Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias > Cultura
Início do conteúdo

Casa da mãe Jurema

Sai amanhã 'Solar da Fossa', livro que conta saga da pensão onde fermentou, nos anos 60, o caldo do pop nacional

07 de julho de 2011 | 6h 00
Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

De 1964 a 1971, uma pensão instalada num casarão de dois andares na Avenida Lauro Sodré, em Botafogo (onde hoje é o Shopping RioSul) abrigou a grande faísca da cultura pop brasileira. Ali viveram, em momentos simultâneos ou distintos, Gal Costa, Tim Maia, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Betty Faria, Antônio Pitanga, Zé Kétti, Guarabyra, Caetano Veloso, entre inúmeros outros.

Tardes no jardim. A criação estava no ar - Arquivo/Agência O Globo
Arquivo/Agência O Globo
Tardes no jardim. A criação estava no ar

Os de passagem eram igualmente famosos: o bailarino Lenny Dale, o escritor francês Jean Genet, o cantor Milton Nascimento, o ator José Wilker, o artista plástico Hélio Oiticica. Ali foram gestadas canções como Alegria Alegria, de Caetano Veloso, e Sinal Fechado, de Paulinho da Viola. O guitarrista dos Fevers e o policial do esquadrão da morte Mariel Mariscott exibiram sua batida (o primeiro) e suas correntes de ouro (o segundo).

"Curtíamos a falta de comida e a luta pelo sucesso", conta hoje a atriz Darlene Glória. O Solar da Fossa ficou para a cultura pop brasileira como o Chelsea Hotel para a cultura pop nova-iorquina (no lendário Chelsea viveram artistas como Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Joni Mitchell, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Leonard Cohen e outros). O problema é que a história do Solar esfarelou-se com sua demolição, em 1974.

Finalmente, chega às livrarias amanhã um volume que conta toda essa história, remontada pelo escritor curitibano Toninho Vaz (autor de O Bandido que Sabia Latim, biografia de Paulo Leminski). Solar da Fossa - Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias (Ed. Casa da Palavra) chega com um atraso de 3 anos - chegou a ser impresso na Ed. Record, mas um desacordo entre autor e editora melou a publicação.

Na pensão da sexy e misteriosa Dona Jurema, figura que excitava a imaginação dos moradores (e que é descrita por Caetano Veloso no livro Verdade Tropical), o mundo cultural brasileiro como o conhecemos hoje dividia cigarros e bebidas e sonhava com o futuro. Chico Buarque conheceu Marieta Severo ali naquele pátio. Caetano compôs ali sua primeira canção tropicalista, Paisagem Útil.

Solar da Fossa era o nome de "fantasia" do local, batizado pelo carnavalesco salgueirense Fernando Pamplona - que foi parar lá após separar-se da mulher. Seu verdadeiro nome era Pensão Santa Terezinha. O homem ia à Lua, vivia-se a Era de Aquarius, o AI-5 tolhia as liberdades políticas, Charles Manson assassinava Sharon Tate. No Solar, o clima era outro: solidariedade, parcerias artísticas, delírio, ritmo dionisíaco regado a uísque London Tower e conhaque Dreher. E galhofa. O compositor Guarabyra dedicou-se a usar seu gravador para registrar ruídos de uma transa do ator Antônio Pedro com a namorada, e cujo resultado foi exibido no Teatro Casa Grande.

Quase ninguém tinha carro, atravessava-se o Túnel Novo a pé; jogavam-se peladas no pátio, ensaiavam-se peças de teatro e musicais pelos quartos, escreviam-se romances que mudariam a história da literatura (foi lá que Paulo Leminski escreveu o seu famoso Catatau). "A média de idade no Solar devia ser de 23, 24 anos. Eu era dos mais jovens - 19 anos quando fui morar lá, em dezembro de 1967, depois de mais de um ano de flerte com o lugar", conta o escritor Ruy Castro.

"No meu apartamentinho no Solar da Fossa, comecei a compor uma canção que eu desejava que fosse fácil de apreender por parte dos espectadores e, ao mesmo tempo, caracterizasse de modo inequívoco a nova atitude que queríamos inaugurar", escreveu Caetano Veloso em suas memórias. "Tinha de ser uma marchinha alegre, de algum modo contaminada pelo pop internacional, e que trouxesse na letra algum toque crítico-amoroso sobre o mundo no qual esse pop se dava". E assim nasceu Alegria Alegria ("Mandei plantar/folhas de sonho no Jardim do Solar").

