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ENTREVISTA-Woody Allen fala sobre 'Vicky Cristina Barcelona'

31 de dezembro de 1969 | 21h 00
BOB TOURTELLOTTE - REUTERS

Woody Allen é visto há muitos anos

como gênio do cinema norte-americano, com trabalhos de

roteirista que datam dos anos 1960 e grandes sucessos de

direção como "O Dorminhoco" e "Hannah e Suas Irmãs".

Ele recebeu o Oscar de melhor direção por "Noivo Neurótico,

Noiva Nervosa" ("Annie Hall"), de 1977, e foi indicado ao Oscar

pelo roteiro de "Ponto Final -- Match Point", de 2005.

Nos últimos anos, a crítica especializada vem fazendo pouco

de muitos de seus trabalhos. Mas não é o caso de sua mais

recente comédia romântica, "Vicky Cristina Barcelona", que

estréia nos Estados Unidos nesta sexta e vem sendo elogiada.

O filme fala dos assuntos românticos de duas turistas

norte-americanas (Scarlett Johansson, Rebecca Hall) e dois

artistas espanhóis (Penelope Cruz, Javier Bardem).

Woody Allen reservou alguns minutos para falar à Reuters

sobre o filme e sua vida.

PERGUNTA: Antigamente o sr. filmava apenas em Nova York;

mais recentemente, filmou em Londres. Por que mudou para

Barcelona?

RESPOSTA: Eu tinha o embrião de uma história e sabia que

ela poderia funcionar em uma cidade exótica. Barcelona começou

a dizer "vamos financiar um filme seu. Venha para cá". Eu achei

que a história funcionaria muito bem em Barcelona. Não é

preciso que seja Paris ou Roma. Barcelona é uma das cidades

mais encantadoras da Europa.

P: E Penelope Cruz veio lhe procurar para pedir o papel da

artista excêntrica -- ou louca, como diriam alguns.

R: Ela disse que sabia que eu faria um filme na Espanha e

que adoraria participar. Ela é tão linda e é uma atriz tão

forte. Achei melhor contratá-la imediatamente, enquanto ela

estava interessada e antes que mudasse de idéia.

P: O fato de sair de Nova York e trabalhar em cidades como

Londres e Barcelona alargou o âmbito de suas histórias?

R: Sim, simplesmente por ir a um país estrangeiro e estar

em um ambiente completamente diferente. O fato de que, neste

filme, trabalhei com pessoas que não falavam minha língua me

obrigou a ter idéias muito diferentes. Eu não poderia ter feito

"Match Point" na Espanha.

P: Parte do filme trata de pessoas que convivem com seus

desejos e anseios não realizados. Você acha que a maioria das

pessoas vive assim, ansiando por coisas que desejaria ter feito

ou deveria ter feito?

R: Sim. Muitas pessoas desejam mais da vida e não sabem

exatamente o que é. Elas sabem que tem que haver algo mais na

vida, algo mais interessante, mais romântico, mais apaixonante,

mais realizador.

P: É triste.

R: Sempre tive uma visão muito triste de tudo. Essa sempre

foi uma crítica feita a minhas comédias, para melhor ou para

pior. Quando eu era humorista que fazia shows ao vivo, já havia

um elemento de melancolia em meu humor. Desde que comecei a

fazer filmes, sempre observaram que havia um elemento de

tristeza neles.

P: Você se vê como alguém que tem sonhos não realizados?

R: Com certeza tenho algumas coisas que lamento em minha

vida. Tive a sorte de entrar em um relacionamento melhor -- o

melhor de minha vida -- já com alguma idade. (Em 1997, Woody

Allen se casou com Soon-Yi Previn, filha de Andre Previn e da

atriz Mia Farrow, que tinha sido sua companheira havia muitos

anos.)

Mas toda a fase anterior de minha vida foi brutal. Passei

de um relacionamento que não funcionou para um casamento que

não funcionou, para outro relacionamento que não funcionou e

para outro casamento que não deu certo. Finalmente, sem

qualquer planejamento de minha parte e pelo mais puro acaso --

o acaso mais inesperado --, me vi em um relacionamento com a

pessoa mais improvável, e ele vem dando muito, muito certo para

mim.

P: E você foi muito criticado por isso.

R: O público não tem relação alguma com minha vida. Não

devo nada ao público por minha vida pessoal. Quem são as

pessoas para me criticarem por minha vida pessoal? Seria como

se eu fosse a suas casas e lhes falasse minha opinião sobre seu

casamento ou sobre como elas criam seus filhos. Elas não têm

interesse na minha vida e eu não tenho interesse nas vidas

delas.

P: A recepção dada a "Vicky Cristina Barcelona" vem sendo

boa. Isso deve ser gratificante.

R: Se você não tivesse mencionado isso agora, eu nem

ficaria sabendo. Terminei este filme há vários meses, e, quando

termino um filme, não sinto mais o menor interesse nele. Já

recebi ótimas críticas de filmes que não ganharam um dólar nas

bilheterias. Recebi críticas negativas de outros, e isso nunca

significou nada. O fato de lhe chamarem de grande não faz você

ser grande, e o fato de dizerem que um trabalho é terrível não

o torna terrível.

Eu me lembro de, anos atrás, voltar para casa depois de ter

um grande triunfo com "A Última Noite de Boris Grushenko"

("Love and Death") e, mesmo assim, a garota do apartamento em

frente não quis sair comigo. Eu estava em casa, sozinho,

comendo comida chinesa diretamente da embalagem, sem nada a

fazer exceto assistir à televisão. O sucesso nunca significa

nada.



Tópicos: FILME, ENTREVISTA, WOODY, ALLEN