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Destaque do Mirada, peça mexicana trata do tema da migração

'Amarillo' tem proposta estética ousada e usa câmeras para fundir atores a cenas pré-gravadas

Maria Eugênia de Menezes / SANTOS,

12 Setembro 2012 | 19h15

"Eu olho para o Norte. Mas o Norte não olha para mim", diz um dos personagens do espetáculo mexicano Amarillo. Título dos mais aguardados desta 2.ª edição do Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, Amarillo esquadrinha uma das feridas abertas do seu país: a migração em massa para os EUA.

O tema, pode-se argumentar, já foi mais do que repisado. Explorado em outras peças teatrais, filmes, livros, até em telenovelas. Porém, o que a companhia Teatro Línea de Sombra consegue captar não se assemelha a nenhuma dessas leituras. Antes, preocupa-se em trazer à cena uma parcela da questão que costuma jazer invisível. "Queremos falar da ausência. Do corpo ausente, que desapareceu no deserto. Da pessoa ausente, que partiu", comentou o diretor Jorge Vargas, que conversou com o Estado logo após a estreia da montagem em Santos. "Também estamos falando de todas as formas de lidar com essa ausência. Das mulheres que foram esquecidas pelos maridos que migraram, de suas tentativas de recompor as próprias vidas."

Amarillo trata de pessoas que tentam atravessar o deserto para chegar à fronteira norte-americana. Flagra o momento em que já partiram, mas ainda não chegaram. Mostra tudo isso como se fosse um delírio. "Muitas vezes, quando se encontram os migrantes, eles estão dando voltas em círculos. Estão desidratados e perdem o senso de orientação. Para nós, isso parece um delírio. E é a partir desse aspecto delirante que podemos constituir um itinerário poético, um imaginário sobre o que possa significar um migrante", observa o encenador.

Criado em 1993, o grupo mexicano tornou-se conhecido pela forma com que combina diversas linguagens artísticas. A atual montagem não foge à regra: mistura recursos de vídeo, dança e música ao teatro. O resultado possui inegável valor estético. O uso de câmeras permite fundir os atores a cenas pré-gravadas. Confunde-se o olhar do espectador, que vê imagens serem criadas e desfeitas incessantemente. Dá-se ao palco o aspecto de uma imensa instalação artística.

Mas a pretensão, ressalva o diretor, não está em conseguir algo que soe a inovação ou tenha mero impacto visual. "Não queremos fazer demagogia. Tudo foi feito a partir do real. Usamos diversos documentários. Trouxemos essas imagens, sem tratamento. Talvez tenha sido a maneira mais tradicional de se aproximar desse assunto, mas isso nos levou ao outro lado."

No México, do mesmo modo como podemos observar no Brasil e em tantos pontos da América Latina, o teatro político tem ganhado novas feições. Saíram de cena os discursos pedagógicos. Entraram outras aproximações conceituais do real, que recusam a sua simples representação. "Escreve-se muito sobre violência. Mas a violência evidente está nos jornais, na TV. Tudo já se transformou em espetáculo, foi teatralizado. A morte foi espetacularizada. Como pode, então, a ficção competir com isso?", questiona Vargas.

Na sua visão, resta ao teatro fazer o caminho inverso. E inventar outras maneiras de falar sobre a realidade. "Sobretudo, porque há violências que não se veem, impregnadas ao sistema. A violência das organizações criminosas, que cercam hoje a questão da migração, não é senão uma perversão do sistema."

Em sua busca, Amarillo não traz propriamente uma história a ser narrada. Seus atores também não estão interpretando. "Eles são como construtores. Arquitetos que criam paisagens", define Vargas. Outra diferença a ser saudada: ao mesclar manifestações artísticas, procedimento tão em voga, a companhia mexicana não apregoa a multidisciplinaridade como valor. Mas como ferramenta. Sua criação oscila em uma zona delicada, nos limites entre o que é e não é arte, o que é e não é mais teatro. "Não misturamos linguagens para encontrar o consenso, mas para buscar o choque."

 
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