Política

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007, 04:10 | Online

Surpreendido, Planalto quer entendimento com oposição

José Múcio Monteiro afirma que governo não reapresentará a proposta ao Congresso em fevereiro

Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Visivelmente abatido pela maior derrota já sofrida pelo governo, o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, em entrevista, concedida à 1h25 desta quinta-feira, 13, "lamentou profundamente a politização do debate" que resultou na votação que derrubou a CPMF. Monteiro reconheceu que o governo foi surpreendido e afirmou que é possível tirar duas lições do episódio. "É preciso pensar na reforma tributária" e buscar um "melhor entendimento" com a oposição.

 

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Segundo José Múicio, o governo não sabe ainda de onde vai tirar os recursos para garantir a concessão do bolsa-família e o atendimento de saúde na rede pública a mais de 100 milhões de brasileiros.

 

O ministro-chefe disse ainda que o governo não pretende reapresentar a proposta em fevereiro, quando o Congresso retoma suas atividades. Apesar disso, Monteiro explicou que isto ainda será definido em conversa, provavelmente ainda na manhã desta quinta-feira, com os ministros da área econômica. Segundo ele, pode ser que a equipe econômica "tenha uma solução diferente, mais emergencial". O ministro-chefe não respondeu se tal medida poderia ser um novo imposto e se a solução poderia ser apresentada ainda este ano.

 

"Vamos procurar as soluções, saber onde vamos ter de promover os cortes e isso atingirá estados e municípios. Mas temos a absoluta tranqüilidade de que o governo terá de procurar novos caminhos para que estes brasileiros não fiquem desassistidos", disse ele, negando que o bolsa família possa ser cortado, como setores do governo ameaçaram antes da votação. "Conhecendo o presidente Lula, como eu conheço, eu tenho absoluta certeza de que não haverá suspensão do programa e que os mais desassistidos deverão ser os últimos a sofrer conseqüências", completou.

 

'Não é derrota'

 

José Múcio insistiu que não foi uma derrota, justificando que "este imposto não foi criado por este governo". Ele frisou que são R$ 40 bilhões a menos no orçamento "que eram todos aplicados". Questionado se poderia haver redução do superávit para sobrar dinheiro, ele disse que a resposta virá após a reunião entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o do Planejamento, Paulo Bernardo.

 

O ministro-chefe ainda ironizou ao dizer que a quinta-feira será tranqüila porque "ninguém vai aparecer para pedir dinheiro". E sobre o resultado da votação da DRU também alfinetou. "Ainda tiveram 18 contra a DRU?", comentou ele, que já concedia entrevista avaliando a derrota, enquanto a votação prosseguia no Senado.

 

Traição

 

Apesar de ter alertado que aqueles que votaram contra o imposto "terão de arcar com a sua responsabilidade, assim como o governo", o ministro José Múcio evitou falar em traição ou caça às bruxas - aos senadores da base - que não votaram a favor do imposto. "Não dá para falar em traição. Vou ver amanhã (quinta-feira) quem é que votou a favor. Não vou ver quem votou contra. É uma democracia. Não fomos nós que fizemos os senadores reféns. Uns partidos fizeram reféns, outros não", declarou ele, acusando, indiretamente a oposição de ter ameaçado quem votasse a favor da prorrogação da CPMF.

 

Apesar de se dizer surpreso com o resultado, José Múcio disse que os 45 votos que o governo recebeu sempre estiveram na contabilidade. "Toda vez que fazíamos a ronda, chegávamos nos 45", comentou ele, esclarecendo que o Planalto "achou que a oposição estava aberta ao diálogo".

 

José Múcio disse que o governo aceitará a decisão do Senado. "Isso é da democracia, o governo recebe o resultado com serenidade e sabendo que é uma derrota de muitos brasileiros que são atendidos por estes recursos que ora, o Senado Brasileiro, em um momento histórico, em uma noite histórica, resolve tirar da vida dos brasileiros", colocou. Para o ministro, a politização fez a sociedade brasileira saísse perdendo, porque "houve uma separação se era vitória do governo ou da oposição, esquecendo-se daqueles que eram atendidos pelos recursos gerados pela CPMF".

 

Ao falar das lições que o governo deve tirar do resultado, o ministro disse que "a maior lição de todas é a necessidade da reforma tributária". Comentou ainda que "é preciso estreitar as relações com o Senado", para que sejam "mais parceiros nesta queda de braço, que é ruim para o País, ruim para o governo, ruim para o Legislativo". Ele disse também que "há necessidade de se ter uma reforma tributária para que estas coisas periódicas ou transitórias não nos surpreendam como aconteceu esta noite".

 

Consciência tranqüila

 

José Múcio falou que tem "a consciência tranqüila" de que o governo tentou o diálogo e um acordo, que atendesse também os partidos de oposição. "Mas, de repente, nós nos deparamos mais com uma disputa política do que a procura de um caminho que apontasse para um benefício para a sociedade", declarou. Ele acrescentou que o governo vai procurar o Senado e os partidos de oposição para "acabar com este divisor de águas de governo e oposição porque, nesta briga de poder, milhões e milhões de brasileiros estão sendo prejudicados".

 

 

O ministro, que acompanhou toda a votação de seu gabinete, durante um bom tempo ao lado do ministro Guido Mantega e do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no quarto andar do Planalto, afirmou que não conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois que a votação foi encerrada. Ele sugeriu que Lula não ficou esperando o resultado, já que embarca às 7 horas desta quinta-feira para Caracas. "Durante um bom tempo ele acompanhou, comentamos, mas ele não chegou até o final, como nós", revelou. José Múcio contou que conversou com Lula, até mais ou menos meia noite, e que ele "estava absolutamente seguro", acrescentando que o presidente aceitará com "tranqüilidade o resultado do Senado".

 

Embora fosse muito tarde, os gabinetes com os assessores palacianos estavam lotados, com grande parte dos primeiros escalões acompanhando todo o desenrolar dos acontecimentos. O presidente Lula foi para casa às 20 horas de quarta-feira, 12. A decepção e o abatimento entre os assessores era visível e alguns chegaram comentaram que derrota aconteceu no mesmo dia em que o presidente Lula teve a melhor aprovação de seu governo este ano.


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