Em entrevista no Roda Viva, Mano Brown é só um mano a mais
Sem a verborragia habitual, líder dos Racionais MC's renegou por várias vezes o rótulo de 'líder da periferia'
Vai-se o mito, fica o homem. A figura mais ativa e respeitada do rap nacional, Pedro Paulo Soares Pereira, o rapper Mano Brown dos Racionais MC's, grupo fundado em 1988 na zona sul de São Paulo, decepcionou aqueles que foram se deitar na madrugada de terça-feira, 25, depois de acompanhar, por quase duas horas, o programa Roda Viva, na TV Cultura. Anestesiado, sem a verborragia habitual de suas letras, Brown perdeu-se em contradições, ficou ‘em cima do muro’ por diversas vezes e renegou (mais vezes ainda) o rótulo de líder da periferia pobre paulistana. Não se esperava ali nenhuma declaração de José Saramago ou Eric Hobsbawm. Esperava-se apenas o mesmo Brown do Capão das letras ácidas e versos cortantes. Este Brown não foi ao programa. Em sua primeira fala, o rapper deu um parecer pouco animador sobre a região pobre da Cidade, afirmando que "melhorou um grão de areia dentro do que precisa ser melhorado". Perguntado sobre o governo Lula, disse apoiar o presidente - "gosto do Lula, sou eleitor dele, apóio, falo bem. Mas não espero benefícios por isso". A turma da bancada - formada pela psicanalista Maria Rita Kehl, o escritor Paulo Lins e os jornalistas Renato Lombardi, da TV Cultura, Ricardo Franca Cruz, da revista Rolling Stone Brasil, Paulo Lima, da Revista Trip e José Nêumanne, do Jornal da Tarde - se esforçou pouco para confrontar o entrevistado, atendo-se, muitas vezes, a obviedades políticas e do meio musical. Acompanhado da platéia pelos colegas de grupo Ice Blue, Edy Rock e o DJ KL Jay, Brown guardou o melhor para as revelações sobre sua quase secreta (ele é avesso a entrevistas) vida pessoal. Admitiu ser um "pai ausente", que tem um "ritmo diferente da família", e que gosta de escrever de dia, "com barulho ou sem". Estudou só até a 8ª série, não acompanha poesia, e tem como referências musicais Jorge Ben, Cassiano e Tim Maia. Adquiriu "a consciência da raça" depois de aprender sobre o líder negro americano Malcom X. "Foi ele que me fez compreender coisas que estavam ao meu lado e que eu não entendia." O discurso sobre a polícia, tão criticada em suas letras, e a análise (rasteira) de suas próprias composições desiludiram. Foi assim quando foi-lhe dada a oportunidade explicar a letra Estilo Cachorro ("não importa de onde vem/nem pra quê/se o que ela quer mesmo é sensação de poder"). "Escrevi para provocar as mulheres. Tem várias minas que curtem rap e querem se ver ali." Ao final da entrevista, sempre cuidadoso, justificou o discurso contido em quase duas horas de programa: "A gente que é rapper canta a rua e vive a rua, encontra a rua. Tudo que você fala, volta". Então tá.
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