Chico Buarque: sob medida para todas as plateias
Músico estreou show 'Chico' no Vivo Rio
RIO - Até Oscar Niemeyer, com seus 104 anos recém-feitos, saiu de casa para ver Chico Buarque passar, quinta-feira, em sua estreia carioca. Ele passou rápido (em 1h30), como enxuto é o CD Chico, no qual se baseia a turnê - iniciada há dois meses em Belo Horizonte, o HSBC Brasil à vista em março.
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As dez faixas do CD estão no show, costuradas com outras 19 resgatadas das últimas cinco décadas, feitas para discos, peças ou filmes. Entre sucessos (Futuros Amantes, O Meu Amor, Anos Dourados) e "lados B" cantaroláveis só por experts no cancioneiro buarquiano (A Violeira, Desalento).
Depois de quase 40 ensaios e passagens ainda por Porto Alegre e Curitiba, sua banda (Luiz Claudio Ramos, João Rebouças, Bia Paes Leme, Wilson das Neves, Chico Batera, Jorge Helder e Marcelo Bernardes) tem o repertório correndo nas veias.
Hits incontestáveis, como Quem Te Viu, Quem Te Vê, A Banda e Olhos nos Olhos, não há. Mas embora sinta falta de mais momentos de coro, o público, amigo de outros janeiros, vibra com qualquer acorde familiar. Inclusive os das músicas apresentadas em Chico, que desde julho passado vendeu mais de cem mil cópias, tornando-se o mais próspero dos lançamentos independentes de 2011.
Os versos de Querido Diário, Essa Pequena, Tipo Um Baião, Se Eu Soubesse (sem o dueto com a namorada, Thaís Gulin, cuja voz no palco é substituída pela da tecladista Bia) já fazem parte da memória recente de quem estava ali. Elas funcionam muito bem entremeadas com canções de mesma temática: Choro Bandido com Rubato; Sou Eu com Tereza da Praia, de Tom Jobim e Billy Blanco, esta num impagável número com o gracioso Das Neves. Prova de que a qualidade das composições é inflexível.
A sem-vergonha de Sob Medida, a insaciável Teresinha nem a mal-amada de Bastidores são necessariamente contraponto à comedida russa Nina: todas as mulheres do bloco de voz feminina amam "devagar e urgentemente". Na derramada Todo o Sentimento, a noite tem um de seus pontos altos. Com arranjo encorpado, Geni e o Zepelim, que o autor declarou nunca ter cantado em show, é também momento de catarse, pela veia oposta.
A plateia, que aprovou a citação do rapper Criolo em Cálice e se deliciou com o rápido deslize na letra de Sinhá, levou de bônus uma emocionante homenagem a Niemeyer, amigo antigo dos Buarque de Holanda a quem a apresentação foi dedicada.
Sorridente, em casa, mas aparentemente retesado, Chico, que quase não se dirigira aos presentes, puxou palmas a ele e o Vivo Rio se levantou, as luzes se acendendo em seguida. Um dos desenhos do belo cenário de Hélio Eichbauer, uma mulher com as curvas do Rio, é do arquiteto; o outro é de Portinari.
O fã que reclama dos preços, mas acaba pagando o que for para rever Chico em turnê depois de cinco anos sai com a sensação de "tem, mas vai acabar". Quer voltar. Era o discurso das adolescentes de shortinho que gritavam "lindo!" e dos admiradores de sempre, que aguardam pacientemente por suas minguadas aparições.
"Pensou que eu não vinha mais, pensou/ Cansou de esperar por mim/ Acenda o refletor/ Apure o tamborim/ Aqui é o meu lugar/ Eu vim", ele se redimia, na segunda música (a esquecida De Volta ao Samba). No Rio, a demanda por ingressos foi tanta que a temporada se estendeu até o dia 12 de fevereiro. Em São Paulo, com quase tudo esgotado, espera-se o mesmo.
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