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Arnaud Rodrigues morre em naufrágio no Tocantins

Artista de múltiplos talentos, Rodrigues teve atuações marcantes como cantor, compositor, ator e comediante

Julia Baptista e Edmundo Leite,

16 Fevereiro 2010 | 22h45

Morreu o multiartista Arnaud Rodrigues. O artista de 68 anos estava em uma embarcação que virou e afundou no lago da Usina Hidrelétrica de Lajeado, no Tocantins, nesta terça-feira de carnaval.

 

Segundo o Corpo de Bombeiros, havia nove  pessoas na embarcação, incluindo o piloto, que está desaparecido. A mulher e dois netos de Arnaud Rodrigues estavam no barco, mas sobreviveram ao naufrágio. Equipes da Marinha e dos Bombeiros fazem buscas no local.

 

"Vô Bate Pá Tu"

 

Cantor, compositor, ator, redator e comediante, Arnaud Rodrigues ficou conhecido nacionalmente por esse último ofício. Seus  últimos trabalhos na televisão foram  na "Praça é Nossa", do SBT, onde fazia o papel do Coronel Totonho, entre outros personagens.

 

Nos anos 70 fez muito sucesso por sua atuação ao lado de Chico Anysio no quadro "Baiano e os Novos Caetanos" do programa "Chico City". Além de escrever textos para o programa e para os shows do parceiro, compunha músicas para os personagens que satirizavam  e homenageavam Caetano, os Novos Baianos e outros artistas da época.

 

  O sucesso de alguma de suas canções  nessa época extrapolou  o personagem e a comédia,  chegando a conquistar as paradas de rádios e programas de TV, além de render um ótimo registro em disco,  que, puxado pela divertida "Vô Bate Pá Tu", teve ótimas vendagens. Um clássico dos anos 70. 

 

Se a música mais famosa  podia ser vista como tiração de onda com o clima pesado  para os artistas na ditadura, ainda que camuflada em peça de comédia,  havia outras de um lirismo e beleza surpreendentes para quem esperava apenas um disco de comediante.  A parceria com Chico ainda rendeu outros discos e Arnaud Rodrigues também gravaria outros individualmente.  

 

Ouça:
Vô Batê Pá Tu
Folia de Rei
Tributo ao Regional
Nos anos 80, participou como ator de  novelas da Rede Globo, entre elas o megasucesso "Roque Santeiro" (1985), na qual fazia o papel do "ceguinho" Jeremias,  que ficava acompanhado de um garoto nas escadarias da igreja  e  enxergava mais que os demais personagens da trama de Dias Gomes. Outro papel marcante na teledramaturgia foi como o Soró da novela vespertina "Pão Pão Beijo Beijo", em 1983.

 

Cartola

 

Nos últimos anos, passou a conciliar a vida artística  com a de cartola de futebol  em Tocantins, para onde se mudou em 1999.  “Eu vim fazer dois shows aqui em Palmas e como sempre gostei de morar no mato, onde passei minha infância, acabei me identificando muito com o clima daqui.  Mas o que mais me chamou a atenção é que pude acompanhar como se constrói uma cidade.  Quando dividiram Goiás para a criação do estado do Tocantins, em 1988, eu não acreditava que num país como o Brasil houvesse condições de isso dar certo.  Como eu morava no Rio e toda semana tinha de viajar a São Paulo, resolvi apenas trocar o trecho.  Agora, é Palmas-Brasília”, disse ao repórter Alfredo Luiz Filho, do Jornal da Tarde, em 2004.

 

“É uma paz.  Você acorda e vê tucano, arara...  Parece coisa de cinema.  Palmas é  uma grande capital, mas com costumes de cidadezinha do interior”, contava na reportagem sobre sua nova atividade.  Só se mudou para Palmas, frisava,  depois de convencer a família toda a ir junto.  Com a mudança,   os filhos passaram a administrar uma videolocadora e uma imobiliária na cidade.

 

A carreira de cartola Surgiu por acaso, contou na época:  “Sempre fui ‘peladeiro’.  Joguei futebol de salão pelo Vila Isabel (do Rio de Janeiro)....  Aí me convidaram e eu assumi como o 3º vice-presidente.  No final do ano passado, o presidente (José Pinto) pediu afastamento para resolver problemas particulares, mas nenhum dos dois vice-presidentes foi  capaz de liderar o Palmas.  Aí assumi.” Em pouco mais de oito meses,  Arnaud comemorava a conquista do tricampeonato  estadual e o oitavo lugar na Copa do Brasil.

 

Mensagem crítica

 

Apesar do sucesso nos gramados, descartava deixar a  carreira artística pelo futebol. “Eu sempre trabalhei para o público que gosta de arte.  Só que agora, esse público é o da arte do futebol.  Se eles quiserem, continuo à frente do  Palmas por mais um ano.  Mas se aparecerem pessoas capacitadas para dar prosseguimento ao trabalho que estou fazendo, saio sem problema nenhum.  Jamais vou parar de trabalhar como artista por causa do futebol."

Naquele 2004 deixou o programa humorístico do amigo Carlos Alberto de Nóbrega no SBT   para se dedicar apenas aos shows e ao futebol. E explicou a decisão: “O humor que eu faço é diferente dos outros.  Sempre tem uma mensagem crítica  atrás da personagem e do texto que interpreto.  Só que chegou um momento em que não tinha mais nada a ver com o programa.  E como a vida de artista é sempre muito confusa, preferi sair”, explicou. “Tenho alguns projetos para retornar.”

 

Sobre os múltiplos talentos, deu pista sobre o qual mais se sentia mais à vontade. "É complicado falar qual ofício eu mais gosto.  São tão distintos.  Como músico, você trabalha com um monte de gente.  Como ator, sempre faz  personagens diferentes.  Desses todos, acho que prefiro escrever, criar.”

 

(Com trechos extraídos da reportagem "Arnaud Rodrigues  De ator a cartola no Tocantins", de Alfredo Luiz Fillho, publicada no Jornal da Tarde em 09/8/2004) 

 

Assista a um número de Arnaud Rodrigues com Chico Anysio:

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