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Documentário analisa transformações na cultura negra dos EUA

26 de agosto de 2008 | 21h 42
CHRISTINE KEARNEY - REUTERS

No momento em que os Estados Unidos

têm a oportunidade de eleger seu primeiro presidente negro, a

destacada escritora americana Toni Morrison diz que os

estudantes universitários negros de hoje não estão tão focados

sobre questões raciais quanto seus antecessores.

"Eles não se interessam pela divisão racial. Esse assunto

os entedia", disse Morrison, professora da Universidade

Princeton e primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobel

de Literatura. "Eles nem querem falar sobre isso."

Morrison e outros negros americanos destacados falam sobre

cultura negra em um novo documentário da HBO que vai ao ar esta

semana na TV americana, "The Black List Vol. 1", incluindo

entrevistas com 23 americanos negros de sucesso em diferentes

campos.

Transmitido na semana em que o senador Barack Obama está

prestes a obter a indicação para ser candidato do Partido

Democrata à presidência, o documentário ressalta o significado

de ser negro nos EUA e como isso evoluiu desde o movimento dos

direitos civis, dos anos 1950 e 1960, que lutou para abolir a

discriminação racial.

"A candidatura de Obama trouxe a discussão mais aberta da

questão racial desde o movimento dos direitos civis. Este é um

momento maravilhoso", disse o fotógrafo Timothy

Greenfield-Sanders, que dirigiu o filme.

Morrison, 77 anos, disse à Reuters que alguns

afro-americanos mais velhos têm dificuldade em aceitar que os

tempos mudaram desde o movimento dos direitos civis, enquanto o

país chega mais perto da igualdade.

De acordo com ela, a geração mais velha "às vezes reluta em

ver aquilo pelo qual lutou, uma sociedade não-racista, se

concretizar, porque realmente quer que isso aconteça, mas tem

dificuldade em abrir mão de sua luta".

Morrison e outros entrevistados no documentário, entre eles

Colin Powell, disseram que ainda não há igualdade racial plena

nos EUA. Powell cita o fato de pessoas terem questionado sua

indicação a secretário de Estado dos EUA, devido a sua raça, e

os problemas atuais de crianças negras para terem acesso a

ensino de qualidade.

Acompanhando o filme, uma exposição de retratos

fotográficos vai percorrer várias cidades americanas, e será

publicado um livro de ensaios e fotos.

"Isso abre nossos olhos para o conceito de que o talento

negro é muito mais amplo e abrangente do que se imaginava",

disse Greenfield-Sanders, observando que as entrevistas feitas

pelo jornalista Elvis Mitchell tiveram por objetivo romper

estereótipos.

O coreógrafo Bill T. Jones comentou que os tempos mudaram

muito desde o início dos anos 1980, quando outros artistas

negros, como ele, se sentiram ultrajados quando ele declarou

que se enxergava como artista, em primeiro lugar, e negro, em

segundo.

"Hoje tudo mudou e ficou muito mais complexo. Naquela

época, eu toquei numa ferida, já que a memória dos anos 1960

era muito mais recente", disse ele.

"A América ainda tem grandes problemas com a raça", disse

Jones, mas acrescentou que a candidatura de Obama mostra "que

há muito de que nos orgulharmos".

Para Toni Morrison, a atenção voltada à raça de Obama não

passa de cortina de fumaça.

"É como Otelo: todo o mundo foca o fato de Otelo ser negro,

mas isso é o menos importante nele", disse a escritora. "Quem

quer falar sobre problemas reais, quando se pode dizer 'oh, ele

é negro?'."

Alguns dos entrevistados dizem que, se Obama chegar à

presidência, isso vai restaurar a fé nos ideais americanos.

"Isso fará muito pela imagem que o país tem dele mesmo, e

não me refiro apenas a meninos e meninas negros que poderão

declarar 'eu posso!"', disse Jones.

"Todo o mundo poderá dizer 'este é verdadeiramente um país

em que, se você se esforçar o suficiente e tiver as habilidades

certas, conseguirá fazer qualquer coisa que quiser'. E é isso

que os EUA sempre representaram."



Tópicos: EUAELEICAO, NEGROS