virar de ponta-cabeça depois do episódio da Favela Naval, quando policiais de Diadema foram flagrados por um cinegrafista amador torturando moradores numa blitz. Uma pessoa morreu. As imagens percorreram o mundo e o governo do Estado reagiu enviando ao Congresso projeto de lei que desmilitarizava o perfil da corporação.

 

Nessa mesma época, Nova York apresentava ao mundo os resultados de um novo modelo de gestão de segurança pública que havia reduzido homicídios e crimes em um curto período de tempo. Mudava-se assim um importante paradigma. Uma polícia ostensiva, que age de forma eficiente, capaz de estar no lugar onde os crimes acontecem, pode derrubar os assassinatos em poucos anos. Os assassinatos não eram problemas para a próxima geração. "Foi um momento histórico. A crise provocada pela Favela Naval aumentou dentro da polícia a força daqueles que já vinham pensando em maneiras de usar a tecnologia no combate ao crime. Esses projetos ganharam espaço político na corporação e provocaram uma pequena revolução nos métodos de gestão", avalia o coronel Arruda.

 

As mudanças, que começam na PM a partir de 1998, serviram para direcionar as ações de combate a homicídios em diferentes esferas. A idéia tinha um eixo principal: quanto mais o governo, municípios, organizações não-governamentais, polícia, igrejas e escolas ajudassem a aumentar a sensação de ordem, maior seria a percepção de que as leis deveriam ser respeitadas e de que não havia espaço para os homicidas ditarem as regras impunemente.

 

Na PM, entre as mudanças principais, fórmulas matemáticas substituíram critérios políticos para distribuir os efetivos policiais; softwares modernos de registros de crimes em tempo real tornaram mais eficiente a gestão de 90 mil homens e 15 mil viaturas. "Hoje, mais do que nunca, em vez do policiamento empírico, temos um policiamento científico", afirma o major Alfredo Deak Júnior, assessor de Tecnologia de Informação da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

 

O resultado da gestão policial ficou evidente depois que foram aprovadas as leis que restringiram o porte de arma no Brasil. A apreensão de armas, que em 1995 estava na casa dos 6 mil a 7 mil por trimestre, aproximou-se dos 12 mil em 1999. O aumento da apreensão ocorreu simultaneamente a uma diminuição da concessão de registros de arma, que despencaram de 31 mil em 1995 para 7 mil em 2000.

 

No mesmo período, com base nas trocas de informações sobre boas práticas policiais no mundo, tanto delegados da Polícia Civil como oficiais da PM passaram a se responsabilizar pelos resultados e metas de criminalidade de um mesmo território, o que estimulou a parceria entre as polícias, que conversavam pouco no passado. A polícia ainda pôde contar com uma participação mais direta da população na denúncia de crimes.

 

Cansados da matança, moradores denunciam homicidas que assombravam bairros violentos, ajudando a colocar assassinos nas prisões. O Disque-Denúncia começou a funcionar em 2000 e ajudou a furar a lei do silêncio. Quatro anos depois, o serviço já registrava mais de 96 mil ligações sobre fatos relacionados a homicídios, que contribuíram na captura de 2.236 criminosos procurados pela polícia. Com a reformulação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, a Polícia Civil conseguiu aumentar em mais de oito vezes a prisão de homicidas entre 2001 e 2004. Os homicidas contumazes foram alvos prioritários.

 

Menos armas e homicidas nas ruas, intervenções públicas lideradas por prefeituras focadas em regiões violentas, mudanças na gestão da polícia, reação da sociedade via ONGs, cultura e igreja, somadas ao envelhecimento da população acabaram transformando o antigo ciclo vicioso de assassinatos em um ciclo virtuoso. Um homicídio a menos, graças à lógica da violência na Grande São Paulo, era capaz de evitar uma sucessão de vinganças, o que levou os índices a despencarem. Os 11.472 assassinatos de 1999 já haviam caído para 5.317 casos em 2005. Segundo o governo estadual, foram 3.142 mortes no ano passado.

 

Ironicamente, as mesmas medidas que ajudaram a criar uma sensação de ordem nos lugares mais violentos trouxeram novos desafios para a política de segurança pública do Estado. O trabalho mais eficiente da polícia, que fez a população carcerária passar de 54 mil presos em 1994 para 144 mil em 2006, ajudou no fortalecimento do PCC. "A grande capacidade atual de o PCC intermediar conflitos, desde briga de traficantes até desavenças familiares em algumas regiões, nos coloca hoje uma pergunta importante: até que ponto o Estado ainda é capaz de garantir o monopólio da violência e da gestão da ordem na sociedade?", questiona a socióloga Vera da Silva Telles, da Universidade de São Paulo. "Lidar com essa nova realidade é o grande desafio da sociedade contemporânea."

 

Em meio a tantas novidades, a diretora Jucileide, da Escola Oliveira Viana, talvez tenha sido a única pessoa que permaneceu a mesma. Vaidosa, continua caprichando na tintura do cabelo e no retoque das unhas - sempre em tons alegres. Casou, mas não teve filhos. Cuida de 9 cachorros e de 18 gatos. Perto de se aposentar, depois de décadas de sofrimento, acha que valeu a pena seguir firme em sua crença sobre o papel da educação. "Educar é acreditar na transformação. O professor precisa ter fé no ser humano. As pessoas não nascem ruins. Elas podem mudar", conclui.