Faz 20 anos que não leio nada novo, diz Antonio Candido
O crítico e ensaísta Antonio Candido se define como um sobrevivente. "Sou provavelmente o último amigo vivo de Oswald de Andrade, um escritor dono de uma personalidade vulcânica", comentou ele, em rara entrevista, ontem, em Paraty, onde, à noite, fez a conferência de abertura da 9.ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Como o homenageado deste ano é justamente o autor de "Marco Zero", Candido decidiu quebrar seu silêncio - não gosta de ser entrevistado tampouco de fazer aparições públicas.
Próximo dos 93 anos (completa no dia 24), o ensaísta mantém fortes lembranças de Oswald (1890-1954) justamente por causa de sua personalidade marcante. "Ele tinha traços de gênio: mesmo não sendo um grande leitor, Oswald captava a essência dos assuntos e discursava como grande entendedor."
A amizade entre eles começou depois de uma crise - o escritor não gostou de uma crítica escrita por Candido sobre "Marco Zero", romance de 1943. "O comunismo fez mal para ele, que passou a escrever uma literatura mais engajada, longe da linguagem telegráfica que era seu melhor estilo", contou Candido. "Eu era um jovem crítico, estava com 24 anos, e não aceitava aquele silêncio que rondava a obra de Oswald, considerado um autor inatacável." Passado o tempo, Candido reconheceu o valor literário do autor. Foi o suficiente para estabelecer uma amizade profunda e sincera, que resistiu até às novas críticas de livros.
Para ele, a crítica hoje é essencialmente exercida por teóricos universitários. Candido diz conhecer a maioria, pois foram seus alunos, formando a "paróquia", como gosta de ironizar. "Admiro muito as novas gerações de críticos, todos muito eruditos", comentou, citando Roberto Schwarz e José Miguel Wisnik, entre outros.
Exibindo uma disposição invejável, a que atribui à boa genética, Antonio Candido reclamou, no entanto, de fazer o trajeto entre São Paulo e Paraty. "Isso me ensinou que não posso mais viajar de carro." Também lembrou que hoje vive "encalhado" no passado, pois ainda utiliza uma máquina de escrever, dispensando computador, celular e outros produtos da modernidade. Também desconhece o que se produz atualmente na literatura, preferindo a releitura de clássicos. "Faz 20 anos que não leio nada de novo. Prefiro Dostoievski, Proust, Eça de Queiroz."
Obra de Oswald - Aplaudido de pé ao entrar no palco da Tenda dos Autores, Candido relembrou a obra de Oswald de Andrade a partir de fatos de sua vida. Colocou-o, assim, no patamar de Oscar Wilde, ou seja, o do escritor que é colocado acima da própria obra. "Isso contribuiu para ofuscar seu trabalho literário", observou. "A mitologia criada à sua figura atrapalhou uma melhor percepção crítica."
Segundo Candido, também a dificuldade em se encontrar os livros do escritor, além da suscetibilidade de Oswald em aceitar críticas negativas, coroaram o ofuscamento. "É de se lamentar, pois era um homem com opiniões, ideias consistentes." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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