Ataulfo Alves, humanidade e tristeza de um sambista mineiro
Biografia, 2 CDs e shows, no centenário de nascimento do compositor visto como o de maior sucesso da história
Um dos maiores sambas da história quase não dá pé. Ai que Saudades da Amélia irritou Mário Lago quando Ataulfo Alves, parceiro para quem entregou a letra, mexeu em boa parte da estrutura da composição. Apesar do mal-estar, Ataulfo procurou o editor Emílio Vitale para fazer a gravação. Mas nenhum dos cantores cogitados, como Cyro Monteiro, Orlando Silva e Moreira da Silva - que a classificou de "marcha fúnebre" -, topou interpretar o samba. A recusa, segundo Ataulfo, devia-se ao ritmo "revolucionário". A solução: ele mesmo o cantou.
Veja também:
Ouça trecho de "Amélia", de Ataulfo Alves
Ouça trecho de "Vai, mas vai mesmo"
Mas o problema estava só no começo. A gravadora quis lançá-lo no carnaval de 1942. Mário Lago tinha de assinar uma autorização - pediu um adiantamento, liberado somente porque Ataulfo permitiu que a gravadora assumisse o controle sobre o samba. Ele fez o pior negócio da carreira, segundo o jornalista Sérgio Cabral. A música de maior sucesso foi a que rendeu menos direitos autorais para o seu autor. Ao menos, houve um consolo: no Aurélio Amélia se tornou sinônimo de "mulher que aceita toda sorte de privações e vexames sem reclamar, por amor a seu homem".
O prejuízo financeiro, porém, não atrapalhou Ataulfo, que saiu de Miraí, cidade mineira a 335 km de Belo Horizonte, para ser um dos compositores de maior sucesso da música brasileira, apreciado por Chico Buarque, Roberto Carlos, Itamar Assumpção, entre outros. Essa é uma das revelações de Sérgio Cabral em Ataulfo Alves - Vida e Obra (Lazuli Editora, 176 págs., R$ 30). A biografia integra os eventos em torno do centenário de nascimento do compositor, completado em 2 de maio deste ano. A preservação da memória de Ataulfo é um trabalho de cerca de 40 anos mantido por um dos filhos do sambista, Ataulpho Alves Júnior. Confira no site do evento a programação completa da efeméride.
Seis shows no Centro Cultural São Paulo - deste sábado, 5, até o próximo dia 20 - lançam Ataulfo Alves 100 Anos, álbum duplo da Lua Music. Os dois discos contém 32 sambas do compositor mineiro, que uniu mineirice a carioquice em letras e melodias, interpretados por mais de 30 convidados: Do disco 1 participam, entre outros, Elza Soares (Na Cadência do Samba); Elba Ramalho (Mulata Assanhada); Ná Ozzetti (Meus Tempos de Criança); Germano Mathias (Pois É) ; Luiz Ayrão (Amor de Outono); Alaíde Costa e André Mehmari (Infidelidade). Entre os intérpretes do CD 2 estão Beth Carvalho (Leva Meu Samba); Fabiana Cozza (Vai, Mas Vai Mesmo); Luiz Melodia (Errei, Erramos), Quinteto em Branco e Preto (Na Ginga do Samba). Os arranjos são de André Bedurê e Ronilson Pascoal. Nos shows deste fim de semana, às 19h deste sábado, interpretam clássicos de Ataulfo, Elza Soares e Milena; domingo, às 18 h, é a vez de Maria Alcina e 2ois. (Confira no site do Centro Cultural mais informações sobre os shows)
"Poucos compositores e cantores tiveram ou têm um comportamento tão profissional quanto Ataulfo", diz Sérgio Cabral. "Seus músicos e pastoras estavam sempre com roupas adequadas, as apresentações começavam na hora certa e sua relação com o público foi marcada pelo respeito e pela simpatia."
Autor de Bonde São Januário, que exalta o trabalhador, Ataulfo colocou sua arte a serviço da política. Compôs Ademar Dá Jeito para campanha de Ademar de Barros. Foi getulista. "E um ingênuo em matéria de política, que nunca escondeu a admiração e o afeto por Getúlio Vargas, homenageado com músicas nas duas vezes em que ocupou a presidência da República", diz Sérgio Cabral. A "ingenuidade" não valia para os negócios musicais. Um dos fundadores da União Brasileira dos Compositores, "ele acabou sendo um especialista em direitos autorais, pois sabia que ali estava a única forma de demonstrar que compositor é um trabalho como outro qualquer".
Em 1961, consagrado pelos sucessos Pois É, Sei Que É Covardia, Mulata Assanhada e Meus Tempos de Criança, Ataulfo foi eleito pelo colunista Ibrahim Sued o homem mais elegante do País. Ele dizia usar ternos com 10 anos de vida. A elegância transparecia em seus sambas. O jornalista Lúcio Rangel afirmava haver "um toque de melancolia e humanidade" nas composições de Ataulfo.
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