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Fernanda Montenegro dá força ao pensamento de Simone de Beauvoir

Atriz reduz sua interpretação às palavras na peça 'Viver Sem Tempos Mortos' encenada no Rio e em São Paulo

05 de outubro de 2011 | 19h 43
Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

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 - Guga Melgar/Divulgação
Guga Melgar/Divulgação

Passaram-se dois anos desde a estreia de Viver Sem Tempos Mortos, encenada no Rio e em São Paulo. “Não parece muito tempo, mas me sinto bem diferente: apanhei bastante”, conta Fernanda Montenegro, voz embargada, lembrando do aumento no número de amigos queridos que se foram com a morte de Ítalo Rossi, em agosto. “Antes, foram o Fernando (Torres), Guarnieri e tantos outros.”

A atriz, no entanto, firma-se no presente. Próxima dos 82 anos (completa no dia 16), Fernanda mantém uma agenda recheada de atividades: rodou um curta-metragem inspirado em A Falecida, de Nelson Rodrigues, prepara-se para embarcar na viagem de Ana Carolina e, no teatro, concentra-se nas palavras de Simone de Beauvoir.

“Li O Segundo Sexo, uma das grandes obras dela, quando estava com 19 anos e, desde então, descubro um novo detalhe a cada releitura”, comenta. “Galina Ulanova, grande bailarina russa, decidiu, certa vez, que não mais faria nenhuma outra coreografia a não ser Romeu e Julieta. Durante 18 anos, ela só dançou essa peça e sempre percebia algo novo. Isso acontece comigo e com qualquer ator: ao entrar em cena, jamais somos o mesmo da noite anterior.”

Quando inicia Viver Sem Tempos Mortos, Fernanda passa a limitar os movimentos para concentrar na fala a narração de uma série de reflexões sobre a vida e a obra de Simone de Beauvoir. “O que importa é a mensagem, não a atuação. Se eu dissesse qualquer uma das frases dela combinando com um acender de cigarro ou um andar pela sala, muita coisa se perderia.”

Fernanda estava convicta de que esse deveria ser o caminho da encenação, mas arriscou variações como teste. Não deu certo: qualquer gesto criava uma personagem que era a que ela queria de fato interpretar. “Por sorte o Felipe (Hirsch) entendeu da mesma forma e, ao dirigir, foi limpando a cena, até chegar ao melhor resultado, minimalista, sensibilizado.”
Assim, o espectador vai desfrutar do poder de uma atriz no pleno exercício de um atuação: vestida de forma discreta (“Assim como era Simone”), ela praticamente não se movimenta, modulando a voz para que as ideias de Simone se espalhem pela sala.

Nesses dois anos desde a estreia da leitura (termo, segundo a atriz, mais apropriado que “espetáculo”), houve uma mudança de governo, com a chegada de Dilma Rousseff à presidência da República. A novidade (trata-se da primeira presidente do Brasil) incentiva Fernanda a comentar sob o olhar simoniano.

“Minha atitude é feminina e não feminista, pois me recuso a ver como exótico o fato de termos uma mulher na presidência. Fico inquieta quando me questionam sobre isso, pois, o contrário não causa espanto”, comenta. “Dilma vem se mostrando uma mulher íntegra, que ainda está no tempo de prestar atenção no em torno e em si mesma. Não é afoita ou histriônica e gosto de saber que não tem experiência política.”

O fato de a presidente não hostilizar a oposição, de ter convidado ex-mandatários para recepcionar Barack Obama, e de ter escrito uma carta de alta qualidade em que felicitava os 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, isso qualifica Dilma, no entender da atriz, como uma personalidade política. “O problema é que a corrupção no Brasil virou um poder suprapartidário, quase um quarto poder”, lamenta.

“Se Dilma ceder a esse poder paralelo para poder governar, teremos um governo corrupto. Ela parece viver um dilema shakespeariano, como Hamlet: se cede sua integridade para poder governar, como será esse mandato? A corrupção, no Brasil, tornou-se algo ameaçador, despudorado. É tal a força que a coisa não é sub-reptícia, mas falada, escrita e desafiada.”

VIVER SEM TEMPOS MORTOS - Teatro Raul Cortez. R. Dr. Plínio Barreto 285, tel. 3254-1700. 6ª, 21h30, sáb., 21 h, dom., 18 h. R$ 80/ R$ 100. Até 27/11.