"O Solar tem um perfil mítico porque muito se fala dele e pouco se conhece. A maioria diz: Eu já ouvi falar!", conta o autor, Toninho Vaz. Ao contrário da tradição europeia e americana, que põe plaquinhas nos lugares onde a História se desenvolveu, do Solar - ficaria ali entre o Canecão, o Shopping e o túnel - não sobrou nem poeira. Vive só na memória dos que o habitaram. (continua abaixo)

-------

NASCIDAS NO SOLAR

Músicas compostas no local (ouça e assista na playlist abaixo)

- Cristina e Padre Cícero, de Tim Maia
- Alegria Alegria; Panis et Circenses e Paisagem Útil, de Caetano Veloso
- Quero voltar pra Bahia; Pingos de amor; Um chope pra distrair, de Paulo Diniz
- Roda Viva, o arranjo do MPB 4 para a música de Chico
- Sinal Fechado, Paulinho da Viola
- Stella, de Fabio

 

-------

Toninho Vaz trabalhou no projeto durante três anos - ele foi amigo de dois moradores ilustres, os poetas Paulo Leminski e Torquato Neto. "Mas eu nunca morei na pensão. Apenas pude ver rapidamente o casarão pelo lado de fora". Quando pediu uma entrevista para um outro ilustre antigo morador, o escritor Ruy Castro, ele teve uma surpresa: o escritor (que não conhece pessoalmente) não só o ajudou com dicas e memórias como ainda se dispôs a escrever o prefácio do volume.

Vaz crê que existam poucos registros fotográfico do Solar porque "era uma época onde as xeretas imperavam e poucos moradores do Solar tinham uma câmera; eram ‘duros’". O autor pretendia que o livro Solar da Fossa saísse em 2009, mas, segundo conta, a antiga editora, Record, deixou o prazo do contrato, de três anos, vencer. "O contrato estava anulado naturalmente, por negligência da editora. Eu fiz um comunicado acusando isso. Eles, então, imprimiram o livro à noite, depois de terem me devolvido os originais", conta.

Foi um quiproquó. Toninho Vaz conseguiu recolher os livros com uma liminar. Os já impressos ficaram armazenados nos últimos anos na editora, cerca de 4 mil exemplares. "Poucos exemplares vazaram, principalmente com defeitos de gráfica que foram parar em sebos. O juiz arbitrou em R$ 50 cada exemplar colocado à venda. Eles recolheram o pouco que tinha saído", lembra.

Quando foi anunciado o despejo do Solar, o Rio chorou. "Para onde irão agora os artistas pobres, os provincianos, as meninas desquitadas?", escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil o cronista José Carlos de Oliveira. "Deixei o Solar como morador em 1969 e, por sorte, estava longe quando o demoliram. Até hoje sinto certo travo em subir ao shopping que construíram em seu lugar", diz Ruy Castro.

Tim Maia foi viver no Solar com dois cães pastor alemão: "Veio morar comigo. Ainda não era famoso, era mais magro e de uma alegria contagiante", lembra um amigo, o chinês Jacks Wu

***

Betty Faria tem lembranças fortes: "Naquele momento, aos 24 anos, me faltava apenas liberdade pessoal, aquele rompimento necessário para uma pessoa passar a ser gente"

***

Caetano Veloso apareceu para pegar coisas que tinham ficado para trás, entre elas uma música inédita, Não posso me esquecer do adeus

***

Naná Vasconcelos armou um ‘circo’ na varanda, com o que chamava de instrumental básico, e brindou a todos com três horas de sons divinos e muito improviso

***

Paulinho da Viola lembra: "Caetano acabou de cantar e ficou olhando para nossa cara. Ficamos achando estranho, já era a linguagem do tropicalismo"

***

Paulo Coelho também viveu lá: "Em trens, navios e ônibus eles chegavam todo dia. Na bagagem, uma esperança desmedida... Nós, os mais velhos, sentíamos na boca um sabor de morte"

***

"Lembro que não havia nada para comer nem dinheiro, só um vale de garrafa vazia de Coca. Foi o que me salvou, pois consegui comprar leite gelado e um bolinho de fubá", conta Gal Costa

***

Leminski propôs um jogo criativo, sugerindo temas para os outros fazerem música. Uma delas repercutiu mais: Ponha um Arco Íris na Sua Moringa


***

SOLAR DA FOSSA
De Toninho Vaz (Ed. Casa da Palavra)
256 páginas, R$ 39,90