Filme 'Edifício Yacoubian' revisita a história do Egito
Longa-metragem que estréia no País é baseado no best-seller do escritor Alaa al Aswany
As moradias também têm a sua saga; mudam conforme muda a História. É por aí que vai este interessante O Edifício Yacoubian, filme egípcio de Marwan Hamed. No prólogo, temos a história do prédio. Fundado como moradia de luxo no Cairo dos anos 1930, abrigou as famílias abastadas e uma população cosmopolita. Depois veio o governo de Nasser e a composição habitacional do Yacoubian se alterou, passando a abrigar muitos militares. Como o Egito estava em guerra com Israel, a população judia desapareceu preventivamente. Mais alguns anos e uma certa decadência se abate sobre o venerando prédio. Alguns amplos apartamentos ainda são ocupados por famílias tradicionais, porém endividadas. No telhado, os antigos depósitos dos apartamentos agora servem como moradias para os mais pobres. O país mudou, a cidade idem, e o edifício Yacoubian não poderia escapar ileso. Ele próprio é reflexo do que acontece na contraditória e heterogênea sociedade do Cairo.
Um filme desse tipo em geral mescla muitas histórias. É o que faz Marwan Hamed que, no entanto, procura manter o foco sobre o personagem Zaki El Dessouki (Adel Imam), uma espécie de playboy decadente, que já foi pachá e agora divide o apartamento com uma irmã que é uma víbora e parece ansiosa em se livrar dele.
Se o foco está sobre Zaki, nem por isso deixam de circular em cena outros personagens tão interessantes quanto ele: o homossexual que é editor de um jornal e leva rapazes para sua casa; a moça que mora num dos antigos depósitos do teto e vê-se obrigada a ceder aos avanços do patrão para não ser despedida. Um ricaço que se envolve em negócios escusos com gente do governo.
Enfim, Hamed faz do Yacoubian um microcosmo no qual convivem e entram em contato (e confronto) pessoas das mais variadas origens, tendências, faixas etárias, crenças, etc. É pouco crível que tal heterogeneidade se encontre no mesmo condomínio, mas é em tese possível que isso aconteça. Em parte, acontece aqui mesmo em São Paulo no complexo formado pelo Edifício Copan.
Mesmo que não corresponda à verdade factual, o artifício do filme (baseado em um best-seller de Alaa al Aswany, publicado em 2002) revela-se rico do ponto de vista da dramaturgia. Consiste em colocar o país inteiro, resumi-lo, no espaço exíguo em que convivem alguns poucos personagens, representativos das diferentes camadas de que se compõe a sociedade.
Com essa ambição histórica, o filme às vezes se torna um tanto pesado. Mas são momentos raros. Em geral, ele se deixa conduzir de forma fluente, alternando um tom ora romântico (no registro visual) ora mais realista, como nas cenas de conflitos de rua. Às vezes parece um melodrama, mas de qualidade. E o personagem de Zaki de fato conquista o espectador. Seu intérprete, Adel Imam, ganhou o prêmio de melhor ator na Mostra de São Paulo do ano passado.
O Edifício Yacoubian (161 min.) - Drama. Dir. Marwan Hamed. 18 anos. Reserva Cultural 1 - 14h50, 18 h, 21h10 (sáb. também 0 h). Cotação: Bom
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