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Justiça decreta prisão do filho do cineasta Eduardo Coutinho

Daniel Coutinho deve ser ouvido por um psicólogo da Polícia Civil; amigos e familiares estiveram no velório do cineasta

03 de fevereiro de 2014 | 14h 30
Marcelo Gomes - Rio - O Estado de S.Paulo

O cineasta Eduardo Coutinho - Leo Martins/Agencia O Globo/EFE
Leo Martins/Agencia O Globo/EFE
O cineasta Eduardo Coutinho

Atualizado às 17h40

O corpo do documentarista Eduardo Coutinho foi enterrado nesta segunda-feira, às 16h30, no cemitério São João Batista, no Rio, sob muitos aplausos, dos cerca de 300 amigos e admiradores. No momento do sepultamento foi puxada a saudação 'companheiro Eduardo Coutinho, presente!'.


Prisão do filho

A Justiça do Rio decretou, neste domingo (2), a prisão preventiva de Daniel de Oliveira Coutinho, de 41 anos, acusado de ter esfaqueado o pai, o cineasta Eduardo Coutinho, de 80, e a mãe, Maria das Dores Oliveira Coutinho, de 62, no apartamento da família, na zona sul do Rio de Janeiro. A prisão foi decretada no plantão judiciário, pela juíza Nathalia Calil Miguel Magluta.O corpo do cineasta Eduardo Coutinho será enterrado nesta segunda-feira, 3.  Maria das Dores e Daniel  estão acordados e conscientes no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, zona sul do Rio. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, o quadro deles é estável. Eles permanecem internados na Unidade Intermediária (UI).

"A prisão mostra-se formal e materialmente legal, não sendo caso de relaxamento. Quanto à conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, entendo que assiste razão à autoridade policial e ao Ministério Público, sendo, por ora, necessária a custódia cautelar do indiciado. Com efeito, à luz dos elementos informativos contidos na comunicação da prisão em flagrante do indiciado, entendo que sua prisão preventiva deve ser decretada para a garantia da ordem pública, da futura aplicação da Lei Penal e da futura instrução criminal, havendo diversas diligências policias ainda pendentes de realização com vistas à integral instrução da causa", escreveu a magistrada em sua decisão.

Ainda segundo a juíza, "segundo se extrai dos autos, o indiciado foi apreendido logo após confessar, na frente de vizinhos, ter desferido contra seus pais golpes de faca, levando a óbito seu genitor e deixando sua genitora em grave estado de saúde no Hospital. Entendo que há necessidade de se resguardar a instrução, a fim de que as demais provas sejam colidas pela autoridade policial garantindo-se, ao final, a instrução criminal".

Indiciado por homicídio e tentativa de homicídio, Daniel Coutinho está internado no Hospital Miguel Couto sob custódia policial. Após o crime, ele tentou se matar com duas facadas no abdome. Um psicólogo da Polícia Civil deve ouvi-lo ainda nesta segunda-feira.

Vizinho

O vizinho chamado pelo filho do cineasta depois de supostamente ter matado o pai afirmou que ele estava "muito calmo" ao bater à porta. Daniel Coutinho já teria desferido facadas na própria barriga e estava "com as vísceras saindo", conforme o morador, que prefere não ter a identidade divulgada, sob a justificativa de que seria criticado no prédio.

"Ele bateu na minha porta porque somos vizinhos de porta e temos uma relação amigável. Disse que tinha libertado o pai e a mãe e tentado se libertar, embora eles não entendessem isso, e que não era a hora dele. Daniel me pediu socorro, que eu chamasse a ambulância. Eu desci para pedir ajuda ao porteiro e minha mulher conversou com ele. Ela teve a presença de espírito de se lembrar da Dora (mulher de Eduardo Coutinho), que estava gemendo num outro cômodo depois de ter escapado de Daniel, e aí os bombeiros a levaram. Ela saiu muito abalada, mas lúcida. A última coisa que pediu foi pra não deixarem o Pedro (outro filho do casal) ver o pai morto no meio da sala."

O morador conhece a família há 30 anos, desde que se mudou para o edifício, na Lagoa (zona sul). Conversava com Eduardo Coutinho sobre cinema quando se encontravam no elevador e via Dora como uma dona de casa tranquila e afetuosa. O vizinho descreveu Daniel Coutinho como "quieto". Desde criança, era introspectivo.

