ENTREVISTA-Woody Allen fala sobre 'Vicky Cristina Barcelona'
Woody Allen é visto há muitos anos
como gênio do cinema norte-americano, com trabalhos de
roteirista que datam dos anos 1960 e grandes sucessos de
direção como "O Dorminhoco" e "Hannah e Suas Irmãs".
Ele recebeu o Oscar de melhor direção por "Noivo Neurótico,
Noiva Nervosa" ("Annie Hall"), de 1977, e foi indicado ao Oscar
pelo roteiro de "Ponto Final -- Match Point", de 2005.
Nos últimos anos, a crítica especializada vem fazendo pouco
de muitos de seus trabalhos. Mas não é o caso de sua mais
recente comédia romântica, "Vicky Cristina Barcelona", que
estréia nos Estados Unidos nesta sexta e vem sendo elogiada.
O filme fala dos assuntos românticos de duas turistas
norte-americanas (Scarlett Johansson, Rebecca Hall) e dois
artistas espanhóis (Penelope Cruz, Javier Bardem).
Woody Allen reservou alguns minutos para falar à Reuters
sobre o filme e sua vida.
PERGUNTA: Antigamente o sr. filmava apenas em Nova York;
mais recentemente, filmou em Londres. Por que mudou para
Barcelona?
RESPOSTA: Eu tinha o embrião de uma história e sabia que
ela poderia funcionar em uma cidade exótica. Barcelona começou
a dizer "vamos financiar um filme seu. Venha para cá". Eu achei
que a história funcionaria muito bem em Barcelona. Não é
preciso que seja Paris ou Roma. Barcelona é uma das cidades
mais encantadoras da Europa.
P: E Penelope Cruz veio lhe procurar para pedir o papel da
artista excêntrica -- ou louca, como diriam alguns.
R: Ela disse que sabia que eu faria um filme na Espanha e
que adoraria participar. Ela é tão linda e é uma atriz tão
forte. Achei melhor contratá-la imediatamente, enquanto ela
estava interessada e antes que mudasse de idéia.
P: O fato de sair de Nova York e trabalhar em cidades como
Londres e Barcelona alargou o âmbito de suas histórias?
R: Sim, simplesmente por ir a um país estrangeiro e estar
em um ambiente completamente diferente. O fato de que, neste
filme, trabalhei com pessoas que não falavam minha língua me
obrigou a ter idéias muito diferentes. Eu não poderia ter feito
"Match Point" na Espanha.
P: Parte do filme trata de pessoas que convivem com seus
desejos e anseios não realizados. Você acha que a maioria das
pessoas vive assim, ansiando por coisas que desejaria ter feito
ou deveria ter feito?
R: Sim. Muitas pessoas desejam mais da vida e não sabem
exatamente o que é. Elas sabem que tem que haver algo mais na
vida, algo mais interessante, mais romântico, mais apaixonante,
mais realizador.
P: É triste.
R: Sempre tive uma visão muito triste de tudo. Essa sempre
foi uma crítica feita a minhas comédias, para melhor ou para
pior. Quando eu era humorista que fazia shows ao vivo, já havia
um elemento de melancolia em meu humor. Desde que comecei a
fazer filmes, sempre observaram que havia um elemento de
tristeza neles.
P: Você se vê como alguém que tem sonhos não realizados?
R: Com certeza tenho algumas coisas que lamento em minha
vida. Tive a sorte de entrar em um relacionamento melhor -- o
melhor de minha vida -- já com alguma idade. (Em 1997, Woody
Allen se casou com Soon-Yi Previn, filha de Andre Previn e da
atriz Mia Farrow, que tinha sido sua companheira havia muitos
anos.)
Mas toda a fase anterior de minha vida foi brutal. Passei
de um relacionamento que não funcionou para um casamento que
não funcionou, para outro relacionamento que não funcionou e
para outro casamento que não deu certo. Finalmente, sem
qualquer planejamento de minha parte e pelo mais puro acaso --
o acaso mais inesperado --, me vi em um relacionamento com a
pessoa mais improvável, e ele vem dando muito, muito certo para
mim.
P: E você foi muito criticado por isso.
R: O público não tem relação alguma com minha vida. Não
devo nada ao público por minha vida pessoal. Quem são as
pessoas para me criticarem por minha vida pessoal? Seria como
se eu fosse a suas casas e lhes falasse minha opinião sobre seu
casamento ou sobre como elas criam seus filhos. Elas não têm
interesse na minha vida e eu não tenho interesse nas vidas
delas.
P: A recepção dada a "Vicky Cristina Barcelona" vem sendo
boa. Isso deve ser gratificante.
R: Se você não tivesse mencionado isso agora, eu nem
ficaria sabendo. Terminei este filme há vários meses, e, quando
termino um filme, não sinto mais o menor interesse nele. Já
recebi ótimas críticas de filmes que não ganharam um dólar nas
bilheterias. Recebi críticas negativas de outros, e isso nunca
significou nada. O fato de lhe chamarem de grande não faz você
ser grande, e o fato de dizerem que um trabalho é terrível não
o torna terrível.
Eu me lembro de, anos atrás, voltar para casa depois de ter
um grande triunfo com "A Última Noite de Boris Grushenko"
("Love and Death") e, mesmo assim, a garota do apartamento em
frente não quis sair comigo. Eu estava em casa, sozinho,
comendo comida chinesa diretamente da embalagem, sem nada a
fazer exceto assistir à televisão. O sucesso nunca significa
nada.
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