"Ultimamente, estava pior, não o via sair de casa há uns três ou quatro meses. Só quando aparecia na porta para receber comida pedida em restaurante. Que eu saiba, não trabalhava." Ele ficou chocado ao se deparar com Daniel Coutinho à porta. "Ele estava surtado, mas muito calmo. Tinha as feridas abertas e as vísceras saindo. Fui até a porta do apartamento com ele e ele ainda fumou um cigarro."

Repercussão

A irmã do cineasta Eduardo Coutinho, Heloísa de Oliveira Coutinho, chegou por volta das 11h30 ao velório do irmão. Heloísa disse que Coutinho era um "ótimo pai", o que torna ainda mais incompreensível o ataque.  "Nós falávamos pouco porque eu moro em São Paulo. Ele conversava muito com meu outro irmão, mas não acompanhávamos o dia a dia da família. (A morte) foi uma completa surpresa."

Ela disse que o sobrinho Pedro ligou por volta das 13h para contar sobre a tragédia. "O Eduardo era um ótimo pai, mas tinha uma vida muito discreta, apesar de ser muito engraçado. Ele era muito original", afirmou. "Meu irmão foi homenageado quando completou 80 anos e agora está sendo lembrado novamente por seu trabalho", acrescentou.

A diretora de teatro Bia Lessa, amiga de 30 anos do cineasta Eduardo Coutinho, disse há pouco, no velório, que ele mantinha a vida familiar e a profissional separadas, e não comentava os problemas mentais do filho Daniel. "Ele era um resistente, um alicerce. Não questionava essa situação, apenas aceitava", afirmou.

Bia Lessa lembrou que Coutinho tinha a saúde frágil por conta dos muitos anos de tabagismo.

"Era precário, mas também uma pessoa vital. Os médicos diziam que se ele não parasse de fumar, morreria, e ele não parava. Ano passado foi internado, mas estava melhor", disse.

A cantora Adriana Calcanhotto, amiga e admiradora do documentarista, disse há pouco, no velório, que costumava assistir aos filmes dele em sessões fechadas antes das estreias e que é fã de seu modo "de pensar e fazer cinema". "É único e original".

Também no velório, o produtor Luiz Carlos Barreto pediu para que todos tenham "compaixão" por Daniel, de 41 anos, filho do cineasta Eduardo Coutinho. "Devemos ter compaixão, porque ele terá uma vida (difícil). Espero que ele sobreviva. Não vamos desejar o mal, porque acho que Coutinho teria esse desejo de ver esse filho amado curado. Acho que ele não leva nenhuma mágoa desse filho, porque o Coutinho tinha muita compaixão", afirmou o produtor.

Para Barreto, a morte do cineasta foi "uma perda para o cinema universal". "Coutinho deu ao cinema brasileiro a aceitação do documentário pelo público e revolucionou a linguagem ao introduzir a dramaturgia", disse. Apesar dos 50 anos de amizade, Barreto afirmou que o cineasta era muito reservado e não compartilhava os problemas privados."Dói muito porque ele partiu de uma maneira trágica e traumática. Mas ele fez história e vai permanecer em suas obras e nos discípulos que criou".

Moradora do Edifício Master, em Copacabana, zona sul, e primeira personagem a contar sua história no documentário homônimo, a professora aposentada Vera Lúcia Maciel, de 62 anos, lembrou com saudade das gravações do filme. "Não havia separação de importância entre ele e nós, moradores. Nós nos divertíamos muito. Antes dele nosso prédio era uma bagunça e hoje é um condomínio quatro estrelas". Moradora do Master desde 1953, Vera Lúcia disse que a réplica do Kikito de Ouro (prêmio máximo do Festival de Gramado), ganho pelo documentário, está no condomínio até hoje.

A artesã Fátima Gomes Pereira, de 55, participou dos filmes Babilônia 2000 e Canções. Muito emocionada, ela relembrou a amizade com o "velhinho", como costumava chamar Coutinho. "Ele sempre me chamava para cantar. Nos encontrávamos nas estreias dos filmes e depois saiamos para beber. Ele era uma pessoa muito boa".

Fátima disse que conheceu a família Coutinho, mas tinha pouco contato com a esposa e o filho do cineasta. "Para mim, ele (Daniel) era uma pessoa legal. Foi lamentável".

(Com reportagem de Roberta Pennafort e Thaise Constancio)






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